Forças Armadas atraem candidatos. Depois desiludem-nos

Estudo sobre militares em regime de voluntariado e contrato revela que a maioria vive experiências profissionais pouco positivas.

O modelo de voluntariado das Forças Armadas (FA) continua a atrair os jovens por razões positivas e não como uma alternativa ao desemprego. É depois a passagem pelas fileiras que gera perceções negativas em muitos deles sobre o serviço militar.

Esta conclusão decorre dos dados obtidos num estudo do Ministério da Defesa, soube o DN junto de fontes conhecedoras do documento, para caracterizar o universo sociodemográfico dos jovens que integram os regimes de contrato e voluntariado (RV/RC) - deixando de fora os voluntários dos quadros permanentes (QP) - e, também, qual o seu grau de satisfação com a organização militar (ver infografia).

Se os 11 189 candidatos para as fileiras em 2016 (mais do que no ano anterior) para menos de metade das vagas existentes revelam a atratividade da vida militar mas nada dizem sobre as motivações dos jovens que se ofereceram como voluntários para os três regimes existentes (QP, RV e RC), os resultados do referido estudo oferecem pistas sobre isso - e, principalmente, sobre a imagem que construíram durante a vida militar e com a qual regressam à vida civil.

Segundo uma das fontes, os dados existentes mostram que o que "de forma direta" leva os jovens a candidatarem-se é "a atratividade das missões das FA, os valores característicos da vida militar", o servirem Portugal e defenderem o país ou, ainda, o poderem "continuar a estudar ou obter formação" académica ou profissional.

Participar em missões militares no estrangeiro, espírito de camaradagem, disciplina e organização ou a prática desportiva foram as características que "maior importância" tiveram na decisão de ingresso dos candidatos, adiantou a fonte.

Note-se que a atual falta de efetivos em RV/RC nas fileiras, nomeadamente na categoria das praças, explica-se com vários fatores: desde logo o desequilíbrio criado por as saídas de efetivos entre 2011 e 2015 (período da troika) não terem sido compensadas com um número equivalente de admissões; depois, a gestão militar dos recursos humanos que leva a canalizar verbas do recrutamento RV/RC para, sem aumento de despesa, fazer promoções entre os QP ; ou, ainda, as cativações impostas pelas Finanças que atrasam ou não permitem as necessárias incorporações numa altura em que estão a terminar os contratos (de seis anos no máximo) dos militares entrados no início da década - circunstância que torna mais premente a atual necessidade de admitir efetivos.

Quanto a muitos efetivos RV/RC que deixam as FA nos primeiros anos de contrato (com limite máximo de seis anos), algumas fontes explicam essa situação com "a sobrecarga de empenhamento" que lhes é imposta: num quadro de redução de quadros, mantêm-se as mesmas missões - a maioria não militares - e não se fecham mais quartéis e unidades castrenses.

Com os últimos cursos de admissão para as forças especiais do Exército - paraquedistas, comandos e rangers - a terminarem com números baixos para as respetivas exigências operacionais, o caso do dos Comandos que há dias terminou com apenas 13 recrutas aparenta ser outro exemplo do impacto que uma imagem negativa das FA tem sobre os efetivos: ainda com a morte dos dois jovens (no início do curso anterior) ainda na memória, a grande maioria dos 44 alunos desistiu ao regressar ao quartel após passar o fim de semana em casa, confirmaram diferentes fontes do ramo ao DN.

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Rosália Amorim

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