FCT promete 95% dos apoios à investigação nesta semana

Investigadores queixam-se de lentidão na comunicação das bolsas, que abrangem 1618 projetos. Fundação reconhece complexidade mas estima resolução rápida

A incerteza de muitos investigadores em relação aos apoios da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) poderá terminar em breve, com esta entidade a adiantar ao DN ter "estimativas" de que, já nesta semana, "estejam aprovados e comunicados cerca de 95% dos projetos a financiar".

Apesar do anunciado reforço, quer de verbas quer de projetos abrangidos, o concurso de Investigação e Desenvolvimento Científicos (IC&DC) tem decorrido com alguma lentidão, o que está a gerar apreensão no setor. Até porque muitas equipas de investigação estão há cerca de um ano sem garantias de continuidade do financiamento público das suas atividades.

A análise, por uma equipa de peritos internacionais, das 4593 candidaturas - muitas das quais enviadas no primeiro trimestre do ano passado - terminou em novembro de 2017. No entanto, segundo confirmou ao DN a própria FCT, até à passada sexta-feira ainda só tinha sido comunicado o financiamento a 1028 dos 1618 projetos que serão financiados por um período de três anos, num montante global de 375 milhões de euros. Ou seja: cerca de 37% dos candidatos que irão receber estes apoios ainda não foram informados dessa decisão.

Verbas iniciais dispararam

A fundação explica a demora com a própria expansão do concurso, que tinha arrancado com um teto bem mais modesto de 110 milhões de euros - que cobriria apenas cerca de um quarto dos projetos apresentados - e acaba por ter uma das maiores dotações de sempre, graças à concentração de verbas comunitárias, nomeadamente do Compete 2020 e dos Programas Operacionais Regionais. O objetivo foi não só responder ao aumento das solicitações como aumentar a execução do atual programa--quadro, já que concursos futuros não poderão beneficiar na íntegra de verbas deste programa comunitário, que termina dentro de dois anos e meio.

"Uma vez decidido o reforço da dotação global do concurso, deu-se início à necessária tramitação entre as entidades financiadoras (seis Programas Operacionais do Portugal 2020 e FCT)", explica a fundação. "Para concluir o processo de decisão do concurso é necessário que todos os Programas Operacionais notifiquem os candidatos sobre o resultado."

A confirmarem-se as projeções da FCT, depois da próxima semana ficarão por notificar apenas cerca de 80 candidaturas, respeitantes a projetos "que envolvem o financiamento conjunto de mais do que um Programa Operacional", o que implica "coordenação adicional entre as entidades financiadoras". Em relação a estes últimos casos, a FCT não apontou uma previsão de comunicação aos investigadores.

Ver para crer

A notícia de que o atual concurso plurianual terá uma dotação recordista é naturalmente considerada positiva pelos investigadores. No entanto, recorda ao DN Carla Baptista, do Instituto de Comunicação da Universidade Nova de Lisboa (ICNova), "uma comunidade científica precisa de fazer o seu próprio critério com base em resultados concretos". Com os atuais dados de apoios comunicados, diz, "só consigo ter visões parcelares e imprecivas neste momento".

Outro aspeto que preocupa as equipas de investigação é a contratação dos especialistas para os temas que pretendem trabalhar.

Nestes concursos, as instituições do ensino superior passam a ter de contratar pelo menos um investigador doutorado, acabando o recurso às tradicionais bolsas de investigação. Uma medida que é também naturalmente entendida como positiva no setor.

No entanto, Carla Baptista avisa que o facto de as instituições apoiadas não estarem a ser notificadas em simultâneo das decisões pode criar um fator de desigualdade, penalizando quem recebe a notícia mais tarde: "As pessoas que receberem primeiro vão poder contratar primeiro. Isto é um mercado competitivo", diz. "Se dentro de dois ou três meses quiser contratar alguém na área da comunicação com esse perfil, se calhar já não a vou encontrar", ilustra.

No anterior concurso, realizado em 2014, tinham sido apresentadas mais candidaturas do que no atual, chegando às 5454. No entanto, os resultados foram bastante mais modestos, com apenas 696 projetos a garantir financiamento, o qual totalizou apenas cerca de 120 milhões de euros de verbas distribuídas.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.