Doação de órgãos atinge recorde e transplantes sobem 11%

Foram realizados 830 transplantes no ano passado, mais 83 do que em 2014. Equipa que coordena esta área só tem quatro pessoas

Portugal nunca fez tantas colheitas de órgãos como em 2015. No ano passado, houve registo de 381 dadores, correspondentes à melhor taxa de sempre: 36,7 dadores por milhão de habitantes, segundo dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST). A subida da atividade permitiu realizar 830 transplantes em 2015, mais 83 (11,1%) do que no ano anterior. Os responsáveis do IPST salientam o enorme esforço com que foram atingidos os resultados, especialmente porque a coordenação nacional - que apoia 53 hospitais - tem hoje apenas quatro pessoas.

O número de dadores subiu 9,5% num ano, também graças ao crescimento da doação em vida. Já o número de órgãos colhidos por dador aumentou em relação a 2012, mas não atingiu o máximo, como aliás já aconteceu no ano anterior. "A idade média dos dadores de órgãos continua a aumentar, o que afeta a sua qualidade", diz Ana França, a coordenadora nacional da transplantação. De 2009 até 2015, a idade média dos dadores aumentou sete anos, para 54,2.

Há situações em que apenas "é possível aproveitar cerca de metade dos órgãos, como acontece com o pulmão. Só houve 15 transplantes porque os pulmões têm de estar em ótimo estado. Muitas vezes vão beneficiar crianças com fibrose quística".

Outro órgão cuja qualidade fica altamente afetada pela idade, e pela existência de várias patologias relacionadas, é o rim. Apesar da subida, e de terem sido realizados 476 transplantes, - o número maior dos últimos quatro anos - a lista de espera continua a crescer. "No ano passado entraram 742 doentes novos em lista de espera, quando o habitual é entraram 500". Por essa razão, a lista de espera era de 2053 doentes, para um tempo de espera médio de quatro anos, assume Ana França. Mais uma razão para se promover e fazer campanhas para a dádiva em vida, que "é sobretudo favorável no caso dos doentes mais jovens. Os profissionais devem ir esclarecendo as pessoas sobre esta possibilidade. Temos em perspetiva um programa de formação de enfermeiros nas clínicas de diálise, para ajudar as pessoas a decidir".

Salvo o caso do pulmão, houve uma subida na transplantação, em particular no caso do pâncreas (mais 38,5% para 36 transplantes), hepáticos (mais 20% ) e cardíacos (mais 18,6%). Mas os melhores resultados na área renal e hepática, por exemplo, foram obtidos antes de 2010, altura em que se atingiram recordes mundiais. Desde 1980 foram realizados 16974 transplantes.

63 transplantes com dador vivo

A dádiva em vida está também em crescimento, embora longe dos níveis de alguns países em que culturalmente esta prática já é mais difundida, como os países nórdicos, que têm feito crescer a transplantação com esta prática altruísta.

Mas mesmo por cá está a haver avanços. "Em Portugal já se fizeram 685 transplantes de rins e 33 de fígado com dador vivo. Só este ano houve 64 transplantes com dador vivo, na maioria cônjuges e familiares", diz Ana França.

Além das campanhas de sensibilização, tem havido tentativas de estimular o transplante renal cruzado, que é uma alternativa para quem quer dar em vida, mas é incompatível com o recetor. Neste caso, tenta-se reunir um conjunto de pares e fazer uma troca. "Este ano já conseguimos beneficiar cinco pares de dadores-recetores".

Espera-se agora avançar com a colheita com dador em paragem cardiocirculatória, que foi realizada pela primeira vez no país no dia 1 de janeiro, no Hospital de São João (ver em cima). "Helder Trindade, presidente do IPST, disse ao DN que "esta foi a primeira vez que este tipo de transplante se realizou. Mas acredito agora que os restantes hospitais que têm condições para o fazer não queiram ficar para trás e avancem mais rápido."

Santa Maria, São José, Santo António e Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra estão também a preparar-se para este novo desafio. "Algumas unidades já têm os equipamentos necessários para avançar, nomeadamente a máquina ECMO", que permite a oxigenação do sangue enquanto se espera pela colheita de órgãos, explica Ana França. O pioneirismo do São João deve-se "ao facto de terem mais experiência com este equipamento". Em Espanha, por exemplo, esta técnica está a permitir incrementar a colheita de órgãos que podiam ser desperdiçados.

Equipa com poucos recursos

Os resultados obtidos no último ano podem não se conseguir manter, avisa m os dois responsáveis, em entrevista ao DN. "Temos ainda alguns problemas nesta área e uma instituição recente, já que foi alvo de mudanças nos últimos anos e não houve transferência de alguns recursos, que hoje são escassos", diz Helder Trindade.

A coordenação tem apenas quatro pessoas, estando à espera de contratar mais duas, num concurso que dura cerca de dois anos. É a esta equipa que cabe mobilizar os recursos nacionais em torno de uma atividade "que obriga a um esforço constante. Temos de mobilizar os coordenadores dos gabinetes de doação, os hospitais, fazer formação às equipas. Damos suporte a 53 hospitais e quanto há mudanças na gestão temos de reiniciar o trabalho", justifica Ana França, lembrando que há estudos que mostram poupanças ao fim de poucos anos com os transplantes.