Denis Mercier: "A Rússia é uma ameaça potencial"

O comandante supremo aliado da NATO para a Transformação (SACT, sigla em inglês) decidiu receber o Comité Militar da NATO em Lisboa e não em Norfolk, sede desse Comando Aliado estratégico da Aliança (ACT). A opção traduz a importância que o general francês Denis Mercier dá ao Centro de Análise Conjunta e Lições Aprendidas (JALLC) na evolução dos processos de treino e de combate dos 29 aliados, bem como a convicção de que os contingentes nacionais podem melhorar a partilha das respetivas lições aprendidas nos teatros de operações.

O JALLC é conhecido na NATO?

Sim e fazemos o nosso melhor para lhe dar maiores responsabilidades. A NATO tem desenvolvido sempre um processo robusto de lições aprendidas, que identificamos nos exercícios operacionais. Depois tentamos aprender e melhorar. O objetivo é recentrar as lições aprendidas para apoiar tudo o que fazemos em exercícios e operações. É uma tarefa dada neste ano ao JALLC, que está a reorganizar-se para usar ferramentas do século XXI - análise de dados, informação artificial - e melhorar. Ao nível da inteligência artificial, temos muitas bases de dados sobre as lições identificadas e o objetivo é construir um portal único com acesso a todos os bancos de dados, coordenando-os com os de outras organizações, como a UE, ou de outros países. A visibilidade do JALLC tem sido boa mas agora está realmente a melhorar e será muito importante no futuro. Estou muito satisfeito por organizar esta visita do Comité Militar a Lisboa, para explicar a todos os países membros o que o JALLC está a fazer e como irá aperfeiçoar a forma como operamos no futuro.

A NATO está a mudar e o ACT é essencial nesse processo. O que vai dizer ao Comité Militar (CM)?

A primeira coisa é continuar a conversar sobre o que é uma gigantesca adaptação da NATO, que resulta do facto de terem mudado os pressupostos estratégicos em que assenta o Conceito Estratégico aprovado em 2010. Por exemplo, o de a Rússia ser um parceiro quando tem violado leis internacionais; as primaveras árabes... Temos de adaptar a estrutura comum para enfrentar a complexidade do ambiente atual. Mas sabemos que os pressupostos continuam a mudar e é papel do ACT antecipar permanentemente o que serão essas evoluções. O CM irá discutir questões estratégicas que poderão condicionar futuros documentos e estratégias, a estrutura da forças para cenários futuros e quais as contribuições militares para esses cenários, a inovação...

Com novas tecnologias, serão precisas forças mais pequenas?

Precisamos de forças flexíveis. O que caracteriza o futuro é a complexidade, a enorme interligação das ameaças. Temos a interação de atores, Estados ou não estatais, que atuam de forma diferente de acordo com a situação geográfica. Temos diferentes cenários que podemos antecipar, como maior concentração em ambientes urbanos... Parte dessa complexidade são as novas tecnologias e estou a pensar na inteligência artificial, em sistemas autónomos de inteligência artificial. Uma questão central é compreender o que será e qual será essa evolução. A segunda é entender como isso poderá ser usado por potenciais adversários (mesmo não estatais) e como isso pode ameaçar a superioridade da NATO. Terceiro, como podemos nós usar essas tecnologias para melhorar a capacidade de resposta do nosso processo de decisão. Em torno disto há inúmeras questões, como a da interoperabilidade. Não falo só no plano técnico, mas também político. Se desenvolvermos mais sistemas autónomos, todos os países terão acesso ao mesmo grau de autonomia? É urgente falar sobre esses assuntos, definir de forma concreta onde se investe o dinheiro, que grau de autonomia iremos dar a que sistemas...

Fala de interoperabilidade quando a Turquia está a comprar sistemas de mísseis à Rússia...

Isso não se limita à Rússia. Por isso é muito importante que continuemos a trabalhar juntos quando construímos a nossa força. Temos o processo de planeamento de defesa da NATO, onde as nações desenvolvem de forma coerente os seus sistemas de forças. E precisamos de estar seguros que os países serão capazes de integrar essas capacidades nas redes da NATO. Isso exige um grau de segurança que os sistemas russos não têm. Não estou a mencionar um país, estou a dizer que é importante - é um aspeto político - estarmos seguros de que conseguimos integrar os nossos sistemas nas redes classificadas da NATO. É essencial.

Há um novo comando para o Atlântico. Para quê? Será conjunto ou naval? Será muito caro?

Não. O que estamos a fazer é operar e analisar. As operações incluem um comando mais ligeiro e estamos a trabalhar de forma conjunta no ACT. Quais as funções que estamos a perder se tivermos uma crise que se desenvolva rapidamente para um potencial conflito? O objetivo da NATO é ter bom conhecimento da área, capacidade de dissuasão, reagir depressa para reduzir a intensidade de uma crise. Temos funções que identificámos como tendo de ser mais bem implementadas: cyber, logística... Por isso, uma das recomendações é implementar o que chamamos Comando Conjunto de Retaguarda para Apoio Logístico às Operações.

Que ficará na Alemanha...

A Alemanha ofereceu-se para desenvolver esses trabalhos... não será um regresso à Guerra Fria, não é para ter tudo implementado num grande comando da NATO. Este comando logístico ficará baseado no país que o desenvolver. E é o mesmo para as linhas de comunicação marítima. O comando naval será responsável pelos assuntos marítimos. Mas se houver uma grande escalada para um potencial conflito, a questão-chave será a proteção do Atlântico e o reforço das forças na Europa, oriundo dos EUA. Como temos de enfrentar todos os cenários, não será um quartel-general da estrutura de comandos da NATO. Os EUA vão desenvolver esse comando. Será um quartel-general da estrutura de forças da NATO, com um pequeno elemento da estrutura de comandos (25 elementos) capaz de crescer rapidamente. É barato e estamos contentes por ser comandado por um oficial norte-americano. O nome terá de ser definido, Comando Conjunto de Forças para o Atlântico ou similar. Será conjunto, pois envolve muito mais que as linhas de comunicação marítimas. Como desembarcar forças, pois estamos a focar-nos em porta-aviões... Será conjunto e a sua localização ainda não foi decidida.

Será em Norfolk (Virgínia, EUA)?

Ainda está em discussão. Mas os EUA são o país que vai desenvolver esse novo comando. É importante que levemos o Atlântico a sério.

As ameaças russas, por exemplo às comunicações submarinas, são reais?

A Rússia não é um inimigo, é uma ameaça potencial porque tem violado as leis internacionais. Consideramos todos os cenários e em todos eles temos de admitir o pior, que é um grande conflito. Então o Atlântico será uma área estratégica. Por isso, o papel desse Comando Conjunto de Forças para o Atlântico.

Sendo os EUA a desenvolver o novo comando para o Atlântico, a STRIKFORNATO terá um papel mais importante?

Sim, absolutamente. A STRIKFORNATO tem sido um quartel-general chave para integrar as forças navais dos EUA nas operações da NATO e isso reforçará o seu papel. A STRIKFORNATO permanecerá em Lisboa e se pensarmos no reforço das forças através do Atlântico, como serão integradas rapidamente na NATO, acredito que isso vai reforçar a STRIKFORNATO porque vamos ter um melhor conhecimento de toda a área atlântica.

E quanto ao novo centro de cibersegurança da NATO?

Uma das funções que temos de integrar é a área cibernética. Não a separo dos outros domínios, por isso dizemos que é uma quinta dimensão. É como integramos o que chamamos efeitos conjuntos, que são terrestres, aéreos, navais, espaciais (e há uma renovada ênfase no espacial) e cyber. Tem havido duas abordagens diferentes para a cibernética: a primeira seria criar um comando cyber como temos comandos aéreos, marítimos e terrestres. Mas decidimos fazer algo diferente.

Porquê?

Porque na área cibernética somos mais fortes se estivermos juntos. Decidimos federar a cibernética, o que significa a criação de um centro cibernético no SHAPE que federa todas as capacidades dos países aliados e já o testámos em junho passado. Quando temos um ataque informático, se federamos as diferentes capacidades detetamos mais depressa e reagimos muito melhor. Pela primeira vez usámos a Cyber Range [uma plataforma para exercícios e treinos] que desenvolvemos no Centro de Ciberdefesa da NATO na Estónia e federámos cibercapacidades de Portugal e da Alemanha. Não é fácil, mas continuaremos a melhorar essa área. Portugal já desempenhou um papel importante e esperamos que continue a ter um papel importante. E também começamos a ter boas relações com o setor privado, esrtamos a trocar muita informação com as empresas.

As missões da NATO são feitas por contingentes nacionais. Partilham a informação sobre as suas lições aprendidas com os outros aliados?

Sim, mas temos de nos organizar muito melhor. Cada comando é responsável por retirar lições, mas o que o JALLC está a fazer é organizar isso. E é um enorme processo organizar um banco de dados de forma a ser entendido por todos e para que todos tenham a mesma visão das lições identificadas, de como as reportar e partilhar com outros. É outra área de abordagem federada e esse é o papel do JALLC. Organizar essas lições é essencial, cada país partilha as suas lições e podemos ter uma imagem clara do que os aliados precisam.

Mas isso depende da vontade dos países...

Como é normal. Daí informarmos o Comité Militar, formado pelos 29 países aliados. Somos uma aliança e muitos aspetos só funcionam se os aliados se empenham. É o caso das capacidades: se os países não derem forças, a NATO não as terá. Para as lições aprendidas, os países precisam de entender que há um grande valor em partilhar essas lições. Acho que já o entendem, mas precisamos de as organizar. Na ciberdefesa é o mesmo, federar é bom se os países quiserem partilhar a informação. Mas para a partilhar temos de a organizar.

Mas receber o Comité Militar no JALLC não indicia que ainda há muitas dificuldades?

É um esforço permanente pedir aos países para o fazerem corretamente. Mas se os países o fizerem individualmente, não teremos possibilidade de partilhar. É por isso que temos de desenvolver bancos de dados, o portal, desenvolver modelos e formatos para garantir que os países os utilizem e haja interoperabilidade nessa área. A NATO é formada por 29 países e o que tem é uma estrutura de comando e controlo que permite às forças aliadas trabalharem juntas.... Na NATO não tentamos reinventar a roda e duplicar o que existe nos países. O que queremos é federar o que existe.

O Reino Unido é visto como o líder das forças da UE na NATO, ocupando o cargo de segundo comandante supremo aliado para as operações (DSACEUR, sigla em inglês). Com o brexit, quem assumirá esse papel?

Não vejo problema com isso. A UE tem de se adaptar mas bna NATO não há consequências diretas. o DSACEUR é responsável pelo Acordo de Berlim Plus, sobre como usar ferramentas da NATO por outras organizações. Mesmo com o brexit, haverá um acordo específico [da UE] com o Reino Unido. Por isso, continuar a ter um britânico como segundo comandante supremo aliado para as operações é provavelmente uma boa forma de continuar e de ajudar a desenvolver esse acordo específico. Veremos o que será decidido a nível político, mas a NATO e a UE são complementares. Vejo isso mais como uma oportunidade do que um desafio. Se o DSACEUR fosse uma posição europeia poderia ser um problema, mas é um cargo na NATO que coordena com a UE.

Última questão: o general Pina Monteiro deixa nesta semana o cargo de principal chefe militar. Como foi trabalhar com ele?

É um líder correto e, sempre que falou no Comité Militar, foi muito sólido e muito ouvido pelos outros chefes militares. É realmente um bom profissional, um grande líder e tem sido para mim um prazer trabalhar com ele em muitos assuntos relacionados com o ACT e Portugal.

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