Carlos Moedas: "A política portuguesa continua obviamente a seduzir-me"

Esta é a última parte de uma conversa de mais de uma hora com o Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação e que viu a primeira parte, dedicada a temas europeus, publicada na edição de aniversário do DN, na sexta-feira. Hoje falamos de temas nacionais, da relação de Carlos Moedas com o governo e de eventual futuro no PSD. Um final de entrevista com algumas hesitações e sorrisos, naturalmente limitado pelas funções que desempenha na Comissão e que desaconselham opinião sobre assuntos de política doméstica.

Vi-o feliz há dias com a eleição de Mário Centeno. Que desafios antevê para os dois anos de Centeno no Eurogrupo? Vai estar no olho do furacão

Vai estar no olho do furacão, Em relação ao que falávamos sobre os estabilizadores da zona euro, em relação ao Fundo Monetário Europeu, em relação à eventual criação de um posto que seja um vice-presidente da Comissão que também é presidente do Eurogrupo, tudo isso vai ser o legado do Mário Centeno para o futuro se o conseguirmos fazer e portanto ele tem uma responsabilidade extraordinária. Portugal fica também com a responsabilidade de dar o exemplo, portanto vamos ter de continuar a dar o exemplo de que cumprimos, de que fazemos, e portanto Portugal de certa forma Eu penso que não é só Mário Centeno como presidente do Eurogrupo, Portugal também tem uma responsabilidade acrescida e isso é bom para Portugal.

Mas para lá desta questão reputacional, de Portugal ficar, se quiser, usando uma expressão popular, mais bem visto, que vantagens é que vê na presença de Mário Centeno aqui no Eurogrupo para o país?

Ter alguém que representa a Europa, teoricamente não pode ser vantajoso para o país. Ou seja, é Mário Centeno que por acaso é português que dará bom nome a Portugal mas tem que conseguir um equilíbrio nas suas decisões e portanto ele não pode fazer nada que seja em favor de um país específico, Portugal ou outro país., Eu acho que este tipo de posições, como António Guterres nas Nações Unidas, não é uma questão de ajudar diretamente o país, é uma questão de deixar uma melhor imagem, de criar uma imagem de um Portugal melhor, e de com isso trazer Portugal para o centro das atenções. E isso é bom para Portugal.

Falávamos há pouco da diferença ente a Europa de há uns anos e esta Europa acha que há condições para avançar com esse plano Juncker? Esta questão de um estabilizador automático é uma ideia de ruptura, que há uns anos se alguém se lembrasse disso era considerado um radical. Crê que está criado o clima para haver uma mudança?

Sim, eu acho que Temos aqui o grande player, ou o grande jogador, que foi o Presidente Macron, e portanto o Presidente Macron lançou, primeiro deu mais força a França a nível europeu, o Presidente Macron tem essa agenda e se conseguirmos alinhar os franceses com os alemães, que agora vamos ter de esperar um bocadinho,

Temos o eixo...

Temos o eixo, temos os dois grandes motores do avião. Temos que ser realistas, já temos aqui os dois grandes motores neste avião que é este eixo franco-alemão e sempre que esse eixo funcionou, as coisas fizeram-se. E talvez o que tenha acontecido nos anos da crise e que as coisas não se passaram tão bem é porque houve um grande desequilíbrio.

É porque o eixo se desalinhou.

Porque o eixo se desalinhou. Portanto nós temos aqui uma oportunidade única, temos o Presidente Macron alinhado, e os alemães estão a alinhar-se também e a partir daí eu penso que é possível fazermos e que é possível chegarmos a bom porto.

É comissário enquanto em Lisboa está um governo que não o escolheu. Como é que têm sido as suas relações com António Costa e com o governo socialista?

Sempre relações institucionais muito boas, aquele que é o meu papel, que é estar aqui no fundo a representar a Europa, mas sempre no fundo também com um papel que é representar o meu país, portanto o governo e o primeiro-ministro sabem que podem sempre contar comigo aqui para conseguir transmitir mensagens sobre Portugal, para poder ter um olho sobre Portugal. Não posso representar Portugal, mas tenho tido uma relação muito boa com o primeiro-ministro, com os vários ministros, e isso tem sido bom para Portugal. No caso das potenciais sanções, penso que isso foi realmente bom para Portugal porque estávamos todos alinhados na defesa e na explicação daquilo que não deveria acontecer.

Acha que já é visto como alguém que está acima dessa guerrilha diária que acontece em Portugal.

É essa a minha função. Eu acho que aquilo que nós temos sempre de ver na vida é qual é a nossa função e a minha função aqui é acima de todos os partidos e para estar acima de todos os partidos tenho de ter uma neutralidade em relação a todo os partidos e é isso que os portugueses esperam do seu comissário.

Como é que classifica a voz de Portugal neste momento na Europa? Lembro-me de o ter ouvido a seguir à saída do procedimento por défice excessivo dizer que Portugal agora tinha mais credibilidade para levantar a voz, foi essa a expressão que usou. Temos uma voz mais credível neste momento, que é mais ouvida?

Temos uma voz mais forte, eu acho que o facto de termos passado a troika, de sair da troika, de continuar estas reformas, deu-nos uma voz mais forte, uma voz em que podemos agora também ser nós, sentados à mesa, a decidir esse mesmo futuro da Europa, não é, o que é que queremos nesse futuro, o que é que nos traz para Portugal a capacidade de estarmos a desenhar esse futuro e não só sentados como estávamos na crise em que não podíamos desenhar esse futuro em conjunto com a Europa.

Vê a questão da dívida como um tema que Portugal possa vir a introduzir na agenda europeia, quer pelo lado da renegociação, quer pelo lado da reestruturação?

Há muitos temas que podemos discutir e que podem sempre ser discutidos, mas é um bocadinho como a frase do Schulz, não é, temos que ver se ao pormos um tema na mesa se é um tema que se possa resolver, e em relação em particular ao que penso que é aquilo que me está a perguntar da restruturação da dívida, isso não é um tema que neste momento se deva pôr na mesa porque ele não seria possível de discutir. Eu acho que

Nem vale a pena tentar?

Eu acho que não, o problema aqui é uma questão de oportunidade. Ou seja, se nós conseguirmos ter um Fundo Monetário Europeu, se nós conseguirmos ter um Sistema de Estabilização, se nós conseguirmos realmente todas estas reformas, em que os países porque isto é sempre um jogo entre o que é que é a responsabilidade e o que é que é o risco e eu acho que, quando os países conseguirem estar todos a cumprir, depois aí pode-se falar porque tudo isto leva às conversas sobre a mutualização da dívida e outras coisas, que são conversas que só se podem ter no dia em que todos estiverem a cumprir. É um bocadinho a mesma coisa

E quando o castelo das cartas estiver todo montado, não é?

E quando o castelo estiver todo montado. e portanto eu acho que o melhor que nós temos a fazer é montar o castelo das cartas para completar aquilo que falta na UE e depois a seguir poderemos falar desses ou de outros temas, mas seguramente que o momento não é agora.

Já falamos desta conversa de populismo, de radicalismo, são fenómenos que têm feito o seu caminho e que são sempre acompanhados, nos países onde têm mais expressão, de um esvaziamento do centro político. Já o ouvi, por diversas vezes, dizer que tem orgulho em ser português porque em Portugal não há esses fenómenos. Não vê no atual nível do PSD nas sondagens um sinal de um possível fenómeno desses sobretudo no centro-direita português?

Espero que não, espero que isso não aconteça. Temos todas as condições para que isso não aconteça em Portugal, porque Portugal tradicionalmente é um país tolerante e portanto eu não vejo em Portugal a capacidade de sugerirem partidos ou de extrema-direita xenófoba, estamos aqui a falar sobretudo numa extrema-direita xenófoba que nunca existiu em Portugal e que não penso que tenha espaço para isso. Aquilo que pode acontecer em Portugal mas que também tenho algumas dúvidas que possa vir a acontecer é o surgimento de novos partidos que ocupem esse centro, portanto vamos lá ver, o chamado efeito Macron que pudesse acontecer E para isso é preciso que os partidos se renovem no verdadeiro sentido da palavra. Eu acho que aquilo que acontece hoje em Portugal em todos os partidos é que há uma verdade dentro do partido e há uma verdade para o país. Ou seja, o sistema que se criou é que os partidos escolhem, muitas vezes, pessoas que não são aquilo que são as expectativas da própria população e isso tem que se alinhar, não é? Porque aquilo que acontece, por exemplo, no fenómeno em França, em que de repente o Partido Socialista francês escolhe o Hamon, que era um homem, vá lá, de extrema-esquerda dentro do Partido Socialista, levou a reforçar o fenómeno Macron.

Sim, desaparece o PS francês...

E portanto desaparece porque fez uma escolha que era uma escolha para dentro e não uma escolha para fora e o Macron era a escolha para fora, ou seja, era a escolha que as pessoas queriam. Eu acho que é esse repensar os partidos que vai ter que ser feito e que será feito, diria eu, a bem ou a mal, porque ele vai sempre acontecer.

Tem noção que essa sua frase casa melhor com o apoio a Rui Rio do que a Pedro Santana Lopes? As sondagens o que dizem é que Rui Rio é visto um potencial candidato a primeiro-ministro com mais qualidades do que Pedro Santana Lopes e Pedro Santana Lopes é visto como o melhor para os militantes do PSD.

(risos) Essa pergunta é injusta por duas razões: primeiro porque eu como comissário europeu não posso ter uma posição sobre isso e sinceramente penso que todos os políticos em Portugal estão conscientes daquilo que eu estou a dizer e isto não é sequer partidário, não é algo que seja específico do PSD, pode ser também aplicado ao PS, pode ser aplicado a todos os partidos, e os políticos têm essa noção, têm noção que as estruturas partidárias se foram desenvolvendo num pensamento interno e como é que isso se pode fazer? Porque eu acho que as estruturas partidárias são muito importantes e são aqueles que trabalham no dia-a-dia a política nas várias regiões do país, mas ao mesmo tempo é preciso que essas estruturas se abram à sociedade civil e que a sociedade civil faça também parte. Ou seja, não é uma questão de um ou outro, ou a estrutura partidária ou a sociedade civil, é como é que elas se abrem, e isso é em todos os países. Eu ontem estava aqui num jantar com uns belgas, um jantar oficial, e estávamos exatamente a falar nisso aqui também na Bélgica como é que vamos buscar pessoas da sociedade civil que participem e que não sejam hostilizadas pela estrutura e que se vejam de uma forma complementar? E portanto a política vai ter que repensar isso.

O Presidente da República insiste, dia sim dia não, que o país precisa primeiro de um governo estável e depois de uma oposição forte e credível e que, em caso de necessidade, sirva como alternativa. Vê o PSD em condições de assumir esse papel quando chegarem as eleições de 2019?

Sem dúvida, o PSD vai ter agora as suas eleições internas e depois dessas eleições, qualquer que seja aquele que vença e os dois são pessoas com características de liderança, com provas dadas aquele que ganhe, eu acho que o partido tem de se unir verdadeiramente à volta desse líder. Isso é importante não só para o partido mas também para o país.

Tem uma relação de alguma cumplicidade com Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, o Presidente da República disse de si qualquer coisa como olhando para o seu presente, podemos ver o futuro. Vê aí uma insinuação que podemos ver o futuro do PSD? A política partidária perdeu capacidade para o seduzir?

Não, eu penso que não vejo isso, eu penso que eu até que tenho uma grande admiração pelo senhor Presidente da República e depois acho que o que talvez eu tomo isso como um elogio ao trabalho que estou a fazer, que é um trabalho de política internacional, de saber realmente dar um nome a Portugal de um político que tem uma ação a nível da Europa, que é bem visto ao nível dessa esfera europeia, que tem conseguido construir essa imagem através do trabalho diário, e portanto vejo nisso um incentivo àquilo que eu tenho feito nesta minha vida política, que eu tenho feito e que tudo aquilo que tenho feito me dedico a 300% e portanto vejo esse elogio nesse sentido. E a minha vida tem sido cá fora, portanto o futuro quem é que pode falar do futuro?

O que é que se vê a fazer daqui para a frente?

Eu vejo-me em organizações internacionais porque penso que tenho essas características, as características de conseguir dar uma boa imagem de Portugal em organizações internacionais em que tenho um papel de contactos que tenho vindo a desenvolver e que gosto de fazer e que sinto que estou a fazer um bom papel, e portanto sempre me vi mais nesse sentido em organizações internacionais. Mas tenho muitas saudades de Portugal, tenho muitas saudades de Portugal sobretudo ao nível pessoal, eu costumo dizer que estou aqui a ter profissionalmente realmente algo de extraordinário mas sinto também pessoalmente uma grande vontade de voltar para o meu país porque gosto muito do meu país.

Da luz, do peixe?

De tudo, de tudo, de tudo. Eu acho que Portugal é um país fantástico, e portanto tenho saudades e portanto é por isso que aí há uns dias, já não sei quem é que apanhou isso, que eu dizia que mon coeur balance como dizem os franceses, não é? Tenho sempre a sensação de que estou a perder anos de vida em que podia estar em Portugal e que não estou em Portugal e sinto uma certa inveja de quem, como o Paulo, vive em Portugal (risos).

Mas o Presidente diz a quem o quiser ouvir que está em si o futuro do partido à la longue, ou seja, que feito esse percurso numa outra instituição qualquer que, como diz, um dia há-de voltar a Portugal, das duas uma: ou como candidato presidencial ou como candidato a primeiro-ministro e líder do PSD.

Não, não, não

Daí a razão da minha pergunta, se a política partidária já não tem para si qualquer capacidade de sedução. Ou ainda tem? Porque fugiu à pergunta...

(risos) Não fugi à pergunta. O elogio do professor e senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa é um elogio que me toca no sentido de ele dizer que acredita que eu estou a fazer um bom trabalho e portanto é um elogio, está a dizer, "esta pessoa, Carlos Moedas, está a fazer um bom trabalho e tem muito potencial", pronto, é assim que eu ouço esse elogio e acho que é esse elogio, ponto final, que ele me dá. A política portuguesa obviamente que me continua a seduzir, eu gosto de política, gosto daquilo que fiz na política e tenho sempre a atração por essa política. Aliás, eu estou aqui mas sempre que vou a Portugal falo com as pessoas, vejo o que é que se está a passar, não posso fazer comentários sobre isso, mas em resposta, sim, a política nacional também me seduz, obviamente que me seduz, e gostei muito do papel que tive no governo. Gosto mais deste papel porque é um papel que, por todas as razões e mais algumas, é mais positivo e que permite ser o verdadeiro Carlos Moedas, aquilo que eu gosto de fazer. Tenho aqui uma oportunidade de fazer política de uma maneira muito diferente; quando estava em Portugal, estava a fazer algo que se calhar muita gente não queria fazer mas que tinha de ser feito. É um bocado isso. Mas não fugi à pergunta: sim, também gosto da política nacional, mas vejo-me muito bem aqui.

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