Cada visto "gold" equivale a três entradas em Portugal

Estrangeiros que investiram em Portugal são 5553, mas com as suas famílias representam 14 868, quase três vezes mais

O número de imigrantes que obtiveram uma autorização de residência por investir em Portugal diminuiu em 2017. Em contrapartida, os que aderiram a esta medida estão a trazer mais familiares. Na esmagadora maioria, são pessoas que compram imóveis por 500 mil ou mais euros e cada visto gold corresponde, em média, ao investidor e mais duas pessoas. É sinal de que estão a imigrar para ficar e não para circular por outros países como no início, diz quem conhece estes imigrantes. Falamos maioritariamente de chineses, mas os brasileiros quase duplicaram.

Os dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras indicam 1351 autorizações de residência para atividade de investimento (o chamado visto gold) no ano passado, uma ligeira diminuição comparativamente ao ano anterior, 1414 (ver infografia). Só que estão a trazer mais familiares (2678 em 2017, mais 14%), o que faz que o total de entradas por esta via tenha aumentado.

Y Ping Chow, o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, acha esta subida natural, também ele tem verificado que os vistos gold (5553 desde 2012) trazem cada vez mais familiares - 9315 no total. "As pessoas vêm primeiro e depois trazem a família. Ficam cá, desenvolvem outros investimentos e atividades. Trazem primeiro a mulher e os filhos e, se as coisas continuarem a correr bem, também os pais e os sogros querem vir para Portugal." A lei permite o reagrupamento familiar para os titulares do visto gold a descendentes e ascendentes, desde que sejam seus dependentes.

Aconteceu com Liu Guanghui, 48 anos, que foi jornalista antes de exportar motociclos da China para os EUA, atividade que beneficiava muito com um visto europeu. Chegou a Portugal em 2008 com a mulher e os filhos. Os pais vieram depois e aqui viveram nove meses mas não se adaptaram. "Infelizmente, não conseguiram habituar-se ao ambiente estrangeiro." Comprou casa em Alcabideche, Cascais, onde vive com a mulher e os filhos: um rapaz de 9 anos e uma rapariga de 12, que estudam na Escola dos Salesianos do Estoril. Adquiriu mais duas habitações, uma em Alcabideche e outra em Sintra, que disponibiliza na plataforma Airbnb, funcionando como alojamento local. "O que está melhor neste momento em Portugal é o turismo, a empresa de exportação não está tão bem, e estou a pensar em apostar no turismo", justifica Liu. Aliás, está a desenvolver uma empresa com compatriotas para explorar o boom de turistas.

Escolheu o país por afinidade mas também pela facilidade em obter uma autorização de residência. Liu Guanghui é de Zhuhai, cidade do Sul da China e que faz fronteira com Macau. "Conhecia Portugal relativamente bem e não tive qualquer problema em tomar a decisão. E, com a política do visto gold, foi muito fácil obter o cartão de residência, demorou quatro meses", conta. Com o que já não está tão satisfeito é com a renovação deste documento, elegendo a "burocracia e a incompetência do SEF" como o pior do país. "Normalmente, esperamos entre oito e 12 meses... é intolerável. Durante esse período não posso sair, ainda neste Natal a minha família foi à China e eu passei aqui, sozinho".

Os vistos gold representam a entrada no país de 3,5 mil milhões de euros desde que começaram a ser concedidos (8 de outubro de 2012), a esmagadora maioria através da compra de imóveis. Significou em 2017 um investimento de 844 milhões, ligeiramente menos do que em 2016 (874 milhões)que quase duplicou o valor de 2015 (465 milhões). Estes investidores também podem obter uma autorização de residência pela transferência de capital (302 nesta situação) ou para abrir uma empresa com dez trabalhadores ou mais (apenas oito requerentes criaram estes postos de trabalho). Os familiares entram ao abrigo do reagrupamento familiar como acontece com os imigrantes em geral, não necessitando de investimento.

Os chineses representam 64,6% destes investidores, mas há uma nacionalidade, a brasileira, cujos requerentes quase que duplicaram de 2016 para 2017, de 247 para 463. Uma comunidade que o advogado Vasco Esteves bem conhece, já que trabalha na área de imigração e muitos dos seus clientes são naturais do Brasil. "Os brasileiros sempre trouxeram cônjuge e filhos ou outros dependentes, acontece com todos os imigrantes, também no caso dos que investem em Portugal." Esta é uma das explicações que encontra para a subida de autorizações de residência a familiares dos titulares de vistos, outra explicação é o desejo de aqui se fixarem.

"Anteriormente, estas pessoas pediam autorização de residência porque lhes interessava ter um documento português para circularem, nomeadamente para os Estados Unidos, um destino que atrai muitos brasileiros. Agora não, eles vêm para cá morar, querem viver aqui e posteriormente adquirir a nacionalidade portuguesa, o que acontece ao fim de seis anos de cá viverem", explica Vasco Esteves.

É aquele também o objetivo de Liu Guanghui, só que, ao contrário dos brasileiros, perde a nacionalidade de origem, uma vez que a China não permite a dupla nacionalidade. "Vivo aqui com a família, os filhos sentem-se bem, gostam de Portugal, é aqui que quero ficar. A qualidade da vida é muito melhor do que na China, o ar, as praias, as comidas, e a simpatia dos portugueses é incrível." Repete que gostaria que não houvesse tanta burocracia . Outra das suas preocupações é a segurança. "Temos medo de que as coisas piorem, conheço dez pessoas a quem as casas foram assaltadas."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".