Bruno Bobone: "É sempre mais fácil trabalhar com governos PS do que de direita"

O presidente do Grupo Pinto Basto e da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa fala sobre o estado do país e o papel das empresas e dos empresários

"Nos negócios é astuto, a tudo dá atenção; não atrasa um minuto, usa o melhor produto, a todos dá sua mão." Na letra que escreveu para o primo António Pinto Basto cantar no álbum lançado em 2008 para comemorar "237 anos de tradição" do grupo que mantém o nome da família, Bruno Bobone faz um autorretrato. Seu e de todo O Senhor Pinto Basto - "aquele que pertença a esta família, por laços sanguíneos ou por se encontrar ligado" aos valores pelos quais se pauta. A explicação é dada no preâmbulo do álbum que Bruno (Pinto Basto) Bobone levou para me oferecer. À mesa do fundo do Café no Chiado onde almoça duas ou três vezes por semana - é perto do Cais do Sodré, onde tem a sede do grupo - e o encontro cinco minutos depois da hora marcada, simplifica: "É um conceito meu. Achei que tinha graça ouvir."

Há mais de 33 anos à frente da empresa de serviços de transporte e logística e desde 2005 presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, assume-se como "uma pessoa claramente com ideias de direita", mas não poupa críticas à atuação dos partidos de cuja ideologia está mais próximo. Sobretudo por "deitarem abaixo tudo quanto está a ser feito" pelo governo de António Costa - que conhece desde os tempos em que andaram juntos no liceu. "Dou-me lindamente com ele. Não temos a mesma visão das coisas, mas digo-lhe o que penso." Mas nem por isso é mais condescendente com a "extraordinária permissividade" da esquerda. Acima de tudo, lamenta que "hoje direita e esquerda vivam em mundos diferentes", o que "impossibilita qualquer hipótese de chegar aos consensos" necessários para fazer as reformas que "nunca chegaram a acontecer".

Por tudo isto, acredita que as empresas têm de ser cada vez mais independentes do Estado. "Como se viu no governo anterior - que fez um esforço muito grande de contenção - os governos não mudam a economia." Diz que até há uns anos as empresas estavam muito mais estruturadas para beneficiar do que para participar no desenvolvimento do país, mas "o empresário é que tem de ser o fator de mudança, não a reação". Nestes anos que se seguiram à crise de 2011, o que correu bem foi que os empresários ganharam autonomia. "Foram para fora e trouxeram as enormes exportações que desenvolveram o país. Dizer que o governo ou a troika resolveram problemas é uma mentira enorme. Os empresários é que deixaram de estar agarrados ao Estado e fizeram um trabalho maravilhoso. Tornaram-se empresários - que não eram." É por isso que acredita que o tecido empresarial tem de viver "com o governo que tiver, independentemente de gostar dele ou não".

Servido o vinho branco bem fresco, eu vou-me ocupando das fatias finíssimas de pão torrado enquanto Bruno Bobone lida com o costumeiro gaspacho. Mostra-se desiludido com esta política em que um lado detesta o outro e nem quer dar-se ao trabalho de pensar se há coisas bem feitas. "Não há só bom de um lado e mau do outro."

o tecido empresarial tem de viver com o governo que tiver, independentemente de gostar dele ou não

Razão que o faz acreditar que se PSD e CDS tivessem conseguido formar um governo maioritário provavelmente o país estaria mais ou menos como está. "Este governo não tem uma margem de manobra tão grande que possa ser tão prejudicial à economia. Há pontos em que poderá, mas é aí que a sociedade civil tem de pressionar." Quais? "O imposto sucessório, por exemplo. Tem havido uma pressão enorme e temos conseguido que não avance. E os impostos estão a reduzir-se - afinal até se consegue fazer coisas positivas. Há defeitos, erros, mas isto está muito melhor do que se pintava. A direita dizia que não se conseguiria fazer o Orçamento, e fez-se; que não passaria em Bruxelas, e passou; que não seria possível resolver o problema da Caixa, e há solução. As exportações caíram mas isso não tem que ver com o governo. A explicação é que a AutoEuropa, maior exportador nacional, mudou o modelo em produção e demora um ano a pô-lo em funcionamento." Admite que com um governo de direita o investimento podia estar melhor. "Mas porque havia um senhor chamado Paulo Portas, que é um campeão de vendas do país."

Esse talento do ex-vice-primeiro-ministro está ao serviço da Câmara de Comércio desde abril, quando aceitou ser vice-presidente da associação que Bobone lidera. E a par dos elogios ao Presidente Marcelo, a quem reconhece a grande vantagem de não ser um homem típico da direita - "é de direita, mas é muito mais um homem da sociedade e da cultura", características tipicamente de esquerda, e menos das empresas - e o grande feito de ter conseguido fazer "uma transformação enorme" na sociedade, é para Portas que guarda as melhores palavras. "É um dos maiores políticos que temos e tenho imenso respeito pelo trabalho que desenvolveu." Na Câmara de Comércio, está a ser "extraordinário". "É uma mais-valia, uma cabeça muito bem pensante e de uma intensidade extraordinária. Sem dúvida, é uma aposta ganha."

Enquanto trocamos os pratos das entradas pelos protagonistas à mesa de almoço - atum selado para mim, salada César para Bobone -, é visível o entusiasmo que tem pelos negócios da Pinto Basto, que gere em Portugal, Espanha, Angola, Moçambique. "E ainda temos um pezinho em Hong Kong." Mas também pelo que a associação de empresários tem conseguido. No seu mandato, cresceu de 300 para perto de mil associados e porque o trabalho é voluntário - "não temos qualquer remuneração, é tudo feito por vontade" -, há uma dedicação diferente. "Não temos um único subsídio do Estado e isso garante-nos uma credibilidade e liberdade de movimentos muito grande", contribuindo para criar uma "sociedade civil mais ativa, participativa, disposta a discutir os assuntos relevantes".

Paulo Portas é uma aposta ganha

Reconhece o papel que a Câmara de Comércio teve na transformação de um país que estava sempre dependente do Estado - "as empresas ficavam à espera do que podiam ganhar, agora são elas a pagar (estudos, trabalhos) para dar ao Estado. E sentem isso como uma responsabilidade." Uma mudança positiva, já que "a exigência é que estimula".

Gostava de ver esses valores passados logo na escola mas para isso era preciso melhorar a qualidade e o tratamento (incluindo salários) que a sociedade dá aos professores e trazer algo novo à educação. Identifica duas falhas nessa área: por um lado, "não prevê o caminho para a cultura, não sensibiliza as crianças para a literatura, a música, o teatro". Por outro, "a formação societária é péssima, não transmitimos competências de valores. Mas isso dá tanto trabalho que nem se discute". A única maneira de alterar esta realidade é criar essa discussão na sociedade civil - e está disposto a, através da Câmara, fazer a sua parte do caminho.

Pratos dispensados, sobremesas pedidas, aponta outro setor em que gostaria de ver empenho. "Podíamos ter dois ou três grandes bancos, com estruturas internacionais, mas deram cabo de tudo. Descredibilizou-se totalmente a estrutura financeira do país." E insiste: a solução pode passar por um novo banco de capitais privados. "Se houvesse competência em Portugal para os empresários se unirem e fazerem um banco, não para se servirem dele mas para terem uma ferramenta igual para todos, havia solução." Ainda assim, defende que os empresários têm é de aprender a viver sem os bancos, fazendo parcerias, crescendo com o dinheiro que têm, financiando-se na bolsa. "A banca seria recurso para projetos específicos. Ter toda a estrutura baseada no apoio bancário é um erro terrível."

Os morangos já fora de época e a manga chegaram e Bobone volta ao investimento, identificado como "o grande problema para o qual este governo ainda não encontrou solução". Maldiz "esta bulha política de estar sempre a mandar mensagens de que as coisas vão mal - que a esquerda também sempre fez" e que só prejudica o país. "É uma vergonha! É criminoso e descredibiliza-nos." É essa a mais dura crítica que faz a Passos Coelho: "Esta postura de primeiro-ministro no exílio é ofensiva para os portugueses. Os políticos estão lá para servir. Quisemos viver em democracia desde 1974, não podemos chegar a 2016 a achar que a democracia só serve quando dá jeito. O povo é soberano e o PSD já devia ter ultrapassado o que se passou nas eleições. Aí acho que o CDS está muito melhor - o PSD está a criar o seu próprio problema."

De resto, não tem dúvidas: "É sempre mais fácil trabalhar com governos PS do que com os de direita. Porque a direita, apesar de ter ideias mais próximas, tem medo de ser condenada por ajudar as empresas." À governação anterior, aponta outro defeito: ver a economia como objetivo, em vez daquilo que é, "um veículo para entregar à sociedade condições de desenvolvimento, crescimento, felicidade. Não há absolutos na vida e não há só uma maneira de fazer bem. Não distribuir nada às pessoas pode ser necessário por um tempo, mas não pode ser um objetivo. Não é útil e não é razoável."

Os sindicatos são os maiores inimigos dos trabalhadores

O empresário não acredita no conceito de não cuidar da despesa, não promover a riqueza, não baixar impostos - "a economia desapareceria". Mas acha que não se pode abdicar de tudo para ter resultados. "E salários baixos nunca podem ser a base de sustentação do desenvolvimento." Na Pinto Basto garante prémios de produtividade "a todos os colaboradores". Acredita nessa fórmula para poder entregar mais aos empregados - "é essencial para que as pessoas possam viver com dignidade" - e garantir produtividade.

E as empresas estão preparadas para o salário mínimo de 600 euros em que a CGTP insiste. "Se não estão, deviam. Ou deviam estar a preparar-se para estar. Não podemos ter um empregado a vestir a camisola, a quem pedimos que dê tudo e depois pagar-lhe miseravelmente." Bruno Bobone nem sequer concorda que o salário mínimo nos 600 euros seja uma conquista - "é uma miséria". E é também por isso que diz que "os sindicatos são os maiores inimigos dos trabalhadores". Melhor solução seria que se garantisse "prémios de produtividade agressivos, com distribuição verdadeira dos lucros pelos trabalhadores, em vez de se aumentar a diferença entre o gestor e o trabalhador médio. Isso é um erro que a democracia está a fazer, pior que os sistemas anteriores."

À chegada dos cafés, lamenta que Portugal se tenha agarrado ao passado - "continuamos com ideias do 25 de abril completamente presentes e devíamos ter evoluído para situações mais inteligentes" - e diz que isso condiciona empresas, pessoas e desenvolvimento. Considera um erro que a relação com os países africanos ainda esteja carregada de preconceito - "somos paternalistas, racistas, invejosos: temos todos os defeitos na gestão dessa relação, quando devíamos tratar esses negócios como quaisquer outros". E espanta-se: "Falamos em corrupção, aqui também há corrupção! Preocupamo-nos com Angola mas fazemos negócios com a China e os Estados Unidos sem preocupação. E perdemos vantagem competitiva..."

O investimento é o grande problema para o qual este governo ainda não encontrou solução

A deficiente relação de Portugal com África é-lhe mais dolorosa porque foi lá que cresceu e viveu até ao 1974 - "nasci cá porque os meus pais estavam de férias"; o irmão e as irmãs são de Moçambique. Em Quelimane, a família tinha uma propriedade "do tamanho do Alto Alentejo" onde criava gado, plantava chá, palmares, produzia margarina. Perto dos 50 anos, quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas, entre 24 e 30 anos, dois casados, todos a trabalhar), foi viver para Espanha para garantir o êxito da internacionalização da Pinto Basto. Voltou a Lisboa depois de quatro anos e é aqui que se vê, aos 56, a trabalhar, a ajudar a encontrar soluções para o país.

Tempo livre não terá muito - há sempre interesses em que se empenha com a mesma exigência que dedica ao trabalho. "Escrevo - a cantar sou péssimo! - e gosto de pintar. Comecei aos 40: comprei óleos e telas por correspondência, convidei um primo que pinta para almoçar e pedi-lhe que me ensinasse." Bom professor e "muitas horas de trabalho" depois, a qualidade do resultado (tem fotografias de muitos quadros no telemóvel) faz duvidar que não haja ali conhecimento técnico. Lá para maio, há de fazer a segunda exposição e se correr como a estreia fará algumas vendas. Até lá, o maior desafio está na Câmara, que quer ver evoluir para uma reflexão maior, para dar cada vez mais ao país.

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