Barbacena. A aldeia pacata que já não deixa a porta aberta

No interior do país, há localidades onde se deixava as portas abertas e se ia trabalhar. Agora, com as notícias de que os assaltos deixaram de ser um exclusivo das grandes cidades, a população, cada vez mais idosa, começa a ter cuidados, pois passam dias sem ver a GNR

Longe vão os tempos em que a porta de casa de António José Pires estava aberta dia e noite no centro de Barbacena, freguesia rural do concelho de Elvas, que chegou a ter três mil habitantes. "Ia horas esquecidas trabalhar no campo, a minha mulher ficava sozinha, mas nunca houve problemas. Até há uns dez anos nem sabíamos o que era insegurança por aqui", recorda. Viria a optar por ser mais prudente à medida que as notícias de assaltos a moradias no Alentejo se foram avolumando, enquanto a idade também fez despontar limitações físicas que recomendam cuidados redobrados numa localidade onde se passam dias sem a população avistar militares da GNR.

Enquanto enche um garrafão de água imprópria para consumo na fonte da terra, mas que será aproveitada para outros usos, lá explica que tem 84 anos, assumindo que se, hoje em dia, alguém lhe tentar fazer mal terá dificuldade em reagir coma ligeireza de outros tempos.

Ou seja, esclarece, "sinto-me seguro na rua, porque as pessoas são pacíficas e funcionamos quase em família, mas às vezes vemos por aí gente de fora que pode andar a tramar alguma. O problema é que somos quase todos velhotes sem condições para responder a qualquer situação mais violenta. Nunca aconteceu, mas pode acontecer", sublinha, admitindo ter sido esta a principal razão que o levou a começar a trancar portas e janelas durante a noite. "Já ninguém deixa as portas abertas em Barbacena. Se facilitarmos podemos ter alguma surpresa desagradável, como aconteceu ao meu vizinho", recorda.

António José Pires aludia ao caso de um idoso a quem, há umas semanas, entraram em casa enquanto o homem estava no lar. Terão roubado vários artigos e algum dinheiro. E no último fim de semana a igreja foi alvo de furto, tendo desaparecido o cálice e a patena (prato onde se coloca a hóstia durante a missa). Também o cilindro que garantia água no balneário público foi furtado. "Numa terra tão pacata, onde não tínhamos nada destas coisas e só víamos crimes pela televisão, estes roubos deixam-nos preocupados e sem saber o que pensar", sublinha.

Revela, por exemplo, que costumava sair diariamente após o jantar para tomar café, mas há uns anos que pôs fim a esse velho hábito para evitar passar por uma zona escura no regresso a casa, enquanto recua umas décadas, quando os únicos furtos de que havia conhecimento eram feitos nos campos. "Às vezes roubavam umas cabeças de gado ou alguma comida, mas agora vieram para as cidades e aldeias e isso deixa algumas pessoas intranquilas", insiste.

Estes são os argumentos também exibidos por José Guerra e Luísa Marques para justificarem um olhar cauteloso por cima do ombro quando se deslocam à caixa ATM para levantar dinheiro. "Durante o dia estamos seguros, porque nunca se passou nada de anormal, mas à noite não se vê ninguém na rua durante o inverno. Barbacena transforma-se numa aldeia-fantasma, porque somos uma terra de velhos", justifica Luísa, que deixou a porta de casa trancada apesar do breve instante que saiu à rua.

José Guerra, de 80 anos, confirma que o envelhecimento popular, a par do despovoamento - a freguesia já não chega aos mil habitantes - estarão na origem do aumento da insegurança da população de Barbacena, lamentando que a ausência da GNR possa ser um "incentivo" a mãos criminosas. "Mesmo que aqui passe o carro da Guarda, quem quiser fazer alguma coisa, é só esperar que os militares se vão embora", alerta.

Isto porque, como explica o presidente da junta, Jorge Madeira, há mais de uma década que o posto da Guarda fechou em Barbacena, passando o posto mais próximo a funcionar na freguesia de Santa Eulália (a cerca de dez quilómetros), encerrando durante a noite e aos fins de semana, período em que a segurança da região fica entregue ao piquete sediado em Elvas e Arronches.

"Os militares deslocam-se à freguesia apenas quando são chamados para ser feita alguma participação", diz o autarca, assumindo que sempre que há furtos é apresentada queixa, mesmo que não dê em nada", refere. Jorge Madeira compreende o clima de "alguma insegurança" que nos últimos anos se foi instalando entre os mais idosos, perante as recentes ocorrências, mas assume que ainda é dos que têm o hábito de deixar as chaves na ignição da carrinha durante a noite. "Bem sei que há dias roubaram um Audi em Santa Eulália, mas eu ainda confio que não serei roubado à porta de casa", conclui.

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