Aveiro tem minigolfe para cegos. E um torneio internacional

Aveiro tem minigolfe para cegos. E um torneio internacional

É com confiança e destreza que Vera Alimova, de 8 anos, segura o taco de minigolfe. Não é a primeira vez que joga, mas é a sua estreia numa pista adaptada para cegos. "Aqui é mais fácil, porque temos os sons. E o taco é mais leve", diz ao DN. Do lado direito da pista, há uma maquete que lhe permite, através do tato, saber qual a configuração da pista. E, à medida que o taco se aproxima da bola, o som emitido fica mais intenso e repetitivo. Quando a bola acerta no buraco - o que acontece muitas vezes -, há música.

Vera tem apenas 7% de visão e é uma das participantes do primeiro Torneio Internacional de Minigolfe para Cegos, um projeto desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas José Estêvão, de Aveiro, com o apoio do Programa Operacional Capital Humano (POCH). Um evento inédito a nível mundial, garante a organização e que se realiza amanhã na sede do agrupamento, onde são esperados cerca de 60 participantes (todos jogam de olhos vendados).

Tudo começou no final de 2016. "Entre muitas loucuras, os alunos do curso profissional de Design Industrial decidiram fazer um minigolfe para cegos. Uma loucura que eu alimentei", recorda Jorge Silva, coordenador do curso e do projeto, destacando que, pela primeira vez, foi feita uma PAP (prova de aptidão profissional) entre vários cursos. "É um trabalho no qual as soft skills de cada um trabalham em grupo, na gestão de um projeto, de tempos, de expectativas", frisa.

Nas várias fases, o projeto teve a participação de todos os cursos profissionais da escola, que são financiados pelo POCH com o apoio do Fundo Social Europeu: Desporto, Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, Design Industrial, Fotografia e Serviços Jurídicos. Ao DN, Ana Prina, de 17 anos, aluna de Design Industrial, explica que o seu curso trabalhou no desenvolvimento de tacos, bolas e pistas adaptadas aos cegos. "É um projeto muito interessante. Nas demonstrações que fizemos, foi muito bom ver que é uma experiência única para os invisuais", revela.

Nélson Santos, de 18 anos, estuda na área de informática, que foi responsável pela codificação dos tacos e base de dados, diz que os estudantes conseguiram "ver uma série de problemas, que tiveram de ser superados. É como se fosse um mundo de trabalho a sério".

Já os alunos dos serviços jurídicos, registaram as patentes de todos os produtos e processos. Glória Leite, subdiretora do agrupamento, destaca o facto de "o projeto ter começado na sala de aula e acabado no mundo". Trata-se de uma iniciativa "integradora e inclusiva, que transforma currículos que nem sempre fazem sentido para os alunos em algo com sentido".

Joaquim Bernardo, presidente do POCH, sublinha o facto de ser "um projeto inovador a nível mundial, concebido por uma escola pública". Um "trabalho de enorme valor por parte de formandos e professores da escola, com grande impacto na promoção da inclusão social tendo por base a formação de dezenas de jovens, o aumento das suas qualificações e do seu sucesso escolar".

"É muito importante"

Mariana Pereira, de 10 anos, que já pratica equitação e natação, dá agora os primeiros passos no minigolfe. Para a mãe, Monique Silva, este projeto "é muito importante para as crianças invisuais, porque há poucas atividades que possam praticar".

Enquanto assiste ao treino, Victor Condeço, presidente da Federação Europeia de Minigolfe e representante do Clube de Minigolfe da Costa Nova, que apoia a iniciativa, destaca "a reação dos cegos que experimentaram as pistas, que é de extrema alegria ao colocar a bola no buraco".

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