Autárquicas: PSD-Lisboa provoca Pedro Passos Coelho

Crítico do líder social-democrata escolhido para coordenar programa eleitoral laranja na capital. Antes de haver candidato

O PSD ainda não tem candidato para a Câmara Municipal de Lisboa, mas a concelhia do partido já escolheu o homem que vai preparar as propostas para as eleições na capital, um crítico da liderança de Passos Coelho, José Eduardo Martins. Uma escolha que, sabe o DN, não foi concertada com a direção do PSD e que alguns dirigentes classificaram como uma "provocação" a Passos.

E se o objetivo é pressionar o líder social-democrata, estes responsáveis garantem que não vai haver resposta, porque o rumo está traçado: a escolha do candidato à autarquia de Lisboa não vai ser anunciada nos próximos meses, conforme garantiu Passos há duas semanas.

Fonte próxima do líder do PSD seguiu o mesmo argumento defendendo que o calendário das autárquicas que foi aprovado no último Conselho Nacional está a ser cumprido. "Dentro dessa estratégia", aprovada no referido órgão do partido, "as secções têm autonomia para implementar os seus próprios planos de ação", afirmou a mesma fonte, que acrescentou: "O líder do partido não tem que se pronunciar sobre esses planos."

Passos Coelho até vê como "muito útil" que se possa lançar um debate alargado sobre a cidade de Lisboa em que os lisboetas possam ser ouvidos. E José Eduardo Martins, como militante do PSD, "conhece bem a cidade de Lisboa e é uma pessoa que pode acrescentar valor a este debate", argumentou a fonte.

Já o coordenador autárquico dos sociais-democratas, Carlos Carreiras, desconhecia a escolha da comissão política da concelhia de Lisboa. Sem admitir que a situação causou algum desconforto no partido, Carreiras salientou apenas que é da competência estatutária da concelhia escolher o coordenador do programa eleitoral.

O líder da concelhia do PSD, Mauro Xavier, escudou-se nas declarações públicas de Passos e Carreiras para defender a sua estratégia. "É tempo de discutir as ideias. Se vir várias declarações de Carlos Carreiras - e só para citar as públicas - ele tem sempre dito que não é um tempo de nomes, é um tempo de ideias, é isso que estamos a fazer." E mais à frente insistiu ao DN: "Isto faz parte da estratégia do PSD Lisboa, que é discutir primeiro o projeto e depois os nomes. E essas são as declarações de Passos Coelho e de Carlos Carreiras."

Mauro Xavier - que chocou várias vezes com a direção nacional na gestão do dossiê das autárquicas - argumentou que se "o candidato vai ser apresentado no primeiro trimestre [de 2017], não tem tempo depois de fazer um programa".

"Percebo que, como não está apresentado o candidato, o nome do coordenador do programa toma uma relevância diferente", justificou-se, depois do anúncio de ontem de José Eduardo Martins para coordenar o programa.

O antigo secretário de Estado aceitou o convite da concelhia, mas não será o candidato do PSD à Câmara de Lisboa nas autárquicas de 2017. "A minha disponibilidade foi para coordenar o programa do PSD, um programa para uma cidade onde ainda há muito para desejar, da Ameixoeira ao Chiado. Um programa para uma cidade vítima de obras de sustentabilidade questionável", afirmou ao DN.

"É um desafio não para ter protagonismo, mas para ajudar o PSD numa tarefa muito importante. Há muito tempo que não me desafiavam para nada do género", justificou. De facto, José Eduardo Martins tinha sido desafiado a candidatar-se à Câmara de Lisboa, no último congresso do PSD, em abril, pelo antigo ministro da Defesa, Aguiar-Branco. Isto depois de José Eduardo Martins ter criticado Passos Coelho por não ter apresentado qualquer proposta e rejeitado todas as outras para o Orçamento do Estado para 2016.

Ao desafio que lhe foi feito então respondeu: "Isso foi uma boutade do congresso, mais do que um desafio sério. Sério foi o convite do PSD de Lisboa e esse merece toda a minha disponibilidade".
Embora também diga que não é a altura para discutir nomes de candidatos às autárquicas, admite que também ele veria com bons olhos que Pedro Santana Lopes, "o candidato natural do partido", encabeçasse a lista do PSD ao principal município do país. "Assim ele queira", disse. Os ex-ministros das Finanças e do Ambiente, respetivamente, Maria Luís Albuquerque e Jorge Moreira da Silva têm sido apontados como potenciais candidatos caso Santana Lopes decidir não avançar.

A distrital social-democrata de Lisboa, liderada por Miguel Pinto Luz, também não foi consultada, apurou o DN. Fonte desta estrutura assinalou, porém, ao DN, que "a concelhia é totalmente autónoma neste tipo de decisão" e "não tinha de ter dado conhecimento nem à distrital, nem à direção do partido", mas argumentou tratar-se de uma "provocação" do presidente da concelhia à direção do partido.

No CDS, cuja candidata é a própria presidente do partido, a situação é olhada com um sorriso nos lábios e um toque de ironia. "É perfeitamente normal que, uma vez que o CDS já apresentou a sua candidatura, que entende ser a mais forte e mobilizadora, o PSD que ainda não conseguiu fazê-lo, venha pelo menos começar pelo programa", afirmou um dos "vices" centristas. Um outro dirigente, da comissão política nacional, segue o mesmo tom sarcástico: "A verdade é que a candidatura da Assunção Cristas está a ter um enorme impacto, que supera as expectativas. Criou reações no PS e até agora o PSD sentiu necessidade de, mesmo sem candidato, arranjar um coordenador autárquico.

Revela um evidente nervosismo e mostra que se o vazio de candidato do PSD já era grande, com a candidatura da nossa presidente, esse vazio ficou ainda maior".

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