Assunção Cristas: "Conto com o PSD para uma alternativa às esquerdas unidas"

No encerramento das jornadas parlamentares do CDS, a presidente do partido anunciou a próxima prioridade de debate: justiça. Em entrevista ao DN fala também das prioridades.

O CDS acabou de anunciar um agendamento potestativo sobre justiça, para apresentar várias medidas. Há sintonia com as propostas desenvolvidas no Pacto de Justiça recentemente aprovado pelos vários operadores do sistema judicial?

Há largos meses que temos um grupo de trabalho, no nosso Gabinete de Estudos, a tratar das questões da Justiça. A perspetiva é muito prática, não pensando na arquitetura do sistema, ou em matérias penais, ou que envolvam revisão constitucional, mas de uma forma muito pragmática e realista pensar o que atual contexto político-partidário parlamentar podemos fazer de positivo para resolver uma série de embaraços que há nas várias áreas da Justiça, principalmente no processo civil, comercial, insolvências, por exemplo. Entretanto apareceu o "Pacto de Justiça", cujo documento está agora a ser analisado pelos deputados e pelo nosso gabinete de estudos. Há uma parte, mais corporativa, que não cabe no nosso "pacote". Mas em matéria processual há pontos coincidentes, que podemos incorporar já e apresentar como proposta.

Quer dar um exemplo concreto?

Este é o enquadramento e as propostas concretas serão conhecidas em breve.

O CDS tem insistido no discurso da "austeridade à esquerda", ou "disfarçada", através das cativações de orçamento em vários setores público. Será uma boa estratégia para captar aquele eleitorado que votou na maioria de esquerda contra a austeridade?

Vamos mesmo continuar a insistir nesse discurso. Acreditamos que a verdade virá ao de cima. Pode colher votos ou não, mas é importante que se explique às pessoas que o ministro das Finanças consegue alcançar resultados que parecem inimagináveis, como o défice, quando há um outro lado do défice. E é esse lado que vamos sempre sinalizar em tantos casos que vemos no Serviço Nacional de Saúde, na Educação, nos transportes públicos, na segurança. É perfeitamente legítimo um governo dizer "o meu primeiro objetivo é o défice e depois a seguir veremos onde posso chegar". Mas este governo não diz isso. Diz que ao mesmo tempo que tem resultados maravilhosos, consegue ter tudo, dar rendimentos às pessoas e ao mesmo tempo ter uma grande qualidade nos serviços. Isso não é verdade. Rendimento às pessoas acaba por não dar em nada, pois dá com uma mão e tira com a outra, através de impostos indiretos. O governo fez as suas escolhas, mas não pode iludir a realidade, não pode por uns óculos cor-de-rosa e dizer que tudo vai bem.

Rui Rio será um bom aliado para este discurso anti austeridade de esquerda? O que espera agora do PSD?

A minha expectativa e o meu desejo que CDS e PSD, cada um fazendo o seu caminho, possam trabalhar no sentido de construir uma alternativa ao governo das esquerdas unidas. Uma alternativa que seja um governo de centro-direita em Portugal. Do lado do CDS eu trabalho intensamente para fazer esse caminho de preparação de ideias, de ouvir o país para a construção de um programa o mais possível alargado, como a participação de independentes. Tenho andado a ouvir as pessoas no terreno, quer através do nosso ciclo de conferências, quer através do projeto "Ouvir Portugal", para que possamos chegar a 2019 com um programa sólido, com protagonistas claros, que saibam dizer aos portugueses uma coisa muito simples: têm um voto livre na mão para que haja uma mudança para uma governação centro-direita. Precisamos de ter para isso, no conjunto destes dois partidos, um mínimo de 116 deputados.

E como esperam convencer os portugueses a voltar a votar na direita da "austeridade"?

Procurarei o mais possível ir ao encontro daquilo que são as preocupações das pessoas. Estou absolutamente convencida que essas preocupações têm a ver com estas questões básicas do seu dia a dia, de que já falei. Se calhar há dois ou quatro anos atrás as preocupações das pessoas tinham mais a ver com o emprego. Hoje isso é ainda relevante, mas quando começamos a ter impacto do crescimento - apesar de não ser tanto quanto gostaríamos - que se vai traduzindo numa diminuição do desemprego, onde estamos a ver as maiores inquietações das pessoas é precisamente na área social, que há muito o CDS tem vindo a sinalizar. É precisamente isso que quero saber quando vou ao terreno, saber aquilo que é mais crítico para as pessoas. E não são só as questões sociais, de saúde, de educação, mas também a própria organização do trabalho ao longo da vida, a conciliação do trabalho com a família, a demografia, a natalidade, o envelhecimento. Como nos podemos organizar para ter qualidade de vida profissional, pessoal e familiar, são questões que têm sido pouco consideradas naquilo que são os debates políticos, mas é o que diz mais ao quotidiano das pessoas.

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