"Às vezes é preciso tapar a boca porque os demónios cospem muito"

O que é Satanás? E uma possessão demoníaca? O que faz um exorcista? Que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre? E o Papa? Há quem pratique em Portugal? No mês em que o Vaticano anuncia um curso especial para ensinar padres a expulsar demónios, o DN tenta perceber que diabo é tudo isso

A história é contada por um padre mexicano. Duas lésbicas, diz, sentaram-se atrás dele num avião. Pouco depois, sentiu a presença do demónio. Enquanto tentava repeli-lo através da oração, uma das mulheres começou a grunhir diabolicamente enquanto lhe atirava chocolates à cabeça. Não sabemos como terminou a história, mas o sacerdote, Cesar Truqui, sobreviveu: narrou-a há quatro anos, no Vaticano, numa conferência sobre exorcismo anunciada como a maior de sempre - na mesma altura em que a cúpula da Igreja Católica reconhecia oficialmente a Associação Internacional dos Exorcistas, que reúne cerca de 200 especialistas do mister, entre sacerdotes católicos, anglicanos e ortodoxos. Questionado sobre como sabia que a mulher estava possessa (como sabia tratar-se de uma lésbica pelos vistos ninguém perguntou), Truqui respondeu: "Ouvindo um grunhido satânico uma vez, nunca mais se esquece. É como cheirar uma piza margherita."

Truqui, um dos padres que vai lecionar no curso sobre exorcismo que decorrerá no Vaticano entre segunda-feira e dia 21, pratica-o há dez anos. Considera que existem demónios especializados "no ataque à família" mas que a possessão demoníaca é algo muito raro e que a esmagadora maioria das pessoas que o procuram têm problemas psiquiátricos. Não seria o caso, porém, de um homem que terá "atendido" e que se masturbava 40 vezes por dia: "Isso é humanamente impossível, portanto teria de ser uma coisa satânica", comentou no The Guardian de quarta-feira. Dá também o exemplo de uma mulher que achava que a sogra lhe tinha lançado uma maldição, e que sentia facadas nas pernas e picadas nos braços. Mas as características mais distintivas dos possessos, explica, são falar línguas estrangeiras sem as terem aprendido, terem "força sobre-humana" e saberem coisas "ocultas" - como dizer o que alguém que não está presente faz ou veste naquele momento. Outro "sinal" mencionado é o de reagir mal a "coisas sagradas" - e ao próprio exorcismo.

A premissa do curso, o primeiro deste tipo a ter lugar no Vaticano, é de que o número dessas pessoas - possessas ou que como tal se consideram - está a aumentar, enquanto os exorcistas treinados e reconhecidos pela estrutura católica não serão mais de 500 no mundo todo. Só em Itália, certificou em fevereiro o sacerdote italiano e também exorcista Benigno Palilla, serão anualmente identificados 500 mil casos de possessão. Correspondendo a quase um por cento da população do país (60 milhões), o que em Portugal equivaleria a algo como 80 mil endemoninhados, este número deve-se, opina o clérigo, ao incremento da adesão a práticas como a leitura do tarot e quejandas, que "abrem a porta ao diabo."

Bruxos são "concorrência"

O mesmo diz Duarte Sousa Lara, 43 anos, exorcista oficial da diocese de Lamego desde 2008 e um dos poucos (menciona "três ou quatro") exorcistas "acreditados" em Portugal. No site que criou (santidade.net) para difundir o seu trabalho e fazer conhecida a sua pessoa, através de vídeos do próprio e testemunhos de pessoas "exorcizadas", garante haver "muita gente com problemas, a precisar desta ajuda", associando tal necessidade a "práticas supersticiosas que temos à nossa volta: o espiritismo, o reiki, os curandeiros, os bruxos, os adivinhos, o rock satânico..."

O mal primordial, considera, está no afastamento da Igreja Católica: "Vínhamos de uma Europa cristã em que todas as pessoas eram batizadas, frequentavam os sacramentos, e isso certamente dava menos margem ao demónio para causar estes distúrbios. Infelizmente, nos últimos séculos o ambiente descristianizou-se muito, é o secularismo que temos à nossa volta, podemos dizer até que se paganizou, e surgiram muitas formas de superstição. As pessoas recorrem a bruxos, tarots, magos, etc., e isso do ponto de vista espiritual abre-as a distúrbios de origem diabólica que vão para além das simples tentações - já não são as tentações de sempre, são coisas estranhas. Portanto foi um ministério que deixou de ser preciso e que agora volta a ser preciso de uma maneira mais urgente. Encontramos mais pessoas que precisam de exorcismo, de aconselhamento nesta área."

A ausência de dados fiáveis, que permitam efetuar comparações com o passado, e o facto de um menor envolvimento com o catolicismo e a religião em geral se relacionar, comprovadamente, com um maior nível de instrução e de urbanização, por sua vez pouco favoráveis ao incremento da superstição em geral, não parecem afetar a análise deste filho mais velho do subsecretário de Estado da Cultura de Cavaco Silva (o qual ficou famoso por em 1992 ter impedido, por motivos de credo, a candidatura ao Prémio Literário Europeu do livro de José Saramago O Evangelho segundo Jesus Cristo). Numa entrevista ao jornal i, em 2016, asseverava ter em oito anos de prática lidado com "200 possessões graves", 60 das quais ainda não "resolvidas" à época, e receber , via mail, 50 pedidos de ajuda por semana, só "pegando" nos seis que considera "mais graves". Ou seja, uma média de 25 "possessões graves" por ano e uns impressionantes 20 800 pedidos de ajuda (se cada um dos exorcistas no ativo em Portugal receber outros tantos, chegaremos a valores semelhantes aos registados em Itália).

Sublinhe-se que a explicação de tal fenómeno, para Sousa Lara, não se prende sobretudo com a adesão dos afetados aos tais "paganismos"; mas com serem disso "vítimas", através de "malefícios". "Uma grande maioria destas pessoas são católicos não praticantes e vítimas de malefícios. O que é um malefício? É pedir ajuda ao demónio para fazer dano, para fazer mal a alguém. Malum facere, do latim. (...) A maior parte das pessoas que recebo, os casos mais típicos, são invejas no trabalho, problemas com vizinhos, familiares, às vezes partilhas, heranças... (...) Foram vítimas de um malefício, por inveja, por maldade. E que de repente começam a ter problemas físicos, espirituais, a ouvir coisas, ver coisas, desmaiar, entrar em transe. Começam a ir ao hospital, fazem exames e a perceber que o problema deles não é fisiológico, não é clínico."

Decerto por ser um exorcista tão requisitado, além de pároco de três pequenas freguesias - Folgosa, Desejosa e Valença do Douro, somando cerca de mil habitantes -, e professor no Instituto Superior de Teologia Beiras e Douro, não foi possível a este membro da Associação Internacional dos Exorcistas responder ao pedido de entrevista que o DN lhe enviou por mail. Também a tentativa de o contactar via diocese de Lamego se gorou: o número geral foi duas vezes atendido por alguém que certificou não poder dar qualquer informação sobre o trabalho ou o paradeiro do "senhor padre" nem remeter para quem o pudesse fazer, acabando mesmo por desligar abruptamente o telefone. Não foi assim possível perguntar a Duarte Sousa Lara como compatibiliza a classificação dos tais "bruxos, adivinhos, etc." como pertencendo ao domínio das "superstições" - que, como qualquer dicionário comprova, são crenças, ou "crendices", fundadas no temor, na ignorância e no preconceito - e o facto de os referir como veículos de "demónios" e "do diabo", capazes de afetar a vida de pessoas através de "malefícios". Na verdade, ouvindo este exorcista, fica-se com a ideia de que essas pessoas, que prometem "resolver" situações através de feitiços, predizer o futuro, etc., são eficazes e têm grandes poderes; chega a referir-se-lhes como "a concorrência".

As possessões não se devem porém apenas à obra dos bruxos: este especialista também afirma que "pecados graves" como não frequentar a missa todos os domingos ou praticar a contraceção podem pôr as pessoas a jeito para a "entrada dos demónios".

Deus permite o diabo

Mas o que é afinal um exorcismo, estará quem isto lê a perguntar. Trata-se tão-só de uma oração específica na qual se ordena ao "demónio" que abandone o corpo da pessoa e da qual uma versão abreviada integra o batismo. Assim, todos os batizados foram exorcizados, mesmo se a fórmula atual do batismo, em vigor a partir dos anos 1960 - quando o rito deixou de ser celebrado em latim - foi "dulcificada", por se considerar que era chocante tratar as crianças como estando possessas (e com toda a gente a perceber, uma vez que se passou a usar a língua comum).

Aquilo a que se dá na religião católica o nome de exorcismo, porém, é o chamado "grande exorcismo", um rito solene levado a cabo por um sacerdote nomeado pela autoridade religiosa para o efeito e de acordo com regras estipuladas em cada diocese. O Catecismo da Igreja Católica descreve-o assim, no n.º 1673: "Quando a Igreja pede publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a ação do Maligno e subtraído ao seu domínio, fala-se de exorcismo. (...) Tem por fim expulsar os demónios ou libertar do poder diabólico. (...) Antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não duma doença."

E como se processa? Alguma coisa de parecido com as imagens de O Exorcista, o filme de 1973 de William Friedkin? Demos a palavra a Sousa Lara: "O rito demora mais ou menos 20 minutos no meu caso. Os casos mais leves sento-os num sofá muito cómodo e as pessoas arrotam, vomitam, torcem-se, às vezes não é preciso segurar muito. Há casos médios em que já é preciso duas pessoas a segurá-los no sofá. E há os muito graves em que tenho uma marquesa, como os médicos, em que se deitam e cinco ou seis, os familiares, o marido, o que seja, seguram a pessoa. Às vezes é preciso tapar a boca porque os demónios cospem muito, mordem e é preciso cuidado. É preciso segurar os pés, os joelhos, a cabeça, para eu conseguir rezar. Se não se consegue segurar a pessoa eu não consigo rezar porque se gera uma grande confusão. E no fim de tudo gosto de invocar o sangue de Jesus. (...) Os demónios são orientados a determinado aspeto da vida da pessoa. Quando rezamos por isso explicitamente, ui, o demónio salta-lhe a tampa. E isso acelera a libertação porque estamos a pedir a Deus, ao sangue de Jesus, que venha exatamente sobre a raiz do problema. A pessoa nos casos mais leves está consciente, nos mais graves está em transe. Quando termina o exorcismo marca-se novo exorcismo. E os ataques diabólicos vão sendo menos frequentes e mais leves. O tempo que leva depende da sinceridade da conversão."

O exorcismo pode ser pronunciado em latim ou na língua do país; Sousa Lara prefere fazê-lo em português, para que as pessoas entendam o que está a dizer. Mas o que têm dificuldade em perceber, admite, é porque é que estão a sofrer assim, ou seja, porque é que o deus que ele representa permitiu que o demónio as tomasse. "Digo a essas pessoas que Deus permite o Mal porque Deus do Mal consegue tirar coisas boas. Porque se não fosse aquela história se calhar se morressem iam para o inferno. Porque viviam longe de Deus, viviam em pecado, e também por causa disso o Demónio conseguiu chateá-las."

A questão paradoxal da existência de entidades maléficas que desafiam o poder de um deus todo-poderoso e que em última análise, já que esse deus é todo-poderoso, só existem por sua vontade e licença, é abordada no catecismo. Se no número 391 se explica que Satanás ou Diabo "foi primeiro um anjo bom, criado por Deus" (citando-se o IV Concílio de Latrão, do ano 1215: "De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus") e no número 393 se garante tratar-se de "uma opção irrevogável", que não pode ser perdoada, no número 395 lê-se: "Embora Satanás exerça no mundo a sua ação, por ódio contra Deus e o seu reinado em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves prejuízos - de natureza espiritual e indiretamente, também, de natureza física - a cada homem e à sociedade, essa ação é permitida pela divina Providência, que com força e suavidade dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério."

"Diabo não é uma ideia"

Um estudo publicado em 2011 em Espanha garantia que 26% das 69 dioceses tinham exorcistas; só em Madrid havia oito. Quantos sacerdotes têm por cá autorização superior para exorcizar não foi possível saber; mesmo no que respeita a Lisboa um contacto com o respetivo patriarcado (dirigido pelo cardeal Manuel Clemente, simultaneamente presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, órgão máximo da Igreja Católica no país) não logrou mais que a remissão para o respetivo site, onde um texto de 2012 especifica as regras a seguir em caso de solicitação de exorcismo (ver texto nestas páginas). O pedido para falar com alguém da hierarquia que possa informar sobre o assunto ficou sem resposta; às perguntas sobre se existem exorcistas no distrito, se algum padre vai participar no curso no Vaticano e se há notícia de algum exorcismo recente retorquiu-se "não tenho conhecimento".

É claramente um assunto não grato a uma parte dos católicos e até dos prelados. Isso mesmo reconhecia em 2016, num artigo do El País, o exorcista e "demonólogo" espanhol José Antonio Fortea: "Vivemos os últimos dias do exorcismo. (...) O exorcismo desaparecerá da Europa." Assumindo grande discussão e "luta" dentro da sua congregação a este propósito, Fortea fazia coro com vários outros exorcistas que acusam muitos padres e bispos de não concordar com a prática nem tão-pouco crer na existência do diabo, considerando tratar-se de superstição e "medievalismo".

Uma posição que sofre sério revés face ao claro interesse do Vaticano e do próprio Papa. Após várias notícias que apontavam para uma "obsessão" de Francisco com o demo, a exortação apostólica Gaudete et Exsultate, "sobre a chamada à santidade no mundo atual" e publicada na semana passada, veio acabar com as dúvidas. Mencionando oito vezes o "Maligno", duas vezes "Satanás" e 12 vezes "o demónio", Francisco afirma que "a vida cristã é uma luta permanente", e não apenas, frisa, contra "o mundo e a mentalidade mundana" ou "a própria fragilidade e as próprias inclinações": "É uma luta constante contra o demónio, que é o príncipe do mal." Este não é "um mito", um "símbolo" ou "ideia": "A convicção de que este poder maligno está no meio de nós é precisamente aquilo que nos permite compreender porque, às vezes, o mal tem uma força destruidora tão grande. É verdade que os autores bíblicos tinham uma bagagem conceptual limitada para expressar algumas realidades e que, nos tempos de Jesus, podia-se confundir, por exemplo, uma epilepsia com a possessão do demónio. Mas isto não deve levar-nos a simplificar demasiado a realidade afirmando que todos os casos narrados nos Evangelhos eram doenças psíquicas e que, em última análise, o demónio não existe ou não intervém. (...) Então, não pensemos que seja um mito, uma representação, um símbolo, uma figura ou uma ideia. Este engano leva-nos a diminuir a vigilância, a descuidar-nos e a ficar mais expostos. O demónio não precisa de nos possuir. Envenena-nos com o ódio, a tristeza, a inveja, os vícios. E assim, enquanto abrandamos a vigilância, ele aproveita para destruir a nossa vida, as nossas famílias e as nossas comunidades, porque, "como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar"."

"O exorcismo não faz sentido"

Esta adesão do atual Papa, tantas vezes considerado um "progressista", à noção da existência de um "senhor do mal" deixa espantados muitos dos seus mais fervorosos e esperançados apoiantes. É o caso de uma religiosa portuguesa que prefere não ser identificada e que o DN contactou antes da publicação do novo texto papal, a propósito do curso para exorcistas: "Para mim isso está tão fora dos meus horizontes... Justificar os exorcismos, hoje, porque a Bíblia fala da expulsão dos demónios, não me parece a melhor forma de interpretar a mensagem de Jesus. Sabemos que, naquele tempo, as doenças psíquicas eram atribuídas a poderes malignos, e as pessoas tinham de fazer uma oração para expulsar os demónios. Jesus ajudava as pessoas qualquer que fosse o seu mal e, hoje, nós que nos dizemos cristãos também devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para libertar quem sofre. A linguagem semita é uma linguagem existencialista, não é abstrata como a nossa. O factual aponta, muitas vezes, uma realidade maior que transcende o próprio facto." Suspira: "Muitas vezes a religião em vez de libertar as pessoas ainda as sobrecarrega mais."

Da mesma opinião é o padre, filósofo e teólogo Anselmo Borges. "O diabo é a criação de uma espécie de concorrente com Deus. Aparece na tentativa de resolver o grande problema dos homens e das mulheres que é o sofrimento. Há guerras, horrores, doença, tortura, as pessoas confrontam-se com a dor e o sofrimento e o diabo seria uma resposta, uma explicação para o mal. Mas o diabo não resolve problema nenhum. É um símbolo personalizado do mal, definido num Concílio de Latrão. Não está no Credo, não faz parte da fé."

Quanto ao exorcismo, este professor do doutoramento em Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto acha-o "delirante": "Não faz sentido nenhum." E encolhe os ombros ante o facto de tanto diabo como exorcismo estarem no catecismo: "Mesmo o catecismo não é a última palavra sobre a fé. A fé deve ser razoável. E, repare, no catecismo ainda está a aceitação da pena de morte. Os exorcismos, o diabo, são uma crendice. Não há diferença entre isso e aqueles professores não sei quê que são propagandeados à saída do metro nuns papelinhos. O que é real é o sofrimento das pessoas." Certificando que se alguém o procura convicto de estar possuído tenta ajudar a pessoa, ouvindo-a e rezando com ela, conclui: "Há um grande livro de um grande exegeta, Herbert Haag, um dos maiores especialistas de sempre na Bíblia, que se chama Adeus ao Diabo, no qual ele demonstra que não existe nenhum fundamento para defender a respetiva existência. Kant também falou disso, conta que estava um padre a falar para uma tribo no Canadá a explicar de onde vem a tentação, e um na assistência perguntou: "Porque é que Deus não acabou com o diabo? E porque é que os anjos bons caíram, quem os tentou?""

Ler mais

Premium

Anselmo Crespo

Orçamento melhoral: não faz bem, mas também não faz mal

A menos de um ano das eleições, a principal prioridade política do Governo na elaboração do Orçamento do Estado do próximo ano parece ter sido não cometer erros. Esperar pelos da oposição. E, sobretudo, não irritar ninguém. As boas notícias foram quase todas libertadas nas semanas que antecederam a apresentação do documento. As más - que também as há - ou dizem pouco à esmagadora maioria da população, ou são direcionadas a nichos da sociedade que não decidem eleições.

Premium

Ricardo Paes Mamede

Tudo o que a troika não fez por nós

A crítica ao "programa de ajustamento" acordado com a troika em 2011 e implementado com convicção pelo governo português até 2014 já há muito deixou de ser monopólio das mentes mais heterodoxas. Em diferentes ocasiões, as próprias instituições em causa - FMI, Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia - assumiram de forma mais ou menos explícita alguns dos erros cometidos e as consequências que deles resultaram para a economia e a sociedade portuguesas. O relatório agora publicado pela Organização Internacional do Trabalho ("Trabalho Digno em Portugal 2008-2018: da Crise à Recuperação") veio questionar os mitos que ainda restam sobre a bondade do que se fez neste país num dos períodos mais negros da sua história democrática.

Premium

João Gobern

Simone e outros ciclones

O mais fácil é fazer coincidir com o avanço da idade o crescimento da necessidade - também um enorme prazer, em caso de dúvida - de conversar e, mais especificamente, do desejo de ouvir quem merece. De outra forma, tornar-se-ia estranho e incoerente estar às portas de uma década consecutiva em programas de rádio (dois, sempre com parceiros que acrescentam) que se interessam por escutar histórias e fazer eco de ideias e que fazem "gala" de dar espaço e tempo a quem se desafia para vir falar. Não valorizo demasiado a idade, porque mantenho intacta a certeza de que se aprende muito com os mais novos, e não apenas com aqueles que cronologicamente nos antecederam. Há, no entanto, uma diferença substancial, quando se escuta - e tenta estimular-se aqueles que, por vias distintas, passaram pelo "olho do furacão". Viveram mais (com o devido respeito, "vivenciaram" fica para os que têm pressa de estar na moda...), experimentaram mais, enfrentaram batalhas e circunstâncias que, de alguma forma, nos podem ser úteis muito além da teoria. Acredito piamente que há pessoas, sem distinção de sexo, raça, religião ou aptidões socioprofissionais, que nos valem como memória viva, num momento em que esta parece cada vez mais ausente do nosso quotidiano, demasiado temperado pelo imediato, pelo efémero, pelo trivial.

Premium

Henrique Burnay

Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.