A primeira comunidade islâmica a "repovoar" a Península Ibérica

Quando os fundadores chegaram, eram as casas de família que acolhiam as suas orações. Até o grupo se tornar de bom tamanho e conseguir o ambicionado terreno na Praça de Espanha - onde os primeiros muçulmanos montaram tenda - para erguer a sua Mesquita. É ali que se juntam hoje os membros da comunidade que aqui nasceu há 50 anos

Em 1956, Abdool Vakil, o presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), era um jovem de 17 anos que deixava o seu país, Moçambique, para estudar na metrópole. Pensava que era o único muçulmano em Portugal, até descobrir Suleiman Mamede (já falecido), da ilha de Moçambique, também estudante. Vieram outros alunos, veio toda a família Vakil. Encontravam-se, oravam. No início, na casa da mãe de Abdool, em Alvalade. Mas foi apenas em 1968 que se organizaram em comunidade. Eram quinze os sócios fundadores - metade já não estará nas cerimónias de celebração dos 50 anos, que acontecem hoje na Mesquita Central de Lisboa.

"A Comunidade Islâmica de Lisboa foi a primeira a reaparecer na Península Ibérica", lê-se à entrada da Mesquita. Recorda a história e a expulsão dos judeus e dos muçulmanos em 1497, cinco séculos antes de ser construída. E teria de erguer-se na Praça de Espanha, explica Idris Karim Vakil, irmão de Abdool e membro do núcleo de fundadores que dirigiu o pedido logo nos primeiros contactos feitos com Francisco Sá Carneiro. "Perguntaram onde queríamos o terreno; respondi: "Na Praça de Espanha." Disseram: "Não pedes pouco." Expliquei: "Foi aí que viveram os primeiros muçulmanos em Lisboa, em tendas."

Regressando ao início. Abdool apaixonou-se por uma católica e disse à mãe que queria casar-se. "Ela quis conhecer a minha namorada e vieram todos. Fomos a primeira família muçulmana em Portugal", conta, juntando ser essa a razão de os primeiros encontros da comunidade e as datas mais importantes para o islão, como o Ramadão, terem passado a ser comemorados na habitação dos Vakil. A família juntou-se então ao primogénito, deixando Moçambique e o negócio, a Casa Coimbra, um armazém de cinco andares e que deve o nome à paixão do pai pelo fado conimbricense.

Estudantes, mas também empresários em trânsito, na sua maioria moçambicanos com raízes na Índia, um ou outro português convertido, africanos da Guiné (agora Guiné-Bissau) e um dos Camarões constituíram o núcleo de 15 fundadores da CIL . E a mulher de Abdool, Rosária, converteu-se ao islamismo passando a integrar o grupo. Os irmãos Abdool e Idris Vakil e Mussa Omar contam ao DN como tudo aconteceu.

Omar vivia então no Porto e não assinou a escritura da constituição da CIL, em março de 1968 (Diário do Governo, 6 de abril). É o único a ter nascido na Índia, em Porbandar - "Terra de Gandhi", sublinha -, chegado a Portugal de barco. A formação principal fez-se com idas e vindas ao estrangeiro. Quanto a Abdool, veio estudar para Lisboa, para o Instituto Comercial, passando depois para o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG). Formou-se em Económicas mas foi o setor bancário que o conquistou, tendo passado pela liderança de bancos como o BNU e o seu Efisa, depois de ocupar cargos de relevo no Banco de Portugal e no Ministério das Finanças. Aos 78 anos, apesar de semi-reformado, continua a encontrar muito que fazer, além da atividade como presidente da CIL.

Irmão de Abdool, Idris chegou em 1959, para fazer Medicina na Universidade de Lisboa. Internista cujos principais anos de atividade estiveram ligados ao IPO, onde teve funções diretivas, fundou em 2002 a First Health, centro médico com várias especialidades onde continua, aos 76 anos, a exercer. Mussa Omar tem a mesma idade e ano de entrada em Medicina, mas formou-se no Porto, tendo-se especializado em cirurgia e dirigido vários serviços hospitalares, em alguns dos quais introduziu a cirurgia laparoscópica. Hoje vive em Lisboa, onde faz medicina do trabalho.

Oraram em embaixada e palácio

Em simultâneo com as carreiras, a religião teve sempre papel primordial nas vidas dos fundadores, o que ajudou ao crescimento da comunidade, até as casas de família se tornarem pequenas para acolher o grupo. Construir um templo era o sonho. "Éramos realistas para perceber que não era suficientemente grande para uma mesquita de raiz", observam os irmãos Vakil. "As orações podem ser feitas em qualquer sítio, desde que estejamos voltados para Meca e limpos - para o que fazemos a ablução [um ritual de purificação que consiste na lavagem da cara e dos pés] -, mas era muito importante termos um espaço."

Após a Revolução de Abril e com a independência das colónias ultramarinas, chegaram mais muçulmanos, vindos não só de Moçambique como da Guiné-Bissau, por exemplo. Mais tarde vieram os naturais de Marrocos, da Turquia, da Algéria. A CIL estima que no anos 1980 viveriam 30 mil muçulmanos no país, 50% naturais dos dois países africanos de língua portuguesa e os restantes do Magrebe, além de um ou outro das embaixadas de Turquia, Arábia, Iraque, Líbano e Síria - a última vaga deu-se nos finais do século passado, na maioria vindos do Paquistão e do Bangladesh, ampliando a comunidade para 60 mil (já foram 70 mil, mas a crise levou-os a procurar trabalho fora). Com a formação do Centro Islâmico pelos embaixadores de países muçulmanos, a Comunidade Islâmica de Lisboa implementava-se. Estavam criadas as condições para lutar por uma mesquita de raiz - desde logo o terreno, que acabou por conseguir devido às boas relações da comunidade com o PSD, que então liderava o país.

Conta Mussa Omar que o então embaixador do Egito, general Shazy, cedeu a cave da embaixada para as orações de sexta-feira (o dia principal da religião muçulmana), a isha (oração da noite) e a taraweh (oração dos descansos) durante o mês do Ramadão. Em 1977, conseguiram o desejado terreno junto à Praça de Espanha, cedência por 99 anos firmada por Aquilino Ribeiro Machado, presidente da Câmara Municipal de Lisboa eleito pelo PS. Mas foi Mota Pinto, então primeiro-ministro (PSD), quem lhes atribuiu um edifício enquanto a mesquita não estivesse construída. E foi assim que, até 1985, data da inauguração, a comunidade orou num palácio na Travessa do Abarracamento de Peniche, ao Príncipe Real, perto da Embaixada dos Emirados Árabes Unidos.

"Lembro-me bem desse palacete, fui lá desde o início", recorda José Baldé, natural da Guiné-Bissau, em Portugal desde 1972. Veio para estudar, "tinha cá um tutor", e quando concluiu o ensino secundário trabalhou no Ministério da Educação. Hoje tem 64 anos - "no BI, mas sou mais velho" -, vive na Pontinha e desloca-se frequentemente à Mesquita Central de Lisboa. Já marcou presença nas comemorações dos 50 anos (ver texto ao lado). "Estamos na Península Ibérica desde o século XV, há uma boa relação entre católicos e muçulmanos e é importante que exista respeito mútuo. E quanto mais solidariedade houver entre os povos, melhor será para ambos." Não se queixa de discriminação por ser muçulmano: "Ouvi relatos de pessoas conhecidas, mas eu nunca o senti."

Abdool Vakil e os outros fundadores têm a mesma perceção. "Desloco-me duas vezes por ano ao estrangeiro para reunir-me com representantes da comunidade. Um desses encontros acontece em Bruxelas. Uma vez, estava a dar conta da minha experiência e uma participante diz: "Vive no paraíso?" Respondi: "Se calhar vivo, mas é a realidade.""

Acrescenta Mussa Omar: "Nunca sentimos discriminação, talvez atualmente, com os atentados e a guerra do daesh, as coisas sejam mais complicadas para quem chega." "Enquanto médico, eu nunca tive problemas. Mas já ouvi o filho de uma doente apontar o dedo e dizer "é monhé". Não me incomoda, é uma questão de educação, não de discriminação", conclui Idris.

Foi assim mesmo quando chegaram, há 60 anos, numa época em que os portugueses estavam menos informados em relação ao estrangeiro e o próprio regime se fechava ao exterior. Estranhavam que não bebessem vinho, não comessem carne de porco ou outra que não obedecesse às regras halal (o animal deve ser sangrado e quem o mata dizer as palavras: "Em nome de Deus, Alá é maior"). Hoje é vulgar ver o anúncio a esta carne nos talhos dos bairros de imigração do Paquistão e do Bangladesh, mas naquele tempo abasteciam-se nos talhos judaicos (kosher), que obedecem aos mesmos princípios.

Os momentos mais difíceis que passaram? Hesita Abdool Vakil antes de responder: "Penso que foi mesmo numa altura em que faltou apoio financiamento, mais por divergências entre quem doava e quem dirigia a comunidade, e a mesquita foi inaugurada sem estar acabada. Entretanto, as contribuições foram retomadas e estamos a terminar a obra. Só faltam os acabamentos."

Ler mais

Exclusivos