A caminho da Expo: um bairro inteiro que quer criar

Foi a zona esquecida da cidade quando da reabilitação do Oriente com a Expo. Vinte anos depois, há uma dinâmica que já faz mexer Beato e Marvila. Estrangeiros e portugueses olham para as duas freguesias como a oportunidade para viver e trabalhar

De bicicleta, numa foodtrip pela Europa, Anne e Antoine Legrand começaram por se maravilhar pelo Alentejo, onde pensaram lançar âncora, mas chegados a Lisboa enamoraram-se de tal modo que deixaram o sonho de viver nas terras da planície para um dia.

Quando procuravam móveis para a casa que encontraram na Graça, foram parar a uma loja no Beato de móveis vintage, num enorme armazém como tantos outros na zona. "E assim descobrimos este bairro", explica em português Anne ao DN.

É um bairro "com todo o potencial", diz, antecipando a escolha que ela e o marido fizeram por uma pequena casa que será um restaurante familiar, a inaugurar no outono, junto ao Largo do Olival. O largo sossegado de coreto a um canto é um parque de estacionamento, onde os carros parados não perturbam a calma do lugar, com mesas para jogar às cartas e sem ninguém naquela tarde de dia de semana, casas de piso térreo ou de um ou dois andares, não mais, um apartamento de janelas de acrílico branco que denuncia a reabilitação recente e que está à venda, e outro edifício de esquina a cair.

Passam poucos ali, encostados que estamos à Rua do Grilo, à Calçada Duque de Lafões e à Alameda do Beato, mas já há cartazes imobiliários nesta Lisboa que agora, 20 anos depois da Expo"98, deixou de ser apenas uma terra de passagem entre o centro da cidade e o Parque das Nações. Beato e Marvila ficaram a ver o progresso nascer paredes meias com estas duas freguesias, que começam por fim a mexer. Sem medo da gentrificação, o palavrão para estes tempos

"É um bairro ótimo, parece Brooklyn", compara Anne Legrand, "com as cervejas artesanais, as galerias de arte. Aqui há garagens, armazéns, um bairro inteiro que quer criar", entusiasma-se Anne. "E eu tenho um milhão de ideias", antecipa.

Ideias de sobra têm também os responsáveis do Hub Criativo do Beato (HCB) para uma área de 35 mil metros quadrados e 20 edifícios. Miguel Fontes, diretor executivo da Startup Lisboa, a quem a Câmara de Lisboa entregou a gestão do projeto.

Se "Lisboa está no mapa", como diz ao DN, "obriga Lisboa a mexer-se", apostando numa zona da capital que começou a "ganhar outra dinâmica". "De Santa Apolónia à Expo" - como tantos ainda dizem hoje referindo-se ao Parque das Nações - "era a zona que faltava desenvolver e consolidar". Por isto, "a localização do Hub não foi inocente", admite Miguel Fontes.

No espaço por agora quase vazio, há obras de saneamento a arrancar e empresas que já começaram a anunciar a sua instalação na antiga Manutenção Militar - era ali que se fazia o pão, as massas e as bolachas para os militares portugueses. Miguel Fontes chama-lhes parceiros e puxa dos nomes com satisfação: haverá a Factory Berlin, o hub digital da Mercedes, a Super Bock, a Web Summit ou a Startup Lisboa. São "entidades âncora", ímanes que podem atrair outras nos eixos definidos para o HCB: empreendedorismo, indústrias criativas e mundo corporativo. E haverá ali um museu, na antiga fábrica da moagem, para perpetuar a memória do lugar.

Até ao final de 2019, Miguel Fontes conta ter "os primeiros ocupantes a abrirem portas", num espaço que se foi mostrando à cidade com eventos, que ocuparam o espaço, como a mais recente exposição do World Press Photo.

O responsável recusa que o projeto seja um objeto estranho ao bairro, a esta zona de Lisboa. Mas reconhece que "já havia uma dinâmica própria no Beato e em Marvila". O HCB "é um ponto de partida e de chegada", conta, recordando a reunião que mantiveram com comerciantes e líderes da comunidade para lhes explicar o que será o Hub e para os ouvir. "O desafio é controlar os efeitos mais perniciosos, como a gentrificação."

Anne Legrand duvida que venha a ser um bairro tão atingido como outras zonas da cidade. "É uma zona de trabalho e industrial, não é uma zona turística", nota, eventualmente procurada por quem se interessa por arte urbana. Eles próprios na sua Maison Legrand, empresa de eventos, que pretendem que funcione como um laboratório, pretendem "trazer os locais". "Não procuramos os turistas, se vierem muito bem. Mas queremos trazer quem vive e trabalha em Lisboa", para se sentarem na sua cozinha em volta da mesa.

É de vizinhos que se faz também a clientela do Bistrô Lisboa, cafetaria e lounge como se apresenta o estabelecimento na Rua Fernando Farinha, numa urbanização de prédios incaracterísticos de construção recente, onde sobressai o elétrico amarelo que marca a Lisboa que os turistas procuram. Sem quererem fazer um simples "café do Nuno e do Bruno", o Bistrô nasceu com vontade de ser diferente. Bruno Ribeiro é desta zona de Marvila, o Vale Formoso, e depois de saber da disponibilidade do espaço desafiou Nuno Gomes (trabalhavam os dois numa empresa da restauração) para fazer de outro modo, onde a oferta é limitada. "Manter o tradicional mas atualizado" - e desde há dois anos e meio assim fazem. À oportunidade de negócio, estudaram os clientes e o que pediam para apostar em alimentação saudável, sumos naturais, saladas. Há bolachas e chás e um parque infantil ao lado, muito procurado.

Em conversa com o DN os dois notam que já há "muita procura imobiliária" e "pouca oferta". "Se souberem de alguém que venda", ou "arrende", pergunta quem passa, também estrangeiros. Ao longe, no fundo da rua, veem-se os silos de cereais do Beato, o azul do Tejo a espreitar.

Numa zona "muito parada, envelhecida e e decadente", que foi perdendo atratividade, a sua precariedade "trouxe este tipo de usos" de gente a apostar em negócios e espaços diferentes, avalia Miguel Fontes. "O início desta dinâmica esteve muito cruzado com esta indefinição." Agora, é tempo de outra definição: o Beato e Marvila não são mais meras passagens a caminho do Oriente.

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Rosália Amorim

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