"As pessoas embrulharam-se nas escadas e ficou lá tudo"

"Foi tudo no ápice de um minuto", diz um dos sobreviventes do incêndio que matou 8 pessoas em Vila Nova da Rainha
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"Eu tive a sorte de ser um dos primeiros a fugir. Saímos uns 15, uns à frente, outros atrás de mim, e o resto ficou nas escadas...": é ainda de voz trémula que Carlos Ferreira descreve, ao DN, a forma como "num instantinho" o fogo tomou conta do piso superior da sede da Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha e deixou um rasto de morte e destruição naquela pequena localidade do concelho de Tondela. Este domingo, debaixo de uma névoa cerrada, o sobrevivente e os restantes conterrâneos ainda tentavam entender a tragédia de sábado à noite, que matou oito pessoas e deixou 38 feridas.

"Foi tudo no ápice de um minuto. Não houve explosão. Começou a arder no tubo da saída da salamandra, com um 'fumozinho', um 'clarãozinho', e propagou-se logo ao teto todo", conta o sobrevivente, explicando que as cerca de 60 pessoas que se encontravam no 1.º andar da associação (a disputar um torneio de sueca) se precipitaram para as escadas de acesso ao rés-do-chão (a outra porta existente no edifício, que dá para a rua, estava fechada) mas só as mais rápidas conseguiram escapar. "As pessoas embrulharam-se nas escadas e ficou lá tudo", explica.

Carlos Ferreira descreve o pesadelo da véspera ao mesmo tempo que o Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, visita o edifício, de vidros partidos e paredes enegrecidas junto ao telhado. São sinais da luta dos que escaparam ou estavam no rés-do-chão para tentar salvar os que ficaram caídos nas escadas. "Partimos os vidros, para não asfixiarem, arrancámos a porta, e puxámos as pessoas que pudemos cá para fora. Se não, morria muito mais gente", conta o sobrevivente.

Em volta, atrás da barreira de segurança montada, dezenas de mirones (habitantes da terra e de localidades vizinhas) tentam um vislumbre distante do PR e do local da tragédia. Carlos Ferreira segue com eles, num cortejo em passo lento, até ao largo onde Marcelo Rebelo de Sousa fala aos meios de comunicação social, minutos depois. O sobrevivente acaba de lágrimas nos olhos, a ouvir os breves discursos do presidente da Câmara Municipal de Tondela, José António Jesus, do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e do Presidente da República, inconsolável com o triste desfecho do torneio de sueca que há 16 anos orgulhava as gentes de Vila Nova da Rainha. "Isto era uma coisa bonita, fora de série mesmo. Ninguém pensava que algo assim pudesse acontecer", conclui.

Em Vila Nova da Rainha

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