Hospitais pouparam quase 30 milhões de euros só com três genéricos neste ano

Entre janeiro e outubro, redução de gastos apenas com dois medicamentos no tratamento do cancro e do VIH foi superior a 25 milhões de euros. Poupanças permitem investir em mais inovadores.

Os hospitais portugueses pouparam perto de trinta milhões de euros nos primeiros dez meses deste ano apenas com a utilização de três medicamentos genéricos. Tendo em conta dados avançados pela Autoridade do Medicamento (Infarmed), só um tratamento na área do cancro e outro contra o VIH permitiram uma redução de despesa de 25,5 milhões entre janeiro e outubro, em comparação com o mesmo período do ano passado. Poupança a que se juntaram os 2,2 milhões de euros num antibiótico usado em meio hospitalar.

Os dados em relação aos medicamentos da área da hematoncologia (o imatinib) e do VIH (abacavir + lamivudina) foram divulgados pela presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado, durante uma reunião da Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica a meio do mês. Questionado pelo DN, o organismo que regula do setor do medicamento avançou um outro exemplo que representou poupanças assinaláveis em relação aos anos anteriores: a Linezolida, um antibiótico de largo espectro. Em 2017, a despesa com esta substância é de 832 mil euros comparativamente com 5,2 milhões em 2015 (uma poupança de 4,4 milhões) e três milhões no mesmo período do ano passado. O Infarmed adianta ainda que, tal como com os outros dois tratamentos, a utilização deste medicamento mantém-se constante.

O mercado de genéricos tem possibilitado poupanças significativas que nalgumas moléculas é superior a 95% de redução de preço, ilustra na prática Armando Alcobia, da Comissão de Farmácia e Terapêutica do Hospital Garcia de Orta, de Almada. Alguns exemplos concretos com grande impacto nas contas dos hospitais foram os medicamentos oncológicos (docetaxel, paclitaxel, capecitabina, temozolamida) e antibióticos de aplicação endovenosa (piperacilina + tazobactam, com redução de cerca de 90%; e imipenem e meropenem, com reduções superiores a 80%). No caso do já referido imatinib (medicamento para tratamento de doenças hematológicas), "tinha um custo por comprimido de 70 euros e que, no espaço de menos de um ano, foi reduzido para menos de dois euros. Se em 2016 foram consumidos cerca de 30 milhões de euros deste medicamento, será de prever uma redução bem superior a 20 milhões", sublinha o especialista em farmácia hospitalar, que ainda assim alerta que "estas diferenças de preço não podem comprometer a qualidade do medicamento e reduções de preço desta magnitude podem levar ao abandono do mercado de alguns fornecedores, levando a ruturas no fornecimento destes medicamentos, o que constitui um problema sentido na Europa e nos Estados Unidos".

As poupanças permitem "atenuar, mas não evitar, o investimento necessário para adquirir novas moléculas que a investigação trouxe para o mercado, algumas delas muito promissoras, mas em que se tornou habitual o preço por cada comprimido ser superior a 150 euros ou cada ampola injetável mil euros", nota Armando Alcobia. A área da oncologia é uma das que merecem maior aposta (ver caixa), tal como a do tratamento da infeção por VIH, considerada a segunda rubrica a seguir à área da hematoncologia, em que alguns medicamentos de elevada utilização têm perdido a patente e os hospitais têm começado a adquirir genéricos.

"Atendendo a que os preços dos novos medicamentos continuam a ser muito elevados, todos os esforços que contribuam para a tão propalada sustentabilidade do sistema serrão uma boa ajuda", resume o especialista do Garcia de Orta, que destaca ainda a perda de patentes de medicamentos biológicos (produzidos a partir de células vivas, com recurso a métodos de biotecnologia), "que veio permitir que os designados biossimilares possam ser comercializados e, tal como nos genéricos, antevê-se que possam contribuir para uma redução dos preços". A despesa com medicamentos hospitalares é superior a mil milhões de euros e prevê-se um aumento superior a 5% neste ano.

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