Hospitais da Grande Lisboa com 50% de falsas urgências

Ida aos hospitais continua a aumentar em todo o país: já são mais 134 mil que no primeiro semestre do ano passado

Metade das urgências da região de Lisboa e Vale do Tejo, registadas nos primeiros seis meses do ano, foram falsas urgências. As pulseiras verdes, azuis e brancas, consideradas pouco ou não urgentes, foram 46,6%, o valor mais alto das cinco regiões do país. Segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), em 22 hospitais do país este tipo de urgências aumentou em comparação com o mesmo período do ano passado, há 12 unidades acima dos 40% e oito em que são mais de metade dos casos.

Dos 13 hospitais da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, cinco subiram o número de não urgentes. Entre eles estão o Centro Hospital Lisboa Norte (50%), Loures (54%) e o Garcia de Orta (48%). E embora com alguns decréscimos, continuam a existir hospitais onde este se mantém um sério problema, como o hospital Amadora-Sintra (54%).

Embora as restantes ARS apresentem melhores valores globais, não estão isentas de problemas. No Norte estão três das unidades que fazem parte da lista do top oito das pulseiras verdes, azuis e brancas: Centro hospitalar Póvoa do Varzim, Santa Maria Maior e hospital Senhora da Oliveira. No Alentejo sobressai a Unidade Local de Saúde no Norte Alentejano (52%).

Doentes vão onde há resposta

Para Rui Nogueira, presidente da associação dos médicos de família, os resultados de Lisboa e Vale do Tejo estão relacionados com "um aumento da população inscrita nos centros de saúde e uma ligeira descida de médicos de família. Faltam cerca de 400 clínicos e 20% da população não tem médico de família. À partida esta é uma justificação para estes doentes que deveriam aos centros de saúde e vão à urgência. Se não temos capacidade para os atender, continuam a ir aos hospitais. A entrada de mais de 200 novos médicos de família a nível nacional terá impacto, embora seja de esperar maior influência nos resultados de 2017". Para as restantes zonas, a explicação poderá ser outra. "É preciso olhar com cuidado para os dados. É preciso mudar a cultura de que nos hospitais são melhor atendidos e aumentar a capacidade de resposta dos centos de saúde." Há um milhão de utentes sem médico de família.

Para o bastonário dos médicos, José Manuel Silva, "classificar estas como falsas urgências é abusivo e culpar os doentes. As pessoas não têm capacidade para avaliar a sua situação e a triagem de Manchester define prioridades e não urgências", afirma, referindo que "os doentes vão à urgência porque precisam de uma resposta e ali sabem que têm". Para o médico "há falta de capacidade dos centros de saúde e das consultas externas dos hospitais. Mesmo nos casos em que há cobertura de médico de família, as urgências estão a aumentar. Com a anterior legislatura reduziram-se os horários dos centros de saúde e ainda não foram alargados. Há pessoas que não podem faltar ao trabalho e fora do horário laboral a resposta dos centros de saúde é má. É preciso estudar quem e porque vai às urgências para se tomarem medidas."

Independentemente das prioridades, as urgências estão a subir: perto de 3,2 milhões, mais 134 mil do que em período homólogo. A continuar a assim, cai por terra a pretensão do ministério de cortar 225 mil episódios até ao final do ano. A ACSS lembra, em resposta ao DN, que Portugal é um dos países da OCDE que historicamente regista um volume elevado de urgências, por questões conjunturais e estruturais "que implicam a implementação de medidas que produzem efeito a médio/longo prazo". Entre elas, destaca o aumento de médicos de família com o regresso de reformados e a contratação de novos especialistas em julho que vai "aumentar a cobertura em cerca de mais 500 mil utentes", e a valorização da Linha Saúde 24. "Estas medidas, conjugadas com a implementação continuada de iniciativas de educação para a saúde, contribuirão para inverter paulatina e sustentadamente a tendência de utilização das urgências", afirma.

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