Histórias de traições e candidatos alternativos de última hora

António Guterres enfrenta hoje Kristalina Georgieva pela primeira vez e na primeira votação decisiva da ONU.

As eleições dos secretários-gerais da ONU têm sido marcados por alguns "episódios épicos" de bastidores em que as do peruano Pérez de Cuellar e ganês Kofi Annan terão sido das mais tensas, observaram antigos embaixadores portugueses nas Nações Unidas.

As memórias destes diplomatas ouvidos pelo DN foram avivadas pela admissão da búlgara Kristalina Georgieva à última hora, após cinco votações do Conselho de Segurança (CS) ganhas pelo português António Guterres e quando hoje, pela primeira vez, os cinco membros permanentes (P5) dão a conhecer se e quem vetam dos 10 candidatos à sucessão do sul-coreano Ban Ki-moon.

Ban Ki-moon cessa funções no final deste ano, após 10 anos num cargo para o qual foi eleito sem dificuldades em 2005 e quando era a vez do grupo asiático o exercer.

China bloqueou europeu

Nos anos 1980, o austríaco Kurt Waldheim (1972-1982) concorria a um terceiro mandato, mas a China e países em desenvolvimento "não queriam [porque] já estavam fartos de europeus" no cargo, lembrou o embaixador António Monteiro.

Sendo a vez de África exercer o cargo, segundo o critério informal da rotação entre os cinco grupos regionais que já tinha levado o asiático U Thant a ocupá-lo (1961-1971), a China apoiou o tanzaniano Salim Salim. "Durante semanas, o CS esteve bloqueado" porque Washington - onde o republicano Ronald Reagan acabava de ser eleito Presidente - vetava um candidato "muito considerado" dentro da ONU mas "visto como próximo" da então URSS" pelos EUA, relembrou.

O CS "teve então a ideia de recorrer a outra zona geográfica" e que seria a América Latina, onde a escolha recaiu sobre o embaixador argentino Carlos Rosas - que "não podia ser" por causa do conflito sobre as ilhas Falkland/Maldivas entre Argentina e Reino Unido, outro dos P5 com direito de veto. "Foi assim que surgiu Pérez de Cuellar" para desbloquear um "processo épico", concluiu António Monteiro.

Dez anos depois, sucedeu-lhe o egípcio Boutros Boutros-Ghali, candidato africano que prometia cumprir um único mandato.

Contudo, ao recandidatar-se cinco anos depois declarando que "só os idiotas é que não mudam de opinião", Boutros-Ghali viu os EUA usarem o seu veto contra si - mas deixando claro que não se opunham a outro nome do continente africano, pondo a circular o nome do ganês Kofi Annan, disse o então representante permanente de Portugal na ONU, embaixador Pedro Catarino.

Boutros-Ghali (1992-1996) chegou a ter o apoio de 14 membros do CS, pois "havia uma forte inclinação" para o reeleger e em especial da França, adiantou António Monteiro. Porém, os EUA insistiam em vetá-lo "devido a certas posições que tomou em relação ao conflito israelo-palestiniano", à publicidade que deu a um relatório sobre o bombardeamento de um quartel no Líbano e por causa dos gastos da organização, assinalou Pedro Catarino.

"A Administração Clinton não lhe perdoou a sua rejeição à intervenção da NATO [liderada pelos EUA] na Sérvia, aquando do conflito no Kosovo, sem mandato multilateral legitimador", escreveu o embaixador Seixas da Costa sobre "os sórdidos bastidores da manobra de Washington para colocar Kofi Annan no seu lugar".

O egípcio, único dos oito secretários-gerais da ONU a cumprir apenas um mandato, viu Kofi Annan suceder-lhe - mas só depois de ficar na mesma situação e após uma dezena de votações: 14 votos a favor e o veto da França. O impasse seria ultrapassado com a nomeação de um francês para o cargo que era de Annan, secretário-geral adjunto para as operações de paz.

Pedro Catarino, que estava em Washington quando Guterres foi eleito Alto Comissário para os Refugiados contra "pesos pesados como Gareth Evans [Austrália] e Bernard Kushner [França]", mostra-se apesar de tudo confiante na sua vitória porque "Portugal tem uma reputação elevada na ONU". Fica por saber se isso, que já deu vitórias para o CS contra Canadá e Austrália, resiste a velhos hábitos num processo que agora se quis transparente.

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