"Há uma politização do SNS que nos está a matar"

O Serviço Nacional de Saúde tem enormes vitórias, mas não deve lutar para ser SNS, mas sim pelos doentes. Quem é o diz é José Fragata, médico, cirurgião cardiotorácico e diretor de serviço no Hospital de Santa Marta

O que mudava no Serviço Nacional de Saúde?

É muito fácil ser treinador de bancada, obviamente que não se pode dizer a um ministro o que deve fazer, mas devo dizer que tinha mais expectativas do que aquilo que se tem verificado. Não sei até que ponto se pode responsabilizar este ministério, que está a administrar uma Saúde sem dinheiro. No serviço, temos um défice que vem de trás, de quatro a cinco milhões de euros, que não consigo desbloquear por muito boas vontades que haja. E isso não me está a ajudar a gerir nem a atrair pessoas. Algum dia alguém irá calcular o impacto real da crise, não só à volta dos hospitais e do equipamento, mas também na moral do sistema e nos profissionais.

Mas quanto ao SNS...

Há uma noção do SNS que está demasiado politizada e que não está a responder. Quem paga os cuidados de saúde são os cidadãos. E o que se espera do Estado é que nos proteja na doença e nos cuide na falta de saúde. Concordo com o princípio de que o Estado se responsabilize para que os cidadãos tenham cuidados de saúde, já não concordo tanto que o Estado ache que tem de ser ele a prover esses cuidados. Financiador e cuidador deviam estar separados.

Como é que isso poderia ser feito?

O sistema público tem desinvestido muito nos hospitais. Por outro lado, o setor privado, que já trata mais de quatro milhões de pessoas, tem feito grandes investimentos. Se o Estado fosse inteligente arregimentava o setor privado para os seus próprios cuidados através da contratualização de cuidados de saúde. Isto fazia com que os profissionais, em vez de trabalharem de manhã na pública e à tarde na privada, tivessem de escolher o lado em que queriam estar, sobretudo por razões de dedicação. Em segundo, os doentes passariam a circular entre público e privado como quisessem, e numa base de melhor acesso e qualidade. Para isto, teria de haver um pacote negociado para os dois lados. Se estivesse a trabalhar numa unidade privada nunca saberia se aquele doente era público ou privado. Não tenho de saber, só tenho de ser justamente pago por cada ato médico com qualidade que faça. Era preciso separar público e privado e criar um sistema de saúde em que os doentes fossem tratados num sítio ou noutro, e que estes assumissem a responsabilidade de levar os tratamentos até ao fim.

É a politização do SNS que impede isso?

O SNS não deve lutar para ser SNS, deve lutar pelos doentes. Há um erro de foco, estamos focados num conceito político, devíamos estar focados na excelência dos cuidados de saúde. O SNS tem enormes vitórias, ninguém nega isso, mas a questão é se isto é sustentável. Já estamos a investir 11% a 12% do PIB na saúde, e não vejo resultados suficientes. Nenhum ministro da Saúde, até este que está bem preparado, poderá fazer algo diferente no quadro atual, com esta enorme falta de dinheiro. Mas o pior é ainda a falta de definição política. Nenhum governo conseguiu tocar neste ponto. É um problema político que nos está a matar.

Os médicos têm razão quando dizem serem mal pagos e não ter condições para trabalhar?

Claro que têm. Há vencimentos muito grandes nos centros hospitalares, mas isso não se aplica a todos. E o sector privado dá hoje horizontes de trabalho que o público não dá. Na minha especialidade, com este grau de desinvestimento, não se vai conseguir dar a volta. Conseguimos pôr este coração artificial porque o governo autorizou, agora, para continuar, é preciso um esforço financeiro muito grande.

Mas entre público e privado a diferença está só na gestão?

Está. No meu serviço os doentes são muito bem tratados, gostam de cá estar, sentem-se bem, as enfermeiras são muito competentes, carinhosas. Agora ganha-se pouco. Trabalham muito pela camisola e cada vez nos pedem mais, mas não conseguimos dar mais resposta. Na privada acaba por ser um bocadinho melhor porque as pessoas ganham mais, os equipamentos são melhores e a gestão é mais efetiva.

É isso que marca a diferença?

É. Mas há outra coisa. Os profisisonais sentem que no público não há projeto. Antes era o contrário, tínhamos projeto no público e íamos à privada ganhar algum dinheiro. Hoje já não. O privado pede exclusividade e apresenta projetos. No grupo privado onde trabalho há muitos anos tenho projetos à minha espera. Por vontade deles só estava lá. Não percebo é porque é que o setor público deixou de ter capacidade para captar e segurar as pessoas. Há pressões políticas neste sistema público que não são razoáveis.

Portugal até é um país com sucessos na saúde. Isso vai ser afetado?

Portugal é um país de sucesso e há sinais muito positivos em várias áreas. Tenho pena que a saúde e numa área tão exigente como a minha não tenha capacidade de descolar. Mas tem a ver com questões de organização e de dinheiro. Estou muito insatisfeito com o que se passa. Estou aqui a assegurar um serviço que é publico em duas vertentes, a tratar de doentes e a formar colaboradores para um novo hospital, mas apesar dos esforços da administração, que são reconhecidos, não estou a conseguir levar a carta a Garcia.

Sente isso?

Absolutamente. Sou homem para tentar durante algum tempo. Mas não estamos a conseguir. É tudo difícil, as decisões são morosas e não há dinheiro. E é preciso pôr dinheiro em algumas áreas urgentemente. Por exemplo, não estou a trabalhar ao nível tecnológico dos meus colegas no estrangeiro. Houve altura em que já estive, mas agora não.

E qual é o caminho para se chegar lá?

É preciso investimento e uma organização diferente, uma flexibilidade que nós não temos. O sistema não é flexível, com os concursos para se comprar alguma coisa ou até para contratar. O setor público da saúde não tem agilidade, é cada vez mais difícil querer empreender.

É isto que está a empurrar os profissionais para o estrangeiro?

Acho que tem afastado mais enfermeiros do que médicos, mas vai começar a afastar os médicos também. Dou um exemplo muito simples: treinamos aqui um interno durante cinco a seis anos. Durante este tempo, o sistema público aguentou o treino, a formação, a curva de aprendizagem, porque não podemos deixar que os erros cheguem aos doentes, depois o sistema público oferece-lhe mil e tal euros e o privado quatro mil. Público e privado estão a competir de forma desleal e desigual. A medicina portuguesa está bem. As cirurgias que se fazem aqui têm a mesma qualidade das que se fazem em Nova Iorque ou em Paris, mas, infelizmente, a organização e o equipamento não têm a mesma qualidade.

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