"Há poucas mulheres nas administrações, mas a culpa não é só dos homens"

Dionísia Ferreira, administradora dos CTT, fala sobre os desafios da empresa e a dificuldade das mulheres em chegar a cargos de topo

Tivesse esta conversa acontecido há dez anos e talvez a decisão sobre o sítio para almoçarmos não fosse tão simples, mas a transferência da sede dos CTT do Chiado para a Expo - uma das grandes mudanças que atravessaram a empresa onde Dionísia Ferreira está pela segunda vez - facilitou as coisas. Além de ser perto, a Bica do Sapato junta um ambiente sossegado e ótima comida a uma particularidade cada vez menos comum: pode-se fumar. E esse talvez seja, a par do trabalho - "não sou capaz de estar parada", há de dizer-me -, um dos poucos vícios da administradora executiva dos CTT que herdou o nome da avó e que um erro dos serviços do cartão do cidadão transformou em Dionízia.

Num país onde apenas 11% dos membros de conselhos de administração são mulheres, Dionísia Ferreira chegou a um cargo de topo ainda antes dos 30 anos. Nessa altura, já tinha ajudado a montar o Barclays em Portugal e a experiência serviu-lhe de cartão de visita para o Grupo Mello, que comprara a Sociedade Financeira Portuguesa e se preparava para lançar o banco. Foi aí que conheceu Francisco Lacerda, atual presidente dos CTT, com quem se cruzou em boa parte da carreira.

Estávamos em 1992. "O então diretor comercial do Barclays foi convidado para fazer a operação e levou-me para diretora de agência." Havia de repetir o desafio outras vezes: primeiro em Londres, onde se instalou dois anos e meio levando a seguradora Império na bagagem - "fui sem conhecer ninguém e custou-me um bocado a adaptar-me... ainda me lembro de um dia 4 de junho em que estavam quatro graus! Mas depois tive pena de vir embora. É uma cidade muito interessante para viver e aprendi muito nesse tempo". Depois na integração da União de Bancos no Banco Mello, já como diretora comercial - "sabia que o grupo não iria crescer muito mais em Londres, por isso aceitei voltar" -, onde ficou quatro anos. Quando se deu a concentração da área financeira do Grupo José de Mello com o grupo BCP/Atlântico manteve o cargo. Num BCP cujas estruturas de topo estavam até então vedadas a mulheres, Dionísia foi uma das primeiras na direção, liderando a Nova Rede e a área de particulares de negócios e reportando diretamente à administração do banco.

Porque ainda cheira a verão e a salada de peixe da Bica é sempre uma aposta ganha, é por aí que nos decidimos - sem anchovas. Dionísia Ferreira também dispensa a batata. Não é que não a desfizesse nessa mesma tarde, a trabalhar, ou na manhã seguinte, no ginásio - "pelo menos duas ou três vezes por semana faço desporto. De manhã. Dá-me imensa energia: levanto-me às 06.30 para ir ao ginásio, faço caminhadas, faz-me bem à cabeça". Para mim, isto é impensável, mas admito que faça sentido para quem só precisa de dormir "quatro ou cinco horas". Ser saudável é uma exigência que faz a si própria e isso inclui uma alimentação cuidada, o que explica a ausência de hidratos de carbono no prato e a figura impecável aos 50 anos.

Não é fácil a uma mulher chegar ao topo. É preciso ser muito determinada.

Passará essa preocupação por sentir que lhe exigem mais do que aos homens? Ser bonita e andar bem arranjada é uma condição para chegar mais longe na carreira, quando se é mulher? Dionísia garante que não. O aspeto conta, é claro, mas a imposição e a exigência são "exatamente iguais" para homens e mulheres.

Voltando às quase três décadas que já leva no currículo, diz que adorou trabalhar no BCP. Tanto que recusou vários convites que recebeu nesses quatro anos. "Foi uma grande escola." Mas houve uma altura em que percebeu que naquela estrutura dificilmente subiria mais. Por isso, quando recebeu o telefonema para entrar na corrida para o cargo de diretora-geral de uma empresa com 1100 balcões, e apesar de não saber de que companhia se tratava - pela dimensão, antecipou duas possibilidades: a Galp ou os CTT -, não hesitou. Até chegar à terceira fase do processo de recrutamento. "Os Correios eram uma empresa pública e se há uma coisa que eu não sou é política, por isso havia ali algumas implicações que precisavam de atenção. Tive de pensar bem, mas acabei por aceitar."

Enquanto eu cedo ao apelo das azeitonas bem temperadas que temos à frente, vai-me explicando que não foi só a falta de perspetivas de evolução no banco que a levou pela primeira vez aos CTT. "Eu tinha quase 15 anos de banca e queria conhecer outra vida, e nos quatro anos que estive nos Correios conheci realmente o Portugal da altura - não era nada como a área financeira, que era muito protegida." Claro que também havia ali um apelo que lhe era familiar: havia um projeto de reestruturação em curso e Dionísia ficaria encarregada de tratar da mudança nas áreas de grandes clientes, das PME, da rede de lojas.

Adaptar-se a uma empresa pública depois de 15 anos no privado não foi pera doce, mesmo para quem admite ter nascido para trabalhar e fazê-lo com gosto. Sobretudo pela dificuldade de conciliar a vida familiar com o enorme desafio que tinha em mãos. "Nessa altura eu estava casada e o meu filho era pequeno e esperava sempre por mim para ir dormir. Lembro-me de um dia em que cheguei a casa e ele estava a chorar e me perguntou porque é que eu não era como as outras mães, que só trabalhavam de dia." O pai vivia no Porto e Dionísia não tinha horários, por isso teve de contratar uma empregada interna em quem o filho - hoje perto de fazer 18 anos e a frequentar o International Baccalaureate Diploma Program na escola americana - durante muito tempo viu uma segunda mãe.

Eu nunca deixaria de contratar alguém por saber que queria ser mãe

Pôs em pausa a salada de peixe - vê-se que a memória desse tempo ainda a faz pensar que poderia ter estado mais ali. Mas tem consciência de que não falhou, mesmo com o divórcio a acontecer quando o filho era ainda pequeno. "A minha grande preocupação foi dar-lhe a melhor educação possível e valores para que se tornasse uma pessoa equilibrada. E isso consegui."

Apesar de ela própria ter trabalhado até à véspera de ser mãe e passado mês e meio - metade do tempo de licença de maternidade então previsto - já ter voltado ao banco a tempo inteiro, entende que o seu caso não é exemplo. Mas não vê a maternidade como um obstáculo. "Eu nunca deixaria de contratar alguém por saber que queria ser mãe." Admite porém que as famílias portuguesas ainda são muito tradicionalistas - "há colegas que me perguntam o que é a licença de paternidade!" - e isso não ajuda. "As mulheres têm ciclos de vida diferentes dos homens e são vistas como quem tem de tomar conta da família. Eu não digo que me separei por causa da carreira, mas sei que houve uma falta de investimento no casamento porque estava focada no trabalho. No entanto, acho que há espaço para conviverem os dois lados, desde que se saiba fazer as coisas."

Ainda assim, diz que alcançar lugares de topo tem muito que ver com a postura da pessoa. "Eu sei que há mais mundo para além do trabalho, mas quando se tem determinadas responsabilidades não se pode atirar os papéis ao ar e dizer "agora vou-me embora". Eu não consigo ser assim. Se eu acho que é fácil a uma mulher chegar ao topo? Não. É preciso ser muito determinada, saber onde quer chegar. Mas, se as mulheres forem determinadas, conseguem. Há poucas em administrações de empresas, é verdade, mas a culpa não é só dos homens, é também da falta de empenho e de alguma ambição das mulheres. Tem que ver com valências, disponibilidade, determinação e vontade. Há quem prefira ter tempo para ir à praia, fazer massagens, passear e não esteja para isso. E as pessoas devem ter liberdade para escolher o que querem." Mas reconhece que a vida é difícil para quem queira chegar mais longe.

Esta é uma realidade que Dionísia Ferreira está disposta a tentar mudar, razão pela qual aceitou juntar-se à Women on Board, uma organização internacional criada para ajudar as mulheres a chegar a cargos de topo. Não preciso de lhe perguntar se concorda com a criação de quotas nas empresas para garantir que, haja determinação de um lado, as portas estarão abertas do outro. Na base, não vê que a solução seja essa. Mas entende que é preciso precipitar as coisas e por isso dá o benefício da dúvida ao sistema. "Na nova administração da Caixa, por exemplo, não há uma única mulher. Alguma coisa é preciso fazer para darmos o salto. Tenho pena de que o caminho seja esse, mas num país onde quase não há mulheres nas direções talvez seja preciso. Tem de se começar por algum lado." Mas as mulheres também têm de dar alguns passos.

Os CTT vão ter de crescer na cadeia de valor - não podemos ser só aqueles que vão buscar e entregar

Arrumadas as saladas, passamos diretamente aos cafés, que hão de prolongar a conversa por mais de meia hora. Olhando para o caminho que seguiu, Dionísia vê claramente que assumiu riscos em quase todas as mudanças que fez. E foi esse percurso que a levou à administração dos CTT, onde está desde agosto de 2012. "Se eu não tivesse tido a ousadia de trocar o BCP pelos Correios em 2003, provavelmente não estaria aqui hoje. Acredito que conhecer a empresa foi determinante para me terem convidado para a comissão executiva." Entre uma viagem e outra pelo universo dos CTT, voltou ao Barclays e passou pelo Banco Popular. Mas não podia recusar a ideia de fazer parte da equipa que iria privatizar a empresa e a poria a crescer numa altura em que já ninguém envia cartas. Hoje acumulando a gestão da rede, o banco na rede, a Rede Expresso e sendo responsável pelas operações em Espanha (onde vai todas as semanas) e em Moçambique, a administradora lidera 8500 das 12 mil pessoas que ali trabalham.

A acompanhar o segundo café, explica-me por onde terá de passar o futuro dos CTT, entre a gestão de encomendas e o banco. "Vamos ter de crescer na cadeia de valor - não podemos ser só aqueles que vão buscar e entregar, provavelmente temos de fazer mais, entrar em áreas a que os clientes dão valor mas fazem em outsourcing, como eventualmente a logística. E temos de crescer fora de Portugal. Provavelmente vamos ter de crescer orgânica e inorganicamente em Espanha - onde a Tourline tem 3% do mercado, o que equivale a 25% do mercado português." Até porque conferir aos CTT um posicionamento de operador ibérico é um objetivo claro.

Logicamente, nada disto se faz de um dia para o outro nem sem investimento, mas os CTT têm a vantagem de, no negócio tradicional, que é o correio, não caírem ao ritmo vertiginoso que se regista por exemplo nas empresas do setor no Norte da Europa (-20% ao ano). "Isso dá-nos tempo para fazer as coisas com mais segurança, o que é importante quando se cresce inorganicamente (por aquisição ou fusão)" - a margem de erro tem de ser quase zero, para depois acomodar todos os riscos da integração. "Portanto, há que pensar muito bem como é que isto se vai fazer, que players interessam e como se faz a aproximação." Ao mesmo tempo, a ideia é crescer também na cadeia de valor, ou seja, "prestar serviços que hoje ainda não fazemos - e isso implica ter pessoas, uma equipa de gestão com valências que ainda não temos".

No fim de contas, como é que se pede investimento aos acionistas quando os resultados e a cotação da empresa estão a recuar (cada ação valia ontem seis euros, menos 2,85 euros do que no início do ano)? "A queda na cotação tem que ver com várias coisas, incluindo os resultados no primeiro semestre (lucros de 31,7 milhões, menos 19% do que até junho de 2015), mas sobretudo por um fator que assusta muito os investidores: o risco do país." Explica que, sendo 90% dos acionistas dos CTT investidores estrangeiros (ainda que a maior fatia pertença a um português: o grupo Gestmin, de Manuel Champalimaud, com 9,65%), os correios belgas ou mesmo os ingleses, apesar do brexit, são mais apetecíveis, porque essas economias crescem melhor. E lembra que as mudanças que os CTT estão a fazer também implicam custos. "Investimos no banco, que estrategicamente fazia sentido porque aproveitámos a rede física e era um negócio que sabíamos fazer, era natural. Mas um banco traz mais risco. E tem custos. Sobretudo quando é feito em greenfield [lançado do zero], tem um aporte de capital muito grande. Quando os investidores veem que os resultados não crescem começam a pensar se a política de dividendos se manterá. Acho que é isto que pensam."

A administradora dos CTT tem planos e estratégias bem desenhados, mas vontade e entusiasmo para levá-los adiante também não lhe faltam. Tudo isto implica esforço e Dionísia Ferreira reconhece-o. "Sempre me esforcei, trabalhei muito para estar no sítio certo à hora certa, sempre dei o melhor de mim. Se me perguntar o que eu quero para mim, não sei. Mas sei exatamente o que não quero. E cada vez mais." E ficar quieta é uma dessas coisas. "Acho que vou trabalhar mais 20 anos."

Bica do Sapato

2 águas das Pedras

1 água sem gás

2 couvert

2 saladas de peixe da nossa costa

4 cafés

Total: 51,75 euros

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