"Há muitos ministros que a única coisa que querem é ser ex-ministros"

Almoço com o ex-secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos

Passar a porta do castiço Café com Calma é como viajar no tempo. De repente achamo-nos nos anos 1970, entre cadeiras e mesas rombas e desiguais sobre um chão de mosaico geométrico, balcão de mármore coberto de pratos de bolos caseiros e pães de diferentes qualidades - mais tarde hão de dar lugar a tartes e petiscos que seduzam quem procura uma refeição mais forte -, ao fundo os armários antigos e nas paredes pratos pintados de azuis. É a coisa mais longínqua de um Starbucks. Custa a crer que um adepto incondicional da inovação seja cliente habitual, mas João Vasconcelos não tem dificuldade em explicá-lo - e não é apenas a proximidade de casa, em Marvila, que justifica a escolha. É que tanto quanto gosta do que o obriga a sair da zona de conforto, quanto mais entende que há muitas funções em que desperdiçamos tempo e energia e seriam muito mais bem feitas por máquinas, também mais natural lhe é valorizar o lado humano. O que explica também que o "maluquinho das tecnologias" tenha como maior paixão o restauro de carros antigos.

Neste Almoço Com feito pequeno-almoço porque tem de seguir para o Porto, para a entrega de prémios da ANJE/Dinheiro Vivo Jovem Empresário, há de falar dessas paixões, da sua passagem pelo governo e da forma brusca como saiu, na sequência do galpgate. Mas é pelas mudanças que o Porto sofreu que começa. O ex-secretário de Estado da Indústria conhece bem a cidade - "passava lá três dias por semana quando liderava a ANJE, há mais de dez anos, e está muito interessante, cosmopolita, sofisticada". As cidades "burguesas e industrias, que valorizam o design, a arquitetura, a estética - como Milão, Amesterdão, Hamburgo, Barcelona, feitas por mercadores que se relacionam com o mundo" -, são as suas preferidas. Mas acredita que hoje está no lado certo da evolução. "Portugal está a apanhar o comboio digital. É a primeira revolução industrial que podemos acompanhar - a primeira chegou-nos décadas depois, e o mesmo aconteceu na segunda (da energia elétrica) e na terceira (a informática, a mecanização dos anos 60). No QREN e no Portugal 2020, ainda andamos a apoiar projetos da terceira revolução industrial! Agora, pela primeira vez temos o know how, temos a geração mais bem classificada de sempre, e quer a nossa localização quer a falta de materiais não são problemas."

Neste movimento, reconhece a Web Summit como "o" fator determinante e não limita o seu impacto ao lado económico. O que conta mais é o efeito de permitir a uma geração de portugueses ter contacto com o melhor que se faz no mundo. "Aqueles 10 mil que tiveram bilhetes de estudante e puderam contactar com aquela realidade, ouvir as talks; o protocolo que levou os alunos do Técnico ali... O melhor que se pode fazer por estes miúdos é pô-los no meio da confusão, a ouvir um empreendedor de Singapura, um CEO, e eles vão sair diferentes. É como um Erasmus em três dias."

Pedimos croissants mistos, um café duplo para mim e um galão para ele. Conta-me que gosta de viver nestes tempos. "A revolução digital está a acontecer, é inevitável. É claro que tem ameaças e desafios mas temos de aprender a usar a tecnologia a nosso favor e se a máquina faz melhor, que faça." Defende que o digital é importante mesmo nos setores mais tradicionais da nossa indústria; é essa a ideia que tem tentado passar e é para isso que tem trabalhado. Clarifica: "Eu não quero filigrana feita por robôs - aliás, cada vez mais os artífices vão ser valorizados, na era digital - mas podemos ganhar nesse setor usando marketing digital, comércio eletrónico, entrando nas redes mundiais de venda. Há milhares de industriais de confeções ou calçado que com a aposta certa no digital ultrapassam dois ou três intermediários entre eles e o cliente final." A lógica é: só temos a ganhar se nos libertarmos para o que só nós podemos fazer, "as funções que implicam emoção, sentimento".

Fã assumido da inovação - que define como "um novo produto, serviço ou processo que tenha impacto económico", exemplificando com plataformas como a AirBnB ou a Uber, por exemplo, que inovaram brutalmente no modelo de negócio -, João nem se recorda de onde lhe vem essa aptidão por tudo quanto é diruptivo. "Adoro arte e arquitetura contemporânea, tudo o que interfere com o statu quo, com o que temos como assumido, gosto de perder o pé. E sobretudo gosto de quem está sempre nessa fronteira." Mas reconhece um enorme obstáculo ao desenvolvimento: a falta de capacidade de produzir leis que o acompanhem.

"Tenho uma filha de seis anos que já vai viver num mundo muito diferente, inclusive na ideia de trabalho: em vez de ter uma profissão, vamos fazer três ou quatro coisas. A tendência será sermos recrutados pelos skills - o que traz desafios enormes de regulação laboral e de respeito pelos trabalhadores. Mas a regulação está muito mais lenta do que a tecnologia - a Uber tem milhões de clientes e não tem regulação... e é impossível proibi-la, porque não terá aderência à realidade." Foca-se ainda nas leis de crowdfunding, que saíram agora, ao fim de cinco anos e com centenas de milhões de euros movimentados, e nas fintechs, que "deixam os Bancos Mundiais à toa", para concluir que a legislação "é completamente obsoleta e não estamos a conseguir criar para o que aí vem".

Reconhece que há desafios - "tenho amigos da área da Cultura muito descrentes por causa dos direitos de autor, da partilha de conteúdos sem remuneração" -, mas a solução não é proibir, é antes fomentar modelos de negócio como o Netflix ou o Spotify, que permitam remunerar condignamente os autores. "O desafio é global, porque não é fácil um português iniciar um Netflix, nem são estruturas nacionais, mas globais que estão em causa. Posso parecer doido a dizer isto hoje, mas provavelmente o digital será uma maior salvaguarda de direitos de autor do que o analógico. Quando tivermos tecnologias de blockchain nos livros, nos discos, nos filmes, vai ser impossível partilhar descontroladamente."

Já com o pequeno-almoço servido, lamenta que por vezes se tente inventar o que já está criado, quando mais vantajoso seria estudar as melhores práticas que existem lá fora e adaptá-las à nossa realidade. Essa resistência, diz, vem de algum receio do que vem de fora. "Essa geração que desconfia de tudo o que lhe é estranho ainda está muito presente nas empresas e no Estado. Mas o Estado não pode ir em modas. Quando falamos de ameaças e desafios, o papel do Estado é o de prudência." Como é que isso se materializa? "Garantindo que o maior repositório de conhecimento sobre as matérias seja a Administração Pública. Se é o Estado que vai regular, tem de ter toda a informação - e hoje não tem. Precisávamos de entender de programação, de mobile, internet, softwares - até mesmo pelas ameaças de big data e cybersecurity. E quanto aos pagamentos móveis, bitcoin, criptocurrency, devíamos ter engenheiros informáticos que convivem com estas tecnologias no Banco de Portugal, esse devia ser o sítio onde há mais know how sobre os temas.

Defende por isso que é urgente qualificar o Estado, contratar pessoas com estas valências e dar formação aos atuais funcionários públicos, já que o maior obstáculo a ter uma Administração Pública mais sofisticada online são os recursos humanos. Pergunto-lhe se há vontade de modernizar o Estado dessa forma. Responde com outra pergunta. "Na última década não se aumentou os funcionários públicos, alguns passaram a receber metade do que ganhavam. Acha que vai atrair algum engenheiro informático ou alguém realmente bom?"

Tal como acontece na saúde, na justiça, na segurança, só pode haver mais-valia para a sociedade se o maior conhecimento estiver no Estado - "e isto não tem que ver com os fantasmas da direita. É a única maneira de todos os empresários terem acesso ao conhecimento". É claro na crítica de que trabalhar para o Estado se tornou pouco atrativo. "A minha mãe era professora de Português e eu notava que na geração dela quem decidia ir para o Estado fazia um contrato com o país. O país pedia: agora você deixa de pensar nos seus interesses privados e vai em espírito de missão, não há mais empresas, ambições pessoais, vai trabalhar para a comunidade. Em troca damos-lhe condições melhores do que no privado, para não pensar em mudar para ganhar mais, damos-lhe estabilidade, uma remuneração para viver com dignidade e ser respeitado na sua comunidade, saúde com a ADSE... Este contrato foi rasgado quando se começou a equiparar público e privado. Há vantagens nessa equiparação, mas também desvantagens, e a principal é que a qualidade baixa muito."

Isso acontece também com os políticos e governantes? Essa falta de condições que atraiam os melhores está a afastar aqueles que têm mais valor? Concorda. "E falo por experiência própria." É a minha deixa para lhe perguntar pela sua passagem pelo governo. Confessa que a entrada o entusiasmou. "Acho que ser governante é a função mais importante que se pode ter na vida, interferir nos destinos da comunidade, no futuro de várias gerações, ajudar a construir - ou a destruir, se se for mau. Por isso olhei para aquele cargo com enorme respeito, responsabilidade, honra e orgulho. Mas fui para fazer coisas - muitos vão só com vontade de serem ex-membros do governo para o resto da vida. Há muitos ministros que a única coisa que querem é ser ex-ministros." Elenca os programas que criou e em que participou - a Startup Portugal, a Indústria 4.0, o Capitalizar, a Web Summit. "Em dois anos, fiz muito - hoje, uma candidatura que entra no IAPMEI é analisada em 48 horas, quando cheguei eram seis meses. Estou muito satisfeito com o que consegui, mas aquilo não está preparado para quem quer fazer tanto."

Ainda assim, para a Administração Pública, que garante ter tido sempre do seu lado, só tem elogios. "Quando cheguei, enviei um e-mail aos funcionários de todos os organismos que tutelava a desejar boas festas e a agradecer o esforço naqueles anos de cortes, em que dizer que se era funcionário público era quase uma vergonha, e a falar da minha visão para os preparar para o ano seguinte. Disseram-me que nunca um governante o tinha feito antes. Eles gostam de liderança com um projeto. A Administração Pública está preparada para a mudança, essa foi uma das minhas grandes surpresas. Quando sentem que é algo que tem adesão à realidade, estão prontos a acompanhar. E quando saí tive mensagens muito simpáticas dos trabalhadores de organismos que tutelava."

Conforme os fresquíssimos croissants se vão fazendo pequenos, pergunto-lhe pela forma como saiu. Diz que mexeu "com muita coisa, interesses estabelecidos, e isso não é bem visto por muitos". Quem não faz nada não é notícia, não comete erros, não é chamado ao Parlamento. "Há quem consiga passar uma legislatura inteira invisível e fica na memória que deve ter sido bom porque não houve escândalos. Mas eu não fui com essa atitude: achei que era uma oportunidade incrível poder ser secretário de Estado aos 40 anos, numa pasta daquelas, num momento assim."

E quanto à demissão, por ter viajado para França a convite da Galp, para ver um jogo euro? "Não foi a saída que eu queria. E teve um impacto... nem é tanto político, porque ninguém liga nenhuma àquilo, os empresários conhecem-me e desvalorizam muito a questão. E não conheço ninguém que se deixasse influenciar por um bilhete de futebol e uma viagem. Mas hoje a minha vida está muito melhor." Não o desgosta ter saído assim? "Não vou opinar mais sobre isso. O caso está em julgamento, não posso. Mas agora, todos os dias vou levar a minha filha à escola, consigo estar com a família, jantar com amigos. A minha vida está muito melhor. Os empresários respeitam-me muito, montei o Conselho, um think tank com 42 proprietários da indústria que inclui os maiores e melhores industriais do país, estou na ClearWater que é uma empresa de fusões e aquisições na indústria e todos os dias compramos e vendemos fábricas, estou a fazer o que gosto."

O assunto está fechado e no prato só restam migalhas. Pedimos dois cafés para o prolongamento da conversa, que num salto vai da sua festa de anos à geringonça. Arranca pelos amigos que fez no governo, e que se estendem à oposição. "Faço anos em setembro e na minha festa tinha pessoas de quatro partidos do arco da governação, além de estrangeiros de startups, líderes da CIP e industriais tradicionais." É frequente dar jantares em casa assim diversificados. "Acho que só assim se constrói."

Tem sido essa veia de juntar interesses diversos o segredo da geringonça? "A solução provou-se mais eficaz do que se esperava. Eu próprio sou dos que votaram PS e fui convencido durante aquelas semanas de negociação da geringonça. E funciona, é uma demonstração de maturidade não dos três partidos mas da nossa democracia. Isto é frequente na Europa, mas só funciona em democracias maduras, com uma Constituição amadurecida e uma imprensa madura." Acredita que seria "difícil" fazê-lo sem António Costa, mas explica esta estreia de uma união à esquerda pela liderança e pelo momento. "Pela primeira vez a esquerda uniu-se por um desiderato nacional que nem nos tempos da construção da democracia se conseguiu. Foi muito sofrimento de muita gente. Mas deve-se à personalidade de Costa: homem inteligente, habituado e muito sensível. O PS nunca teve um líder que o pudesse fazer."

Quanto aos recentes arrufos, incluindo o salto atrás na taxa das renováveis, desvaloriza o pó que se levantou. "Anda a oposição mais interessada nas divergências do que a própria geringonça. A vida parlamentar é isso mesmo, isto são negociações duras, longas. O BE e PCP têm o seu eleitorado e querem mantê-lo, por isso precisam de marcar as suas fronteiras permanentemente. Não querem ser ameaçados por outros partidos, têm de garantir a sobrevivência. O PS também. A geringonça tem funcionado e continuará porque cada um é diferente do outro. E enquanto existir, vamos ver os três partidos a marcar fronteiras.

Quanto aos prazeres a que voltou quando saiu do governo, o hobby de restaurar carros antigos é a maior paixão - "arranjo-os, conduzo-os, participo em provas e passeios, passo os fins de semana na oficina, no estofador, no eletricista, e normalmente ando num Mercedes de 1972". É tradição de família e João só diz que já tem "vários" carros - quatro em Lisboa, outros em Leiria. E lá volta a dicotomia entre o velho e o novo: quando as baterias tiverem 400 km reais de autonomia, vai comprar um elétrico, sobretudo para as viagens Lisboa-Porto. "Mas quando se tem carros que não avariam, não desafiam, não transmitem sensações, o que se quer ao fim de semana é andar com um que tem furos e dá problemas e transmite sentimentos. E aqui há imensas oficinas e espaço para estacionar."

Nascido e criado em Leiria, segundo filho de uma professora do secundário e de um advogado, garante que mudar-se de Cascais, onde já vivia há uns anos, para Marvila foi "das melhores decisões" que tomou. "Todos os dias há espetáculos, concertos, eventos, e é um bairro genuíno." Vive ali com a mulher e filha, pequenina mas que já gosta de liderar. "Tenho de controlar isso, para ver se ela não vai para a política", ri-se. "A verdade é que teria muito orgulho nisso." Reconhece que na política, como na sociedade, há bons e maus, sérios e pouco sérios, mas não saiu descontente. "Longe disso. Conheci das pessoas mais inteligentes e cultas na política - incluindo António Costa, Sérgio Sousa Pinto, por quem tenho imensa consideração e que foi a razão de me ter ligado ao PS, Mário Soares, por quem tinha imensa admiração e de quem tenho muitas saudades, e Fernando Rocha Andrade, que saiu comigo, e é das pessoas mais inteligentes que conheço."

Já de pé, pergunto-lhe onde se vê no futuro. É um tema em que tem pensado. "Estou muito satisfeito com o que estou a fazer. Gosto de lidar com empresários, com a indústria, e estou a ser bem pago para isso - que também gosto. E gosto que não tenha nada que ver com o Estado e dinheiros públicos - fiz questão que não tivesse. Mas tenho 42 anos, ainda posso fazer o que quiser. Acho que vou fazer muitas coisas que nem sonho. E já decidi que estou sempre aberto à inovação. Já é qualquer coisa."

Quando chega a hora de pagar, vê-se que o galpgate fez mossa. Nem quer ouvir falar nas regras desta rubrica - o convidado escolhe o sítio, o DN paga a conta. O máximo que consigo, para facilitar os trocos à rapariga atrás do balcão, é contribuir com as moedas.

Café com Calma

1 café duplo

1 galão

2 cafés

2 croissants mistos

Total: 7,40 euros

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