Guterres à espera da quinta vitória no Conselho de Segurança

O eslovaco Miroslav Lajcak e o sérvio Vuk Jeremic surgem como os principais rivais na eleição para secretário-geral da ONU.

Os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU manifestam-se hoje, pela quinta e última vez de forma informal, sobre os nove candidatos ao cargo de secretário-geral da organização.

As vitórias de António Guterres nas quatro votações anteriores (ver quadro) tornam expectável que volte a ganhar hoje, numa corrida onde há pelo menos duas grandes incógnitas: o futuro da búlgara Irina Bukova, de quem se diz ter o apoio da Rússia e cujo governo admitiu substituí-la - pela também búlgara Kristalina Giorgieva, a preferida da Alemanha - caso não fique num dos dois primeiros lugares; quem surge como principal adversário do Leste europeu à candidatura portuguesa: Miroslav Lajcak (Eslováquia) ou Vuk Jeremic (Sérvia)?

Lajcak - cujo país exerce a presidência rotativa da UE e já defendeu o aliviar das sanções europeias contra a Rússia - ficou em segundo nas duas últimas votações. Jeremic, que se apresenta como um reformador da ONU e recebeu o apoio do Wall Street Journal, é visto como um nacionalista sérvio que no passado assumiu posições anti-NATO e contra a independência do Kosovo (apoiada política e militarmente pelos EUA e pela Aliança Atlântica).

Marcada para 4 de outubro está já a primeira votação em que os membros permanentes do Conselho de Segurança votam com cartões coloridos, permitindo assim saber-se se algum dos candidatos é alvo de veto. No caso de António Guterres, que na primeira das votações não recebeu qualquer voto negativo, passou a admitir-se na imprensa internacional que um dos poucos votos negativos que obteve nas seguintes tinha origem na Rússia.

Certo é que Guterres, presente na reunião de quinta-feira entre os chefes das diplomacias portuguesa e russa na ONU, declarou que "não há nenhum obstáculo" de Moscovo ao seu nome.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, também frisou esse ponto ao dizer ao DN que "os méritos de António Guterres são generalizadamente reconhecidos pelas votações realizadas". Mais, a presença nesta semana de tantos líderes mundiais em Nova Iorque "mostrou haver [em relação a Guterres] simpatia de todos os continentes e quadrantes políticos, de todos níveis de decisão, nas reuniões" em que participaram.

Estas negociações de bastidores foram mesmo uma imagem de marca da semana em que os chefes de Estado e de governo e os chefes da diplomacia dos 193 membros da ONU inauguraram a 71ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, este ano subordinada ao tema "Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: um impulso universal para transformar o nosso mundo."

As receções oficiais dadas por diferentes países serviram também de palco negocial ou como inspiração para as muitas especulações sobre uma nomeação marcada nesta fase final pelo secretismo dos bastidores, apesar da transparência dos primeiros meses.

No caso da receção dada quinta--feira pela representação sérvia, o próprio Vuk Jeremic publicou nas redes sociais uma foto sua com o candidato português e a seguinte legenda: "Grato ao candidato a próximo secretário-geral da ONU António Guterres por estar presente na receção da Sérvia em Nova Iorque. Um verdadeiro senhor."

Pouco depois e na mesma rede social, o jornalista Matthew Russell Lee (acreditado junto da ONU) escreveu - e publicou mesmo um vídeo breve em que Guterres e Jeremic trocam algumas palavras - sobre os rumores que disse terem começado a circular sobre a possibilidade de a Rússia apoiar o português caso nomeie o candidato sérvio ou a búlgara Irina Bukova para o cargo de secretário-geral adjunto.

Um diplomata português ouvido pelo DN, sob anonimato por não estar autorizado a falar, relativizou esses comentários ao lembrar que nas eleições norte-americanas (em que o candidato a presidente dos EUA anuncia previamente quem será o seu vice.

Relatório final

A Comissão Independente sobre Multilateralismo - criada pelo Instituto Internacional da Paz e copresidida por Ramos-Horta - divulgou há dias um relatório, iniciado em 2014, com 10 "prioridades para o novo secretário-geral" e 15 "recomendações em áreas específicas".

Este relatório final - ouvidos 342 diplomatas, académicos, quadros da ONU e da sociedade civil - identificou as seguintes prioridades: nova "Agenda para a Paz", mais financiamento para a prevenção, prosseguir reforma das operações de paz, centralizar liderança na luta antiterrorista e prevenção do extremismo violento, prioridade na defesa dos Direitos Humanos, maior igualdade entre homens e mulheres, implementar os objetivos de desenvolvimento sustentável, foco na relação entre conflitos e doenças, apoiar cooperação sobre as migrações, reforçar os mecanismos de responsabilização.

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