Governo admite baixar horas de formação dos taxistas

Já houve 43 motoristas da Uber agredidos e ameaçados por taxistas em Lisboa e no Porto desde 2015. O ministro do Ambiente admite reduzir as 125 horas de formação dos taxistas se isso contribuir para reduzir conflito social

O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, admitiu a possibilidade de reduzir o tempo de formação que os taxistas são obrigados a ter, uma vez que esse tem sido um dos argumentos usados pelas associações contra as plataformas Uber ou Cabify - as quais, até ao novo diploma que as legaliza, não tinham esse requisito. "Os senhores taxistas têm um mínimo obrigatório de 125 horas de formação e dizem-me que a prática é até ter 150 horas. E nós estamos a exigir 30 horas para os motoristas da Uber . Acho que é evidente que não são estas 125 ou 150 horas de formação que têm os senhores taxistas que têm conduzido a uma melhoria da qualidade de serviço", afirmou o ministro, na entrevista que concedeu ao DN, cuja primeira parte foi publicada a 29 de setembro. O diploma, que está em fase d e consulta aos parceiros, exige também um título de condução específico aos motoristas da Uber, que até agora precisavam apenas de ter carta há três anos.

"Não está no nosso horizonte imediato, mas se houver interesse em rever a regulamentação do setor do táxi para, em questões como esta, simplificar e reduzir o número de horas de formação, estou completamente disponível", garantiu o ministro. No dia 10 de outubro realiza-se a manifestação nacional dos taxistas contra a legalização das plataformas Uber e Cabify. O presidente da Antral, Florêncio Almeida, já avisou, em declarações ao DN, que "porrada não vai faltar!".

O conflito taxistas/Uber tem subido de tom. Desde 2015 até à presente data, a PSP registou 43 agressões e ameaças a motoristas da Uber, segundo dados da polícia avançados ao DN. Mas a Uber não tem parado de crescer em Portugal: de fevereiro até agora passou a ter 2500 condutores ativos, quando eram apenas mil. Foi um crescimento de 150%, segundo dados da empresa. A Uber exige boa imagem e notas acima de 4 (na escala e 0 a 5) aos seus motoristas. E faz um relatório semanal de travagens bruscas e aceleradelas que os condutores dão por viagem, contaram motoristas da plataforma ao DN.

O ministro do Ambiente sublinhou que "não faz sentido que as exigências sejam iguais" nos dois setores. "Ninguém fala disto: só os senhores dos táxis têm benefícios fiscais. Quando compram o veículo, na dedução do Iva quando fazem as suas reparações, no imposto de circulação. Só os taxistas podem andar nas faixas de Bus. Só os taxistas podem ocupar espaço público, que é de todos nós, com as praças de táxi. Só os taxistas podem ser chamados na rua. É justo porque fazem serviço público. Qual é aqui a questão a que se agarram no sentido inverso? É às horas de formação", concluiu.

Eugénio neves

› Idade 29 anos

› Ex-futebolista. Classificação Uber: 4.88

"Se o cliente quer ouvir kizomba é o que ponho a tocar"

ugénio Neves, 29 anos, angolano, ex-futebolista, está ao serviço da plataforma desde abril e é um dos motoristas mais "clean" ou a vestir melhor, segundo a gestora de frota da empresa parceiro da Uber para a qual trabalha. Adora kizomba, estilo musical de Angola, mas só põe a passar no carro quando os clientes são angolanos e lhe pedem para ouvir. "Já fiz Lisboa-cascais a ouvir kizomba a altos berros". Fora esses pedidos especiais, a música que coloca no Skoda Otavia cinzento é suave, na rádio Smooth FM ou CD"s de jazz. "O cliente é que manda, se for jovem ponho outro estilo".

Eugénio, que é um dos motoristas com classificação acima da média dada pelos clientes (sendo esta 4.83, ele tem 4.88) já teve chatices com taxistas. "Tive uma experiência dessas. Andei a conduzir um casal angolano uma hora, de hotel em hotel. E no Sana, na avenida Fontes Pereira de Melo, parei em frente ao hotel. A cliente mandou aguardar. Apareceram dois taxistas que diziam querer descarregar e não ter espaço. Tinham espaço mas pronto. Um deles bateu-me no vidro três vezes. Não respondi e fiquei ali. Depois de dizerem umas coisas, foram-se embora". Conta Eugénio que "agora o que tem acontecido, mais na zona do aeroporto de Lisboa, é os taxistas lançarem ovos aos motoristas da Uber. Já assisti a isso duas vezes". Há colegas que não arriscam enfrentar esse perigo, conta. A empresa não os censura.

Vem-lhe do desporto a disciplina interior. "Fiz a academia no Sporting sete anos, depois estive em Aveiro, voltei a Lisboa e mais tarde houve uma proposta do Chipre. Estive lá cinco épocas com o clube cipriota Akritas Chlorakas. E depois ainda estive no Iraque, no Summel Sport. Quando vim para Portugal para a nova época lesionei-me no joelho, fui operado, no total já fiz quatro operações". Foi então, quando o sonho do desporto de alta competição morreu, que Eugénio se virou para a Uber. "Adoro carros". E também tem muito cuidado eles. "Aspiro o Skoda Otavia todos os dias e lavo de dois em dois dias".

Eugénio não acha muito bem que ainda existam motoristas ao serviço da Uber que não saibam falar inglês. "Numa cidade turística como Lisboa é fundamental dominar o inglês. Na nossa empresa todos falam".

Como o cliente manda, na Uber, Eugénio tem por princípio não meter conversa a não ser que a pessoa queira. "Há o princípio básico do bom dia e para onde vai. Se o cliente não falar comigo eu não falo. Se conversar falo. Há clientes que querem saber coisas sobre a cidade e eu informo".

Rita Gonçalves

› Idade 24 anos

› "Operations manager". Nota Uber: 4.92

"Quando os taxistas fazem greve é bom para nós"

Rita Gonçalves, 24 anos, tem uma imagem de catálogo, à medida da boa aparência que a Uber exige dos seus motoristas. A sua classificação de 4.92 (na escala de 0 a 5) dada pelos clientes é das melhores na Uber. É a menina "do carro cor de laranja da Uber", um Honda Insight que dá nas vistas pela cor. Rita já esteve ao pé de taxistas quando fizeram greve. "Foi o meu melhor dia", conta, a rir. "Estive parada ao pé deles e meti conversa para saber o porquê da luta. E diziam-me : "Ó menina a Uber tem de acabar!". Eu brinquei com eles e perguntei: "sabem como acabavam com a Uber? Era uma greve destas todos os dias. E eles acharam boa ideia", conta, soltando uma gargalhada. Nunca perceberem que a "miúda" era o "inimigo". A manifestação nacional de taxistas da próxima segunda-feira, em Lisboa,não a assusta de todo. "Quando os taxistas fazem greve ou manifestações é bom para nós, temos mais trabalho".

Rita - estudante de Gestão Hoteleira que entrou ao serviço de uma empresa parceiro da Uber há um ano e meio - é operations manager ou gestora de frota mas ainda é motorista. Como explica, "a empresa partner é obrigada a ter licença de rent a car ou de animação turística. Depois é essa empresa que contrata os motoritas para trabalharempara a Uber".

A jovem entrou para este ramo por causa das suas funções como gestora de arrendamento turístico . "Trabalho com um investidor que adquiriu um prédio em Lisboa do qual faço a gestão. E ele andava à procura de novos investimentos. Ouvimos o burburinho Uber e taxistas e ficámos curiosos. O investidor pediu para eu pesquisar para entrarmos na área. Concluimos que era muito rentável. Tratei de seguros e de toda a burocracia. Não é fácil um parceiro entrar para a Uber", afirma. Em contrapartida, entrar como motorista é fácil, garante. "Os condutores Uber têm de ter cadastro limpo, mais de três anos de carta de condução e 21 anos de idade. E é tudo. O diploma do Governo que foi agora apresentado passa a incluir obrigação de ter 30 horas de formação, o que acho bem. Na nossa empresa já estou a preparar toda a informação e documentação para quando os nossos motoristas precisarem de ter formação".

Rita Gonçalves diz qu os taxistas que passaram para a Uber "não percebem que a plataforma tem certos padrões de atendimento de um serviço mais personalizado: o aspecto do carro, o aspecto da pessoa. Como é óbvio, no verão, é inconcebível para mim que um motorista nosso esteja de calções e t-shirt".

Rui Barata

› Idade 53 anos

› Motorista que tem empresa parceira. Nota Uber: 4.84

"Clientes podem comentar o que acharam"

Rui Barata, 53 anos, licenciado em Antropologia Social, foi parar ao serviço da Uber porque andava a passear turistas...a pé. Ele explica melhor: "Tudo começou há dois anos quando eu fazia circuitos pedestres pela cidade, por Alfama, Bica e Belém. Fundei a empresa Lx Trip. Depois arranjei uma carrinha de sete lugares para levar os turistas a cidades como Évora ou Coimbra, etc. Fui então contactado pela Uber para me tornar parceiro através da minha empresa de animação turística".

Rui meteu mãos ao volante e mudou o "chip" para outro tipo de clientes que iria conduzir, contando com a ajuda de um colaborador da sua empresa com quem se revesa nos turnos. "Um dos aspectos positivos da plataforma é que os clientes nos classificam, se quiserem, e também podem comentar o serviço na aplicação. Isso não existe nos táxis normais". Rui Barata já tem 1858 viagens classificadas, sempre na categoria de "cinco estrelas". A sua classificação vai em 4.84, um ponto acima da média. "Tem corrido muito bem. Tenho conhecido pessoas com conversas espectaculares. Há dias um jovem de 23 anos contava-me que se tinha despedido nesse mesmo dia de comercial na área alimentar para ir fazer o curso de Hotelaria e dedicar-se à gastronomia que era a sua paixão". Como o próprio Rui Barata já mudou de áreas profissionais, compreendeu de imediato e deu os parabéns ao cliente.

Para este homem curioso, apaixonado pela evolução dos hábitos na sociedade, a maior gratificação não é o salário. "Temos de fazer 10 horas por dia para tirar cerca de 800 euros mensais, ao qual ainda descontamos IRS ou Iva, porque estamos a recibos verdes. Mas o mais aliciante é proporcionar um bom serviço às pessoas. Para mim, dá-me um enorme prazer ver o ar de satisfação de turistas que já conduzi quando chegam a Sintra, por exemplo. Até pedem para conduzir mais devagar para apreciarem as ruelas". Com uma empresa partner da Uber, Rui Barata acaba agora por dedicar mais tempo à plataforma. "Os passeios a turistas pela Lx Trip já são mais raros, não tenho tempo".

Na véspera do feriado do 5 de outubro, Rui Barata teve clientes que chamaram um carro Uber pela primeira vez. Já sabe distinguir os que estão habituados à aplicação dos que não estão. "Uma vez uma senhora estava à minha espera e não reparou na aplicação que lhe tinham enviado o modelo do carro e a matrícula. Então foi abrir a porta de um outro carro parado à frente. Queria entrar. Só depois percebeu".

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