"Gostava de tourear ao lado dos meus três filhos no Campo Pequeno"

Almoço com João Moura, cavaleiro tauromáquico

Com a temporada do Campo Pequeno a arrancar na quinta-feira e João Moura em destaque no cartel inaugural - que conta ainda com Juan José Padilla (o homem da pala) e Roca Rey -, as hipóteses de conseguir um encontro com o maestro são no mínimo magras. Mas a sorte ajuda, com uma mãozinha de Rui Bento Vasques, diretor de tauromaquia do Campo Pequeno: o cavaleiro, que sempre que não há corridas está recolhido entre cavalos, galgos e toiros na sua herdade de Monforte, virá logo no dia seguinte, quarta-feira, a Lisboa para receber o prémio de triunfador do Campo Pequeno em 2016. E ainda que não haja tempo para almoçarmos juntos, não há impedimento a que tomemos um par de cañas. E não há restaurante que melhor se adapte à cena do que o Rubro, ali mesmo na praça, que neste ano comemora 125 anos de espetáculos.

Aos 57 anos, João Moura está a cumprir meio século de profissão - "40 anos...", emenda-me, enquanto confessa alguma expectativa na corrida da próxima quinta-feira: "O Padilla é terrível (quer dizer grande) e o Roca é uma figura nova mas também tem muita qualidade, vai ser uma corrida boa, com interesse para o público", vaticina.

A verdade é que João tinha 7 anos quando se estreou em público na praça de touros de Portalegre e apenas três anos mais tarde debutava no Campo Pequeno. "Vim aqui na última corrida que houve antes do 25 de Abril", recorda. "Foi sempre o que sonhei fazer, desde que comecei, em miúdo, a vir a Lisboa, aos toiros, com o meu pai", conta. O pai, João Augusto de Moura, não era toureiro "mas gostava dos cavalos e ele é que me incutiu a afición. E agora já tenho três filhos nisto." Di-lo com orgulho e sem ponta de aflição perante a ideia de João Moura Jr. (27 anos), Miguel (21) e até mesmo o pequeno João Tomás (8) fazerem vida de enfrentar toiros na arena. "Dá-me imenso gozo ensiná-los, vibro com eles... e também vejo que têm um certo jeito, por isso gosto de os ajudar. Os outros já estão lançados, mas o pequenino parece que tem um jeito muito especial, tenho esperança nisso... vamos ver."

Tenho um certo orgulho em ver o (Diego) Ventura e o Pablo (Hermoso de Mendoza) a seguir um pouco o que eu faço

Falar nos filhos, da forma como escolheram seguir as pegadas do pai, traz-lhe uma vibração especial à voz. As corridas estão-lhe no sangue - já o pai, equitador de competição e cavaleiro amador, gostava dos cavalos, o tio era ganadeiro e João cedo foi contagiado pela afición. A impossibilidade de se profissionalizar em Portugal antes da maioridade levou-o para Espanha e foi sobretudo aí que aprendeu e que a vida começou a correr-lhe de feição.

"Tinha 16 anos quando comecei a triunfar em Madrid e com 17 já tinha saído três vezes pela porta grande de Madrid. Então, quando cheguei cá e tirei a alternativa já era assim meio figureca, já tinha um certo peso."

Enquanto fala desses tempos, o sorriso abre-se-lhe mais - deixa de ter aquele olhar de miúdo chamado ao quadro pela professora, a cruzar e a descruzar os dedos, e passa a gesticular livremente. "Até aconteceu uma coisa engraçada, porque eu era um miúdo quando triunfei pela primeira vez em Madrid, mas na primeira corrida de Santo Isidro não cortei nada e fiquei desiludido. Até pensei: lá vou eu ter de ir para Veterinária - que era o meu plano B, a ideia que tinha se não fosse toureiro. Mas no dia a seguir cortei duas orelhas e depois mais duas e pronto. Já não parei."

Então volta a lembrar-se de que está a falar com quem não conhece, a timidez regressa. O copo de cerveja passa a ter a utilidade de lhe ocupar as mãos quando lhe pergunto sobre as críticas feitas à tourada e a oposição das associações de defesa dos animais, a incapacidade de quem está de fora entender que um toureiro de facto gosta e respeita os toiros, os cavalos, os cães. "Quem gosta sabe que é assim, que há uma grande ligação do toureio aos animais e que os tratamos bem. No campo, que é o sítio onde pertencem." E garante que nunca teve problemas com os manifestantes que normalmente se reúnem à porta do Campo Pequeno em dias de corrida. "Passo à roda e não ligo. Acho aquilo uma estupidez, mas cada um tem o direito de pensar o que quer."

Reconhecido internacionalmente como uma das maiores figuras da tauromaquia, e tendo até trazido às regras clássicas do toureio a cavalo uma brega própria [não podendo reproduzir aqui as imagens, que revelam um verdadeiro bailado, valha-nos a descrição da Wikipédia: "uma brega que oferece ao toiro a garupa ou a espádua do cavalo, ladeia e galopa sem nunca lhe perder a cara, templa ao máximo as investidas até ganhar terreno para inverter a marcha, depois carrega a sorte e reúne em terrenos menos convencionais"], diz-se feliz por ter hoje "o (Diego) Ventura e o Pablo (Hermoso de Mendoza) a seguir um pouco" o seu toureio. "São grandes figuras e tenho orgulho em que tentem fazer o que eu faço." Numa carreira que diz estar quase no fim, apesar de falar do futuro como quem tem 20 anos, orgulha-se de "ir a qualquer lado e ver que as pessoas têm uma certa admiração e respeito" pelo seu percurso e pelas conquistas. "Acho que importante é tentar-se ser alguém respeitado."

Quando temos uma atuação má, temos de ter consciência e usar os erros para melhorar

É essa uma das muitas lições que não duvida que há para aprender com as corridas de toiros. Como a necessidade mais do que de rezas e superstições para aplacar "uma certa pressão que sempre se sente antes de entrar na arena", de treinar muito, de preparar homem e cavalo para todos darem o máximo quando chega a competição. "Aprende-se com os triunfos, mas também já tive atuações más e nessa altura temos de ter consciência disso e saber usar os erros para melhorar."

Pergunto-lhe sobre o acidente grave que sofreu em 2014, o mesmo ano em que o filho do meio tomou a alternativa. Se chegou a pensar que era o fim da sua carreira. O "não" é imediato. "Já tive muitas quedas - isto é o que eu gosto de fazer", repete uma vez mais, como vincará ao longo de toda a conversa. "Olhe, ainda ontem caí e pensei: queres ver que não consigo estar ao lado do Padilla..." Ri-se. Depois encolhe os ombros. "Nessa altura só pensamos: a ver se nos escapamos desta... e assim que escapamos já estamos outra vez prontos para andar. Nisto é preciso é estar-se preparado para tudo e, se me levanto bem, tudo passa. Também há aqui uma lição de vida de superação e de vontade."

O maestro desvaloriza hoje a gravidade da queda do cavalo, que lhe causou um traumatismo cranioencefálico, tal como o fez logo na altura - dois meses depois estava de volta e só não foi mais cedo porque lhe era mesmo fisicamente impossível.

Com a hora da entrega do prémio pelos seus feitos da última temporada a aproximar-se - "no ano passado a coisa correu bem e assim mantenho a minha bitola aqui e no mundo inteiro do toureio", diz-me, de sorriso rasgado -, Rui Bento vem cumprimentar-nos à mesa do Rubro. "Está aqui muito bem acompanhada com o maestro João Moura", reforça, declinando o convite para se sentar. Chega-se antes ao bar do restaurante, onde há de assumir o pagamento das nossas cañas e onde já esperam outros amigos que vieram para assistir a mais uma homenagem ao homem que há 20 anos o então Presidente da República Mário Soares fez comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial e a quem Juan Carlos de Espanha atribuiu o prémio da Real Federación Taurina de España para Mejor Rejoneador.

Nas quedas, só pensamos: a ver se nos escapamos desta... e assim que escapamos já estamos outra vez prontos para andar

Distinguido com os mais importantes prémios em Portugal e Espanha e sendo o único português a ter aberto por nove vezes a Porta Grande da Monumental de Las Ventas, João Moura já toureou também em França, no México, na Colômbia e para dia 23 de abril tem estreia marcada no Equador, na feira de Riobamba, onde irá conceder a alternativa a Diego Mejia. Mas por mais corridas que conheça, é da tradição portuguesa que mais gosta, "com os forcados e as nossas lides; está mais de acordo com a minha maneira de ser", confessa, a acusar ainda mais o sotaque alentejano. "Toureei e vivi muito em Espanha, fiz a minha carreira e tentei sempre fazer o melhor e levar o toureio a cavalo ao mais alto nível, mas gosto mais do nosso Portugal." E se não dá grande importância aos fatos que usa - "são umas casacas de um estilista... sou pouco vaidoso com a roupa" -, não hesita em eleger Las Ventas, mas sobretudo o Campo Pequeno como as praças que mais o tocam. "Madrid porque foi onde comecei a triunfar, e Lisboa porque aqui tive grandes atuações e é esta a catedral do toureio para mim."

É a reverência à arena onde teve, ao lado do pai, as primeiras impressões do que viria a abraçar como vocação que justifica parte do orgulho que sente no prémio de triunfador, que receberá logo que acabarmos as nossas cañas. Mas há mais motivos para Moura se sentir emocionado. "Para mim, isto tem um grande mérito, porque achei que já não conseguiria chegar lá", confessa. "Há outros cavaleiros mais novos, outras figuras, e é cada vez mais difícil competir com todos eles. Por isso ter conseguido triunfar na última temporada dá-me uma certa satisfação."

Há cavaleiros mais novos, outras figuras, e é cada vez mais difícil competir com todos eles. Por isso ter conseguido triunfar na última temporada dá-me uma certa satisfação

Era o prémio que lhe faltava? "Era o prémio de Lisboa, a temporada importante está aqui, porque o toureio a cavalo é aqui no Campo Pequeno que mais conta e dá-me um certo orgulho tê-lo ganho." Nada que faça João Moura arrumar os estribos, antes pelo contrário, deixa-o com ainda mais vontade de competir.

"Neste ano vou tentar ganhar outra vez! Mesmo que não consiga, vou tentar, porque a ilusão não se perde. Isso é o mais importante de qualquer carreira, que não se perca o sonho, a ilusão. Eu tenho mantido, em todo o meu longo percurso, um entusiasmo igual ao do primeiro dia. E tenho transmitido sempre essa mensagem aos meus filhos."

Pai de cinco - João Moura Jr., Rita ("que tem 24 anos e já é dentista") e Miguel, do primeiro casamento, João Tomás e Madalena, de 8 e 5, da atual mulher, a fisioterapeuta Filipa Telles de Carvalho -, o maestro é claramente um homem de família e a primeira conversa é suficiente para entender que sente a passagem do conhecimento às gerações seguintes como uma missão de vida. Mas se cuidar da família é a sua primeira preocupação, a arte para a qual treina todos os dias não lhe fica muito atrás. Em Monforte, que deu o nome do cavaleiro à praça de toiros da vila, levanta-se cedo e reparte o dia entre os cuidados necessários aos animais e o treino de toiros e cavalos que vão à arena pela sua mão. Alguns dos que treina desde potros serão para vender a outros cavaleiros, aqui e em Espanha. Também já comercializou toiros até para Madrid, para Sevilha, mas diz que esse negócio não está muito famoso. "É um mundo complicado, os animais não são bem pagos e cheguei à conclusão de que não vale a pena."

E o que faz quando não está entre cavalos e toiros? "Sou caçador - de galgo, com os cães a correr atrás das lebres, não é cá a atirar aos bichos -, a minha vida é isto."

Com a cerveja acabada e o olhar de João Moura já a fugir para os amigos que entretanto se juntaram ao balcão do Rubro, é chegada a hora de o libertar para a homenagem. Mas antes quero saber o que o maestro ainda gostava de fazer aqui. Não hesita um segundo. "Tourear com os meus filhos no Campo Pequeno. Com os três. Já toureei com dois e com o meu sobrinho, agora gostava de o fazer com os três - mas tem de ser com uma certa rapidez...", diz-me, antes de nos despedirmos com o convite para assistir à corrida de quinta-feira.

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.