Geração "nem-nem" é a mais afetada entre os 812 mil no desemprego

Últimos dados do Eurostat revelam que taxa de desemprego em fevereiro de 2014 se manteve nos 15,3%, o que significa uma descida de 2,6% em relação ao período homólogo do ano anterior (17,9%). Em sentido inverso, o desemprego jovem voltou a subir, pelo segundo mês consecutivo, para os 35%

Já foram "mileuristas", "geração à rasca" e agora são "nem-nem": nem estudam nem trabalham. E se as designações são subjetivas, os números são claros e mostram que a pesar de o desemprego ter abrandado em relação ao período homólogo do ano anterior (em fevereiro estava nos 15,3%, enquanto em 2013 era de 17,9%), aumentou pelo segundo mês consecutivo entre os mais jovens, atingindo 35% da população ativa com menos de 25 anos.

O sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Elísio Estanque considera que "o desemprego é hoje o problema fulcral da sociedade portuguesa", pois além de significar "desespero, endividamento e pobreza" também "questiona o futuro das gerações mais jovens".

Quanto à descida do desemprego (mantém-se nos 15,3% há três meses consecutivos, mas caiu face a 2013), Elísio Estanque considera que são números "ínfimos" e que desta quebra não devem ser dissociados fatores como "a emigração e todas as pessoas que não estão inscritas em centros de emprego".

O sociólogo lembra que "os números do desemprego real são sempre muito superiores às estatísticas oficiais". Dados divulgados pelo Eurostat no início deste mês (referentes a fevereiro) apontam que existem em Portugal 812 mil desempregados (menos 116 mil do que em fevereiro de 2013). Apesar da descida, os efeitos positivos dos números são lentos a chegar às pessoas. "A recuperação demora tempo, as crises são mais fáceis de chegar do que de partir", explica Elísio Estanque.

No que diz respeito ao desemprego jovem - que volta a subir para os 35% -, o sociólogo considera que estes valores são uma afronta à "coesão social", lamentando a tendência de aumentarem os "jovens que não trabalham nem estudam".

Além disso, o desemprego é um problema mais individual do que outros dramas que as gerações jovens enfrentaram no passado. "Por exemplo, os jovens lutaram pela vida juntos para não irem combater na guerra. Hoje vivem este drama sozinhos, sem capacidade de intervenção cívica nem de agir de uma forma mais radical", comenta o sociólogo.

Quanto às consequências do desemprego, Elísio Estanque lembra "os relatórios de instituições como a Cáritas que mostram que a pobreza aumenta cada vez mais entre os portugueses".

Ao DN, o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, explica que os documentos da instituição apontam que "a grande causa de pobreza hoje em Portugal é o desemprego".

Eugénio Fonseca olha com desconfiança para os números que mostram uma descida da taxa de desemprego: "Apesar de estarmos a assistir a uma redução do desemprego, também temos de saber bem o porquê. Não sei se esta baixa tem que ver com a criação de emprego, a emigração ou a redução da população ativa." Ou seja: "Há que analisar bem os dados, pois o que nós sabemos é que continuam a aparecer na Cáritas muitas pessoas em situação de carência."

Gastos aumentam mil milhões

De acordo com dados oficiais do Ministério da Segurança Social, os gastos do Estado com prestações de desemprego aumentaram mil milhões de euros desde o início da crise. Em 2008, os vários subsídios de desemprego custavam pouco mais de 1,36 mil milhões de euros, quando em 2013 já ultrapassavam os 2,32 mil milhões de euros (o que significa um aumento de 71%).

O valor gasto em prestações de desemprego em 2013 corresponde a dois mil milhões de euros de subsídio de desemprego, 99,3 milhões de subsídio social de desemprego inicial, 208,7 milhões de subsídio social de desemprego subsequente e 156 mil euros relativo ao prolongamento do subsídio social de desemprego. São assim gastos mais de 300 milhões em subsídios que já comportam um desemprego de média/longa duração. Pior ainda estarão os que perderam esse direito.

Os dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional continuam a contabilizar menos 111 mil pessoas do que o Eurostat. Estão inscritos apenas 700 854 desempregados nos centros de emprego, contra os 812 mil contabilizados pela entidade comunitária. Muitos terão um desemprego de longa duração (mais de 12 meses) que atingia - no final 2013 - mais de 525 mil portugueses.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG