Fundação Mário Soares duplicou prejuízos em 2015

Resultados negativos da instituição criada pelo ex-presidente subiram de 103 mil para 210 mil euros no ano passado. Só no mecenato, a fundação recebeu menos 134 mil euros

Os prejuízos da Fundação Mário Soares (FMS) mais do que duplicaram de 2014 para 2015 - passaram de 103 mil euros para 210 mil euros -, o que leva os seus dirigentes a dizer que a instituição precisa de uma "urgente redefinição da sua estratégia", algo que passará, por exemplo, por "uma estrutura orgânica mais leve". Estas são considerações que constam no relatório e contas da FMS relativo a 2015, documento datado de 21 de abril passado.

O documento diz que "as dificuldades que o país conheceu nos últimos anos - sobretudo de ordem social mas de natureza financeira e económica na raiz - se vêm fazendo sentir na fundação". Ora isto teve "repercussões negativas várias", como por exemplo a "progressiva diminuição das receitas provenientes de contribuições regulares ou ocasionais e de apoios mecenáticos".

Ora, um dos mecenas que a FMS perdeu de 2014 para 2015 - e que nunca antes tinha apoiado a fundação - foi o gestor Joaquim Lalanda e Castro, que o país ficou a conhecer no início de 2013 como o empregador de José Sócrates como consultor na multinacional farmacêutica suíça que representava em Portugal, a Octapharma.

Em 2014, Lalanda de Castro doou pessoalmente cinco mil euros à FMS. Verbas a que se juntaram doações da própria Octapharma (dois mil euros), da Dynamicspharma (três mil) e ainda de uma terceira empresa daquele gestor, a Intelligent Life Solutions (cinco mil euros). Carlos Barroso, secretário-geral da fundação, disse ao DN que o apoio de Lalanda e de empresas às quais estava associado visou apenas "uma atividade" (que não especificou qual) naquele ano, 2014.

Ao todo, foram 15,1 mil euros doados à FMS em 2014 - e que não se repetiram em 2015. No final de 2014, José Sócrates foi preso e semanas depois a Octapharma cessava o contrato que com ele tinha. O ex-primeiro-ministro recebia mensalmente 12,5 mil euros da Octapharma e outros 12,5 mil da Dynamicspharma - duas empresas envolvidas na Operação Marquês. Lalanda é, como Sócrates, arguido na Operação Marquês. E também no processo dos vistos gold - onde o principal arguido é o ex-ministro Miguel Macedo -, com a suspeita de ter recebido, de forma ilegal, o reembolso de IVA de um milhão de euros, com a vinda de doentes da Líbia.

No total, a FMS perdeu no mecenato cerca de 134 mil euros, de 2014 para 2015. Quem também deixou de apoiar a fundação do ex--presidente da República e fundador do PS foi a Fundação Ilídio Pinho (25 mil euros). Ou o Instituto Camões (75 mil euros). Além do mais, os subsídios diretos de três ministérios (Planeamento, Educação e Cultura) também diminuíram substancialmente. No final de 2014 somavam 685,8 mil euros; no final do ano seguinte já só eram 548,6 mil euros. Uma diferença portanto de 137,1 mil euros. O relatório contém ainda uma queixa relativamente à Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT): "Por razões alheias ao Arquivo & Biblioteca, não foram concretizados ao longo de 2015 pela FCT os apoios sucessivamente anunciados no âmbito do Roteiro Nacional de Infraestruturas de Investigação, em que a Fundação Mário Soares foi selecionada enquanto parceira do projeto Rossio. Apesar de inúmeras tentativas de esclarecimento da situação de incumprimento pela FCT, nunca foi possível obter resposta cabal mas apenas adiamentos."

Já o que se manteve invariável de um ano para o outro foram os financiamentos de privados como o BPI ou o Novo Banco (cem mil euros cada), da Fundação EDP (75 mil euros), da Câmara Municipal de Lisboa (40 mil euros), da Câmara Municipal de Leiria (19,8 mil euros) ou da Fundação Ramón Areces (uma fundação ligada à cadeia de lojas espanhola El Corte Inglés). O apoio da Câmara de Leiria justifica-se pelo facto de a FMS ter naquele concelho uma espécie de extensão, a Casa Museu - Centro Cultural João Soares.

Para o agravamento dos resultados económicos negativos contribuiu também, segundo o relatório e contas de 2015, "uma estrutura a que não são alheios a manutenção e funcionamento dos três edifícios por que se distribuem os seus serviços e recursos humanos". Isso "traduziu-se num resultado negativo do exercício findo em 31 de dezembro de 2015, acentuando a tendência que já se verificara no ano anterior". Ou seja: "Não se revelaram suficientes num contexto económico e financeiro de crise persistente" os "efeitos de um primeiro conjunto de medidas de contenção tomadas nos anos 2011-2012."

As contas foram validadas pelo conselho fiscal da fundação, órgão em que têm assento o ex-banqueiro fundador do BCP, Jardim Gonçalves, e o economista João Ferreira do Amaral (uma das mais vigorosas vozes na esquerda a defender a saída de Portugal do euro).

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