Falta de 98 médicos leva a demissão de diretores de serviço

Bastonário alerta que corte de 35% nas prestações de serviços vai deixar vários hospitais no limite

A direção clínica e os diretores de serviço do Hospital Amadora-Sintra demitiram-se em protesto contra as dificuldades de contratação. A decisão deve ser comunicada oficialmente amanhã à administração. O bastonário dos Médicos, Miguel Guimarães, adianta que faltam cerca de 100 médicos de várias especialidades naquele hospital e que não é possível cumprir o número de elementos das equipas nas várias urgências externas e internas. O corte de 35% na aquisição de serviços médicos, alerta, "será brutal para o SNS". E diz não ter dúvidas que a situação do Amadora-Sintra irá repetir-se noutros hospitais.

Fontes do hospital Amadora-Sintra adiantam à Lusa que existe um desconforto crescente em torno das dificuldades para contratação de pessoal, que pode ser agravado com a imposição - publicada em Diário da República - de reduzir pelo menos 35% os gastos com médicos tarefeiros. A decisão da demissão terá sido tomada na quarta-feira, mas só amanhã deve ser oficializada junta da administração, que contactada pela Lusa disse desconhecer a situação.

Ao DN, o bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, afirma que "o hospital não tem as escalas com o número correto de médicos nas urgências geral, de pediatria, ginecologia e neonatologia nem nas urgências internas de pneumologia, cardiologia e especialidades médicas". "Estão 98 médicos em falta de várias especialidades. Até agora só recebi esta comunicação, mas não tenho dúvidas que vai suceder noutros hospitais. O corte de 35% vai ser brutal para o SNS que já tem falta de médicos e enfermeiros. A maioria das prestações são para as urgências e assegurar blocos operatórios [anestesistas]", aponta.

"No ano passado o ministério gastou 100 milhões de euros em prestações de serviço. Menos 35 milhões não resolvem o problema do SNS, mas se as contratações não existirem vai agravar-se. Os hospitais são quase todos deficitários e a consequência é os profissionais a dizerem que não aguentam. O Amadora-Sintra não é único", diz, lembrando que a poupança de 35% foi imposta com a reposição do valor pago por hora extraordinária. Mas que não se irá traduzir num aumento do número de horas a realizar.

Há muito que os médicos contestam o recurso às prestações de serviço. Miguel Guimarães explica que defendem o fim das empresas e a contratação direta dos profissionais pelos hospitais.

O anúncio desta imposição levou o bastonário a pedir uma reunião de urgência com o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, entretanto já marcada para a mesma semana em que os sindicatos médicos voltam a reunir no ministério para mais uma ronda negocial.

A ameaça de uma nova contestação dos médicos continua a existir. A próxima reunião entre ministério e sindicatos está marcada para o dia 20. "Haver ou não greve depende de existir uma resposta concreta aos sindicatos sobre a passagem de 18 para 12 horas semanais de serviço de urgência, a redução de 200 para 150 horas extraordinárias por ano, a redução da lista de utentes por médico de família e os concursos. Continuamos a aguardar respostas. Uma nova contestação não está afastada", disse ao DN Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.