Ex-governantes querem ver para crer na social-democracia de Passos

O slogan com que Passos se recandidata à liderança não chega para convencer de que está a recentrar o partido na social-democracia. Alguns dos que o acusaram de um desvio "neo-liberal" querem que apresente as novas propostas

"Social-democracia Sempre!" O lema da recandidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD convence os históricos e ex-governantes do partido? E isto depois de ter sido acusado repetida vezes de ter desviado o partido para uma ala "neoliberal". Ver propostas concretas para crer é o que várias figuras social-democratas esperam. O slogan só por si não chega, sentenciam.

O ex-presidente do Conselho Económico e Social (CÊS), José Silva Peneda, entende que a estratégia é "o reconhecimento de que houve exageros nos últimos anos". Para o atual conselheiro do presidente da Comissão Europeia, Juncar, "trata-se de um slogan que traduz preocupação de querer conquistar o centro".

O antigo líder do PSD Marques Mendes, de quem Pedro Passos Coelho foi vice-presidente, afirma que tudo depende da agenda programática que Passos apresentar, sobretudo porque, nos últimos anos, o PSD "teve um discurso demasiado acantonado à direita".

No seu espaço de comentário na SIC, Mendes frisa que ser social-democrata não é uma questão de slogans, e que só se afere em função das ideias, das causas e das propostas concretas. E essas, sublinha, "ainda nãos existem".

Recuperar a classe média

Silva Peneda, que foi ministro nos governos de Cavaco Silva, lembra ainda as "críticas" que fez ao governo PSD/CDS pelos "exageros". "A política económica tem que ser gradualista. O gradualismo é a arte fina da política económica. Quando há exageros, dá mau resultado e o anterior governo foi longe de mais em certas medidas que tomou", sublinha.

Este perito em assuntos económicos e sociais vê a estratégia de Passos como um bom caminho para o futuro do partido. "Não vejo outra hipótese para o PSD crescer, que não passe por recuperar o apoio da classe média. Nos últimos 4 anos sofreu um rombo enorme e a responsabilidade é do PSD e do CDS. A única hipótese é reconquistar a sua confiança", assinala.

A ex-presidente social-democrata, Manuela Ferreira Leite, tem uma ideia semelhante. No programa da TVI "Política Mesmo", da passada quinta-feira, mostrou-se "contente" com o novo reclamei que o PSD não fugisse da matriz da social-democracia", recordou, sublinhando, no entanto que, apesar de Pedro Passos Coelho afirmar que nunca tinha saído dessa linha ideológica, "essa não é a perceção pública".

E, asseverou, "ao haver essa perceção completamente diferente é muito importante que haja esse reconhecimento público porque há um espaço político no país, que está vazio e eu acho é muito importante e necessário - e as pessoas desejam-no - que o partido o preencha. Há que fazer um reajustamento no discurso para que a perceção possa ser diferente. É essa perceção contrária que ele vai ter de reverter".

A ex-ministra das Finanças não concorda que, como diz Passos Coelho, que o governo anterior tivesse sido social-democrata, mesmo na austeridade.

Combater desigualdades

O ex-deputado e ex-secretário de Estado José Eduardo Martins, que sempre se mostrou crítico da liderança de Passos Coelho, reconhece a situação difícil em que o ex-primeiro-ministro governou, as frisa: "Foi a primeira vez em que o PSD governou e em que as desigualdades sociais se agravaram. Ora, a primeira premissa da política social-democrata, depois do revisionismo da 3ª via, é combater a desigualdade e não é limitar-se a amparar a exclusão".

José Eduardo Martins considera, no entanto, que é importante o PSD recentrar-se na social-democracia, depois do partido ter aplaudido quando "o líder queria ser liberal". Diz esperar que faça o mesmo agora já que "está no caminho certo". Mas considera que mais do que as "proclamações" é importante perceber como é que isso se traduz em medidas. "Têm de ser propostas muito diferentes dos últimos anos".

Ângelo Correia, que também foi ministro de Cavaco, afirma que a linha de orientação que o PSD seguiu em 2011 foi imposta pela União Europeia, mas "com um discurso de aplauso interno" que, na sua ótica, motiva uma dúvida há quatro anos: "Se essa visão seria de necessidade e obrigação ou se correspondeu a uma pulsão interna de desejo análogo". As consequências viram-se nos resultados eleitorais, no tecido social do país e no afastamento das elites e até dos cidadãos da vida política, considera.

"Percebe-se, por isso, que o discurso seja o de desejo de recentrar o partido ideologicamente, mas só pode ter significado se se perceber qual foi a atitude em 2011: resignação ou aceitação clara", reforça Ângelo Correia. Para o qual o conceito da social-democracia dos anos 70, da fundação do partido, já se alterou. "É preciso esclarecimento e debate interno, senão teremos só rituais e slogans e não conteúdo a sério".

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