Eutanásia: Bastonário da Ordem dos Médicos quer referendo

Em mais um ciclo de debates "decidir sobre o final da vida", maioria dos convidados manifestaram-se contra o modelo já aplicado em países como a Holanda e a Suíça.

O bastonário da Ordem dos Médicos, "Decidir sobre o final da vida"reafirmou ontem, no ciclo de debates "Decidir sobre o final da vida", a necessidade de a eutanásia ser sujeita a referendo. O responsável disse ainda estar convicto de que a maioria dos médicos será objetor de consciência caso a morte medicamente assistida seja legalizada em Portugal. "Caso a eutanásia venha a ser despenalizada, a maioria dos médicos serão objetores de consciência. Acredito que serão raros os doentes que irão optar pela eutanásia", afirmou.

Quando questionado pela moderadora do debate, Felisbela Lopes, sobre a possibilidade de todos os médicos se oporem num determinado hospital e no problema que a situação poderia causar, caso seja aprovada a eutanásia, Miguel Guimarães fugiu à resposta, não apresentando uma solução à problemática levantada. Em entrevista ao DN, em Fevereiro deste ano, o bastonário já tinha dado conta da sua posição em relação à eutanásia e mostrou ontem que continua irredutível no que se refere a esta questão "polémica". As declarações de Miguel Guimarães foram proferidas na terceira sessão do ciclo de debates "Decidir sobre o final da vida", que decorreu ontem na Reitoria da Universidade do Minho, em Braga, e que contou também com a participação de Serafim Rebelo (Ordem dos Enfermeiros), Ana Paula Martins (Ordem dos Farmacêuticos) e Miguel Ricou (Ordem dos Psicólogos), moderados por Felisbela Lopes.

Os convidados defenderam as suas opiniões sobre o direito à morte assistida, mostrando-se contra o modelo já aplicado em países como a Holanda e a Suiça, onde a eutanásia é uma realidade, mas "onde têm surgido graves problemas sociais e de limites éticos". "Temos de falar obrigatoriamente na relação médico/paciente, pois é fundamental. O doente tem de sentir apoio, de ser informado o melhor possível e não é o que se está a passar. Neste momento, o tempo é cada vez mais curto, o que significa que as pessoas não estão a ter o acompanhamento que deviam ter para saberem que alternativas existem antes de optarem pela eutanásia", sublinhou Miguel Guimarães. Serafim Rebelo também expôs as suas dúvidas sobre a forma como a eutanásia poderá vir a ser aplicada, levantando questões processuais semelhantes às preocupações do Bastonário da Ordem dos Médicos. O enfermeiro revelou ainda que a Ordem dos Enfermeiros é contra a eutanásia, a distanásia, mas favorável à ortotanásia e sublinhou os possíveis erros de avaliação que podem surgir "quando se decide, numa situação de fragilidade, que se quer morrer". Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos, seguiu a mesma linha de pensamento garantindo a existência futura de "erros de avaliação de pessoas que, se calhar, não queriam assim tanto morrer". "Nunca haverá 100 por cento de certeza se a pessoa não iria conseguir adaptar-se ao sofrimento", explicou.

Neste terceiro debate, uma nova questão foi levantada pela Bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Paula Martins. A responsável falou sobre os perigos da internet, no que aos fármacos diz respeito. "Hoje em dia qualquer pessoa pode comprar, via internet, os mesmos fármacos que se utilizam para ajudar uma pessoa a morrer", alertou, afirmando ser possível recorrer a uma eutanásia fora do ambiente hospitalar. O alerta surgiu depois de ser questionada sobre a necessidade da regulamentação dos fármacos que deveriam ser utilizados. "Têm de ser eficazes (a pessoa tem de morrer logo) e não podem provocar sofrimentos, nem danos colaterais" e "em ambiente hospitalar", concluiu.

Esta foi a terceira sessão de um ciclo de 11 debates dedicados ao tema "Decidir sobre o final da vida", promovido pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). A iniciativa do CNECV surge numa altura em que estão anunciados três diplomas sobre a morte medicamente assistida (a eutanásia e o suicídio assistido), do Bloco de Esquerda, PAN e PEV.

Distanásia

As terminologias foram ontem muito utilizadas pelo painel de convidados da a terceira sessão do um ciclo debates "Decidir sobre o final da vida". A palavra eutanásia significa "boa morte". Contudo, em termos médicos significa pôr termo intencionalmente à vida de uma pessoa. Já a ortotanásia significa morte natural e por vezes é utilizada para situações em que são desligados ou retirados os meios para manter a vida.

A distanásia é precisamente o oposto da eutanásia. A palavra significa "má morte" e é entendida como o prolongamento de uma vida, por meios artificiais, mesmo quando isso implica sofrimento para o doente. No que se refere a esta última terminologia, todos os responsáveis ontem presentes no debate foram unânimes ao considerar ser uma prática inadequada e até "inaceitável".

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.