"Escreva lá no jornal: queremos o nosso rio!"

O DN prossegue a jornada pelo interior do país, agora em Castelo Branco. Roubaram o Erges à população de Segura. E há cinco anos foi a junta de freguesia

Os poucos que restam em Segura, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, ainda se lembram bem da última vez que foram notícia nacional. "Vieram ambulâncias, jornalistas e até um helicóptero!"

Na manhã de 12 de junho de 2012, um empreiteiro então com 62 anos, José Torres, entrou pela junta de freguesia, de caçadeira na mão e abateu à queima roupa a presidente da junta, Maria de Lurdes Sobreiro, e o marido, José Sobreiro. Maria teve morte imediata, José não - mas de nada lhe serviu a ajuda médica. Desavenças antigas terão estado na origem do duplo assassinato. O homicida foi condenado à pena máxima, 25 anos de prisão, que atualmente cumpre.

Nessa altura, Segura tinha 180 habitantes. E uma junta. Ora cinco anos depois a população andará pela metade e a junta de freguesia foi-se, fundida com a da Zebreira na reorganização administrativa de há cinco anos. Mas verdadeiramente nem é isso que mais aborrece os que ainda lá moram.

O DN chegou à localidade, ontem, aí pelas 14.30 e estranhamente o relógio do telemóvel marcava 15.30. Estranhamente, ou nem tanto: o relógio atualizou-se automaticamente por via da hora espanhola. Espanha fica mesmo ali ao lado: dois quilómetros, nem tanto. Estamos na zona de influência do Parque Natural do Tejo Internacional. O nosso guia é o senhor Rogério, um operário da construção com quem o DN meteu conversa enquanto enchia o depósito da viatura, numa estação de serviço da Zebreira. "Venha comigo até Segura, lá estão umas pessoas que o podem ajudar." Já tínhamos estado junto ao Tejo em Malpica - concelho de Castelo de Branco - e quando saímos surgiu um SMS no telemóvel, da operadora: "Esperamos que a viagem tenha corrido bem e desejamos um bom regresso a Portugal." A manhã tinha sido passada a percorrer quilómetros e mais quilómetros, sem viv"alma que se visse.

Este é o interior do interior do interior. Em Segura, à porta ao "Café Flor do Erges", estão quatro idosos conversando, e um homem mais novo. O senhor Rogério identifica-nos um deles, "foi da Guarda Fiscal", e podia ter muito que contar. O ex-agente, já reformado há uns anos, fala muito mas não se quer identificar. E eles e os outros vão diretos ao assuntos: não se queixam de desertificação nem de envelhecimento galopante da vila nem sequer muito do facto de agora já não terem junta de freguesia. Parecem aliás todos muito cuidadosamente afinados. O senhor "que foi da Guarda Fiscal" e que não se quer identificar nem se deixar fotografar faz de porta-voz.

"Ora bem, você escreva lá no seu jornal que nós queremos o nosso rio de volta!" O rio é o Erges, um afluente do Tejo. O problema, conta, é que aqui há mais de uma década lhe fizeram um açude, no sítio de Roque, ninguém sabe muito bem explicar porquê. Resultado: chega ao verão e o rio desaparece. E mesmo quando há água já não pode ser usado, por imposição ambiental, para, por exemplo, ali se lavar a roupa. Diz a senhora Guilhermina, que gere o café: "Dizem que faz mal aos peixinhos! Ora eu sempre lá lavei a roupa, desde miúda, e o que nunca faltou foram os peixinhos! Sabe qual é o problema? Ninguém nos ouve!"

O senhor que foi da Guarda Fiscal diz que assim, sem rio, Segura deixou de ter o direito de sonhar com o direito a ter turistas. Ele, que até aventa a hipótese de daqui a quatro anos ser candidato independente à Zebreira, tem projetos que, sem rio, não podem avançar: "Canoagem, concursos de pesca, sei lá..."

Concorrentes com estas surgem então outras queixas, contra o Parque Natural do Tejo Internacional. João Mendonça, o mais jovem do grupo (34 anos), ficou em Segura porque arranjou trabalho em Espanha, numa unidade de processamento de carnes de caça. Segundo diz, as regras nacionais do parque proíbem que se faça caça nas margens do Tejo. Mas já do lado espanhol, "pode-se caçar à vontade, todo o santo ano". Ele próprio é mais pesca - em Espanha, claro. O Parque prejudica a população?, pergunta o DN. "Não prejudica mas também não beneficia nada."

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