Episódio 31. Kim troca mísseis por manguito

Kim Jong-un fez beicinho: "Aceito com uma condição." E o Grande Marechal exigiu: "Quero lançar um último míssil." Bernardino Soares fez que não com a cabeça. O gordito recuou: "Juro que é um míssil desarmado." Bernardino estendeu-lhe a mão

Pyongyang, 29 de agosto, 05.25 Em ambiciosa operação a diplomacia portuguesa enviou, de Loures (a norte da Calçada de Carriche) para Pyongyang (a norte do paralelo 38), um especialista. Apesar da campanha das autárquicas, Bernardino Soares, como bom comunista, aceitou a missão patriótica.

A febre do intervencionismo à portuguesa ocupou-se de nova zona de conflitos: a que chamaremos, embora de forma imprópria, os mares da China. Os mares da China Meridional, da China Oriental, o mar Amarelo e, para lá da península da Coreia, o mar do Japão. Todos esses mares podiam chamar-se Pacífico, ficam nas margens do grande oceano. Mas não têm esse nome único, o que faz da região tudo menos pacífica.

Uma boa guerra de nomes, pois. Ao mar do Japão, a Coreia do Sul chama "mar do Leste", o que incomoda os nipónicos que o veem a oeste. E a Coreia do Norte chama, ao mesmo, "mar da Coreia do Leste". O que ameaça com próxima reivindicação, caso a aliança chinesa-norte-coreana dê para o torto: porque não chamar ao mar Amarelo, embora banhe a China e as Coreias, "mar da Coreia do Oeste"?

A vocação bélica dos nomes geográficos não é uma especialidade do Extremo Oriente. Na ONU, o nome oficial da Macedónia parece o de um cantor rock: "FYROM, the Former Yugoslav Republic of Macedonia", FYROM, aquela que antes era conhecida como República Jugoslava da Macedónia -porque o nome sozinho, Macedónia, os gregos não deixam, é deles...

Mas esse era um conflito menor e Portugal habituara-se a resolver as tolices do Trump e as do brexit. Não ia baixar de patamar. Já o caso dos mares da China tinha grandeza e continuava a ser de nomes nos mapas. Não exigia canhões, só paleio. A pedir um super soft power, português, pois.

Foi o apelo do embaixador japonês em Lisboa, Hiroshi Azuma, que acionou o processo. A ocupação chinesa de ilhotas e atóis no mar da China Meridional, de soberania difusa, levara Tóquio a pedir à União Europeia apoio: barcos de guerra a passar por lá, só para prevenir... E o embaixador Azuma soprou a um ministro português que uma fragata portuguesa valeria mais do que qualquer porta-aviões europeu: "Na região, Portugal é o europeu mais antigo e respeitado..."

Palavras doces de diplomata? Não, história. O primeiro embaixador britânico a ir a Pequim, Lord Macartney, em 1792, atrasou as relações com os chineses por mais de um século. Ao ser recebido pelo imperador, recusou-se a fazer o kowtow, a vénia tradicional até ao chão. Achou-a indigna. Mais digna foi a política de canhoneira, muitas décadas depois, para impor o livre comércio do ópio... Antes disso, no século XVI, jesuítas portugueses fizeram kowtow ao imperador - e criaram o Observatório Astronómico de Pequim.

Quando chegou a Pyongyang, Bernardino Soares também fez o kowtow a Kim Jong-un. Levou-lhe, em nome dos portugueses, um Zé-Povinho. Foi fácil explicar o manguito: "É o que o camarada faz quando Trump faz um tweet!" Jong-un disse: "O que eu faço é lançar um míssil." O português emendou: "Não, camarada, o manguito é mais letal do que um míssil, é como a dialética do camarada Kim Jong-un contra o imperialismo."

Bernardino Soares ia de Lisboa instruído com proposta complexa mas encaixando peças umas nas outras. Em homenagem a Portugal, a Coreia do Norte deixava de ameaçar Guam, porque de lá Fernão de Magalhães partiu na última viagem. Guam salvo amansaria os americanos. Havia ainda a garantia de que Tóquio aceitava que o mar do Japão passasse a chamar-se mar da Coreia do Leste - isso se Pyongyang não ameaçasse mais o Japão com bombas nucleares. Também Pequim aceitava que o mar Amarelo mudasse para mar da Coreia Ocidental, se Kim Jong-un renunciasse aos testes de mísseis. E a Coreia do Sul aceitava que na fronteira, a 50 km de Seul, os canhões norte-coreanos fossem substituídos por gigantescos e terríveis cartazes de Kim Jong-un a fazer manguito.

"Camarada, a proposta de Portugal inclui um bónus." A cara de garoto mimado animou-se. Bernardino Soares acrescentou: "O meu país reconhece que o Zé-Povinho foi desenhado pelo teu imortal avô, Kim Il-sung!" O português não referiu que o governo japonês é que pagaria o bónus: as ementas dos restaurantes japoneses com tempura passariam a acrescentar "especialidade portuguesa". O acordo geral era uma première mundial na diplomacia: todos ganhavam.

Mas Kim Jong-un fez beicinho: "Aceito com uma condição." E o Grande Marechal exigiu: "Quero lançar um último míssil." O português fez que não com a cabeça. O gordito recuou: "Juro que é um míssil desarmado." Bernardino estendeu-lhe a mão.

Meia hora depois foi enviado um inocente míssil que sobrevoou o norte do Japão. Lisboa era a única capital mundial tranquila. Jerónimo de Sousa já tinha mandado o mesmo sms para Marcelo e Costa: "Tudo nos conformes."

Continua amanhã. Acompanhe aqui os episódios do Folhetim de Verão

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