"No Iraque era o único militar aliado fardado com camuflado verde"

Entrevista ao coronel Nuno Pereira da Silva, militar que participou nos trabalhos de construção das capacidades militares da UE

O que é que o levou a escolher a carreira militar?

A revolução de Abril perpetrada pelos militares foi um dos acontecimentos mais marcantes da minha infância. A revolução e os seus heróis, de que se destacaram o capitão Salgueiro Maia e o general Spínola, fizeram que quisesse ser como eles.

Esteve nas missões de paz e, vários anos, diretamente envolvido nos trabalhos de construção das capacidades militares da União Europeia...

Todas as semanas, durante cinco anos, fui a Bruxelas para efetuar esta missão. Muitas vezes fui acusado por alguns chefes de já falar uma linguagem estranha, que designavam por "europês". A missão terminou aquando da última presidência portuguesa da UE, em 2007, tendo na altura Portugal finalizado um primeiro ciclo de planeamento de forças completo.

Como, dadas as tradicionais rivalidades dentro da UE?

Foi um marco importante para a UE e um trabalho diplomático considerável, dada a dificuldade de se conseguirem consensos entre os Estados membros, com diferentes conceções do papel da defesa na União. Não me esquecerei da surpresa que os militares causaram no Conselho, as primeiras vezes que ali se reuniram uniformizados com as várias cores das diferentes fardas de todos os países, pois como pioneiros que éramos viam-nos como um corpo estranho numa instituição que até à data era eminentemente civil.

No âmbito da cooperação técnico-militar, esteve onde?

Primeiro em São Tomé e Príncipe [STP], como capitão... houve um dia em que um golpe de Estado falhado saiu da unidade onde estava a prestar assessoria. Os oficiais mais novos pensaram que apoiaria o golpe e a maioria deles começou a chamar-me traidor. Tive pela primeira vez uma arma automática AK47 apontada à cabeça por um dos tenentes revoltosos, que me gritava que eu teria de optar pelo socialismo, senão morreria. A escolha, por uma questão de sobrevivência, pareceu-me óbvia.

E em Angola?

Foi a segunda missão no exterior, já como major e para ser instrutor do curso de Oficiais Generais. O curso não se realizou porque a guerra civil recomeçou, mas o comandante do instituto pediu-nos que desenvolvêssemos um tema tático operacional para ser executado em futuros cursos... e nesse exercício pretendia que nós planeássemos um tema sobre a forma de derrotar o Savimbi... que não executámos, obviamente.

Depois foi o Iraque, no quadro das chamadas missões de paz...

Chefiei um grupo de assessoria militar da NATO ao gabinete de informações e segurança do primeiro-ministro Maliki. Foi extremamente difícil e exigente, pois o gabinete era o alvo mais apetecível dos grupos de insurgentes. Aprendi muito sobre a forma de organização tribal dos Estados na região e sobre a situação da insurgência no Iraque e no Médio Oriente, que só se aprende in loco por muito que se leia, malgrado a missão ter sido finalizada precocemente por exigência do Parlamento iraquiano, que obrigou a NATO a sair do território...

Mas fomos praticamente o único país da NATO a sair, os restantes países continuaram no terreno...

Portugal foi o primeiro a sair da chamada missão de treino da NATO no Iraque [NTMI, sigla em inglês], outros se seguiram porque não havia garantias de segurança. Alguns países negociaram bilateralmente a sua continuação mas Portugal não o fez. Ficar sem estatuto especial era perigoso... os países que não negociaram um estatuto especial e ficaram arriscaram um pouco, pois se houvesse algum problema os seus nacionais podiam ter problemas.

Recorda algum episódio em particular dessa missão?

Ser o único militar aliado fardado com o camuflado em tons de verde, estando os outros 400 000 militares com o padrão do deserto. Um dos oficiais iraquianos, sempre que me via, gracejava dizendo que se aparecesse uma cabra me comeria. Outro foi o de vários oficias dos EUA quererem comprar a pistola Walther de 9 mm que ainda equipa o Exército, por pensarem que era da minha coleção pessoal e dada a curiosidade histórica com que olhavam para a relíquia. No regresso de férias, transportado pelos ingleses, ser obrigado a esconder-me seis horas no primeiro avião que fosse para o Iraque para evitar ser detido no Qatar por não ter visto de entrada, porque a informação oficial pelo meu Exército foi que não necessitaria de visto algum para entrar nesse país e que, se fosse preciso, o poderia adquirir no aeroporto, à chegada.

Que diferenças entre ser militar e civil?

Os militares estão sempre prontos a cumprir missões. Recordo o dia em que soube que iria para o Iraque, coincidiu com o primeiro dia de férias no Algarve. O telefonema recebido na praia obrigou-me a enrolar a toalha e ir para Lisboa, para cumprir as formalidades prévias a uma deslocação para um teatro de guerra no prazo de uma semana.

Como vê o papel atual das Forças Armadas em Portugal?

Continua a ser o da defesa da pátria e dos seus interesses, mesmo que as suas fronteiras físicas não coincidam com as nossas fronteiras territoriais. Os militares são também um complemento da política externa do Estado.

* Esta é a primeira de cinco entrevistas a publicar ao domingo com histórias de vida de militares.

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