Assunção Cristas: "Alianças só com o PSD"

A centrista elogia o primeiro-ministro António Costa por não ceder ao PCP e ao Bloco de Esquerda na Reforma laboral, afirma desejar o regresso da coligação CDS-PSD ao poder e garante que já ninguém olha para ela como a ministra do governo da troika

A agenda da semana esteve dominada pelas feridas dos derrotados mais do que pelos despojos dos vencedores. Conseguiu em Lisboa, sozinha - sozinha é uma maneira de dizer, porque teve uma coligação com o MPT e com o PPM - mais votos do que aqueles que a coligação PSD/CDS conquistou nas últimas autárquicas, quase 52 000 votos na maior cidade do país. O que fazer com este património político?

Trabalhar. O que nós temos de fazer agora é trabalhar, é transformar esta confiança de muitos eleitores, e muitos foram aqueles que votaram em nós pela primeira vez - a coligação Nossa Lisboa não só era constituída por três partidos como se alargou a muitos independentes, foram muitas as pessoas da sociedade civil que vieram para as nossas listas e que nos apoiaram, se calhar o penhor disso foi o nosso mandatário Carmona Rodrigues que deu esse sinal de que isto é bem mais do que o CDS tradicionalmente é, e vimo-lo nos resultados -, portanto agora o que temos de fazer é trabalhar em Lisboa para dar a confiança e a resposta a estes votos. Eu disse que prometíamos superar a expetativa e devolver em dobro, e faremos isso no lugar que nos foi confiado que é a de líderes da oposição em Lisboa. Uma oposição que será sempre muito construtiva e já estamos a preparar as primeiras propostas para a primeira reunião de Câmara.

Fernando Medina não tem maioria absoluta, o mais provável é que a procure eventualmente à esquerda, mas se isso não for possível admite discutir uma coligação para viabilizar o executivo autárquico?

Não faz sentido nenhum, nós tirámos a maioria absoluta a Fernando Medina que passou de 11 para 8 vereadores e aquilo que fizemos foi afirmarmo-nos como a oposição, ficámos em segundo lugar destacados de todos os outros partidos e somos os líderes da oposição em Lisboa. Aquilo que vamos fazer é uma oposição muito firme, mas sempre muito construtiva, apresentando as nossas propostas, como de resto vínhamos fazendo nos quatro anos anteriores e que foi o que permitiu também termos uma boa candidatura em Lisboa. Eu penso que o Fernando Medina não terá dificuldade nenhuma em entender-se com o Bloco de Esquerda à partida, visto que só lhe falta um vereador para ter a maioria ou, eventualmente, com o PCP; aliás eu disse durante a campanha eleitoral que se podia editar em Lisboa um governo das esquerdas unidas, aqui só precisará de uma dessas pernas.

Admitindo a possibilidade de não haver uma coligação como está a dizer, aceitaria exercer uma vereação com um pelouro em Lisboa?

Não, isso não faz sentido. Faz sentido sim, nós sermos uma oposição construtiva, o que significa, como de resto sempre fizemos no passado, que em relação a cada uma das matérias, em relação a cada um dos assuntos que vão a decisão na Câmara ter votos consistentes com aquilo que é o melhor para a cidade e, portanto, certamente que em muitos pontos votaremos contra mas noutros votaremos a favor e, noutros, faremos uma abstenção que viabiliza as propostas. Para além disso, nós próprios seremos emitentes de muitas propostas que têm a ver com o nosso programa e que achamos que podem ter espaço para aplicação na cidade, mesmo sem estarmos numa posição liderante.

Em que áreas concretas é que vê o CDS a ser relevante nesse cenário?

Vou-lhe dar um exemplo que foi aliás inspirado naquilo que aconteceu já antes com o Alto-Comissariado de Combate ao Desperdício Alimentar: nós achamos que a rede de cuidadores em Lisboa - uma proposta do nosso programa para que nenhum idoso fique isolado, sozinho, sem ter alguém em sua casa -, que está pensada para trabalhar com as instituições sociais da cidade, pode perfeitamente ser assumida pela Câmara. Falo, por exemplo, da Conceição Zagalo, que foi a nossa número três, eleita vereadora em terceiro lugar e que tem uma larga experiência nessa área e que pode ser uma alta-comissária, como o João Pedro Gonçalves Pereira foi alto-comissário na área do desperdício alimentar. Isso é algo que eu vejo que é possível fazer construtivamente ajudando o executivo.

É uma área onde acha que haverá um entendimento fácil com o PS?

Nós faremos essa proposta e eu vejo, porque vi o que foi feito anteriormente - é verdade que não foi com Fernando Medina, foi com António Costa, e são muito diferentes as personalidades -, isso possível de acontecer. Portanto, certamente que faremos essas propostas, como faremos a proposta do Metro, a recomendar que a Câmara tome uma posição junto do Governo no sentido de defender a expansão do Metro, veremos o que é que Fernando Medina entende agora sobre essa matéria.

Este resultado do CDS em Lisboa veio tornar claro que uma coligação autárquica com o PSD, liderada por si e negociada atempadamente, com uma longa pré-campanha, poderia ter deixado o centro-direita com reais hipóteses de reconquistar a capital?

Nunca sabemos. Poderia. Eu disse sempre que é naturalmente mais fácil ganhar com há dois partidos juntos, sobretudo com a dimensão do PSD, do que um partido separado com dois bastante mais pequenos e, portanto, naturalmente que as condições seriam diferentes. Mas, certezas nunca as há e eu acho que nós fizemos um caminho de alargamento do espaço de apoio do CDS bem para lá do CDS que foi positivo. Saber se esse caminho também teria acontecido se estivéssemos em conjunto com o PSD, eu não sei. Enfim, são águas passadas, na altura empenhei-me nisso mas não foi possível, por isso trabalhámos nas circunstâncias que tínhamos.

O resultado que conseguiu é a prova provada que Passos Coelho cometeu um erro em não a apoiar?

Eu não gosto de fazer essas leituras. Os comentadores políticos fazem essas leituras, eu sou líder do CDS, liderei a candidatura da Nossa Lisboa que foi muito bem-sucedida, temos condições para trabalhar como nunca na cidade de Lisboa, com uma voz muito ativa, sempre construtiva e sempre muito fiscalizadora do executivo, portanto é isso que vamos fazer.

Mas se tivesse havido essa coligação poderia estar aqui na qualidade de presidente da Câmara eleita, acredita que isso teria sido possível?

É possível, como eu também sempre acreditei que em democracia tudo é possível e bati-me até ao fim por ser eleita presidente da Câmara de Lisboa, mesmo nestas circunstâncias mais difíceis, mas certezas nunca as teríamos e eu sobretudo não falo sobre cenários que não aconteceram, o que me interessa é o futuro. O que lá está, lá está, passou, lá ficou, estamos é a pensar como é que vamos agora trabalhar na Câmara de Lisboa correspondendo às expetativas e à confiança que nos foi dada por tantas pessoas que, pela primeira vez, votaram no CDS. Tive muitos amigos e conhecidos que me mandaram mensagens a dizer que pela primeira vez tinham votado em nós e isso é muito bom de ouvir.

O CDS conquistou mais uma autarquia do que em 2013, festejou a maioria absoluta de Rui Moreira no Porto, o melhor resultado de sempre em Lisboa...

...Reforçámos em todas as câmaras que já tínhamos, portanto a nossa votação aumentou significativamente nas cinco câmaras que tínhamos; em Ponte de Lima, que a dada altura foi tida como uma situação difícil, mantivemos os nossos cinco vereadores e isso foi muito positivo pois não baixámos, de todo, a nossa votação e a nossa representação, e ganhámos Oliveira do Bairro.

A verdade é que a nível nacional, e descontando as coligações com o PSD que valerão cerca de 10%, o CDS sozinho não vai além dos 2,6%. Como dizia o líder do PS a um camarada do partido há uns tempos, é uma vitória que é "poucochinho"?

Não, essas contas não podem ser feitas assim. O CDS tem agora, de facto, seis câmaras que governa sozinho com maioria absoluta, há quatro anos apoiou dois movimentos independentes e ficou com responsabilidades nesses movimentos - o Porto e Aguiar da Beira -, neste momento, de dois passaram para quatro, há duas câmaras na Madeira em que os vice-presidentes são do CDS. Depois, temos as coligações com o PSD em que ganhámos 19 coligações, neste momento temos influência executiva em trinta e muitas câmaras no país. Portanto, dizer que são 2,5% é muito redutor, não é o retrato.

Mas é uma avaliação que se faz, acima de tudo, para os partidos grandes, quando olhamos para o PCP vemos quantos votos eles perderam, é de certa forma injusto que esse faça para alguns partidos e não se faça para outros.

Com certeza que sim. Para nós, o que é importante é realçar que os objetivos que foram definidos no congresso foram cumpridos e o objetivo foi muito simples: crescer autarquicamente. Quando perguntavam o que é que isso significa eu disse: Depende. Há sítios onde o CDS não tem ninguém numa junta de freguesia, crescer nesse sítio é ter um eleito para a junta de freguesia. Por exemplo, em Lisboa, nós, nas últimas eleições com a coligação PSD/CDS, só ficámos com representação em 19 juntas de freguesia, tínhamos 19 autarcas de freguesia, neste momento temos 53 autarcas de freguesia e, isto que aconteceu aqui em Lisboa aconteceu também um pouco por todo o país, onde não tínhamos ninguém passámos a ter alguém. Agora não há em Lisboa nenhuma junta onde o CDS não esteja representado e isso acontece muito no país, noutros sítios é um deputado municipal, não temos deputado municipal, noutros sítios é um vereador e, noutros, é a ambição de uma câmara, o que aconteceu em Oliveira do Bairro e nos deixou muito felizes.

A maior parte dos analistas explicam a vitória de António Costa e do Partido Socialista - nunca um partido sozinho controlou tantas autarquias -, com um bom ciclo económico e com a devolução do rendimento às pessoas; estes mesmos argumentos são usados para explicar a derrota do PSD. Como é que o CDS chega aqui, a outubro de 2017, sem ser afetado pelos anos da troika, foi a líder do CDS que fez esquecer que o CDS fez parte do governo e que foi ministra?

Nós procuramos interpretar o momento atual e não ficar presos ao passado desde o primeiro minuto. Quando fui eleita líder do CDS disse no congresso que, para nós, era muito importante não estar sempre a pensar no que tinha acontecido, mas sim a pensar no que pode acontecer e como é que nós podemos transformar e criar o que pode vir a acontecer.

Portanto a mudança de líder foi decisiva?

Eu penso que foi decisiva, creio que Paulo Portas se tivesse continuado também faria essa mudança mas, como é evidente, uma alteração de protagonista ajuda a fazer essa quebra, isso parece-me bastante claro.

O que ficou definido foi apostar muito nas autárquicas, não considerar as autárquicas uma eleição de segunda. Eu não levantei o véu todo porque não havia decisões tomadas sequer em relação a tudo, mas disse, por exemplo, que no Porto apoiaríamos Rui Moreira se ele quisesse continuar e foi uma aposta ganha, eu fico feliz por termos ajudado a que ele ganhasse e conquistasse a maioria absoluta, reforçasse a sua posição e se libertasse do Partido Socialista no Porto. Foi dito sempre que, a par com isto, continuaríamos a trabalhar a nível nacional...

No congresso fez mais, deu a entender logo de uma forma evidente que seria candidata à Câmara de Lisboa...

Disse que teríamos uma candidatura forte e mobilizadora.

Toda a gente ficou a olhar para si...

O CDS tem mais gente capaz de protagonizar uma candidatura forte e vencedora, mas havia essa hipótese e vou explicar porquê: isso tinha sido discutido em dezembro ainda o Paulo Portas era líder e eu já tinha dito que sim. Depois disse que tínhamos de deixar isso em banho-maria para perceber se faz ou não sentido e se o partido acha bem e se concorda; eu não avançaria se não houvesse a profunda concordância do partido, quando senti que existia avançámos, conversando também com o PSD e depois de perceber que não havia espaço para...

Essa conversa com o PSD correu mal e é mesmo para esquecer?

Não, nada é para esquecer. O PSD tinha um compromisso com o Pedro Santana Lopes e queria honrá-lo até ao final do ano e nós não podíamos esperar até ao final do ano, foi muito simples. Depois havia outra diferença, eu estava muito focada nas autárquicas e Pedro Passos Coelho achava que haveria legislativas antes das autárquicas e isso muda, obviamente, o quadro das prioridades e o sentido de urgência em relação às coisas. Eu tinha um sentido de urgência em relação às autárquicas porque queria que corressem bem, como de resto correram, e queria que as começássemos a preparar com muita antecedência, porque um partido com a dimensão do CDS tem de trabalhar muito para conseguir ter alguma coisa.

Portanto, assim o fizemos mas, ao mesmo tempo, dissemos que a nível nacional iríamos adotar sempre uma postura de política positiva que é: somos oposição sim senhora, somos duros sim senhora, mas apresentamos sempre propostas e fizemo-lo sempre no Orçamento de Estado, no programa nacional de reformas e no programa de estabilidade; trouxemos vários temas para o Parlamento, desde as questões da Educação, da Segurança Social, do envelhecimento ativo, da natalidade. São muitas as áreas em que temos apresentado propostas e mesmo liderado, estou a pensar em questões como a dos metadados em que foi o CDS que pôs em cima da mesa o primeiro projeto que depois teve contribuições várias e, depois, apareceu o do Governo e foi decidido. Mas, em várias áreas nós fomos liderantes, na supervisão bancária fomos os primeiros a apresentar projetos nessa área. Acho que trabalhámos muito no sentido de que o que lá vai lá vai, com certeza que tem importância, tem relevância e não nos podemos esquecer disso, mas temos de andar para a frente, o caminho é em frente, não é para trás.

Já não olham para mim como a ministra do governo da troika

Não ficou presa ao passado, fez uma campanha muito na rua, as pessoas ainda olham para si como uma ex-ministra do governo da troika?

Acho que não. Quando comecei como líder do CDS as pessoas olhavam para mim e diziam, "Olha, a ministra!", depois passaram a dizer, "Olha, vai ali a Assunção Cristas!", em Lisboa é "a Assunção" e houve um sítio ou outro em que diziam "Olha, é a presidente da Câmara!" e eu pensava, "era bom, mas ainda não, ainda não". Há um ou outro aspeto que me era sinalizado, como o corte das reformas ou a lei das rendas, e eu aí explicava e tirava algumas dúvidas; aproveitava para explicar que um governo que trata de um país em bancarrota obviamente que não pode fazer o que quer e tem de fazer muitas coisas que não quer e tive algumas longas conversas com várias pessoas, o que foi bom. Tive um senhor que me disse: "Eu estava tão irritado convosco que nunca pensei que poderia estar aqui consigo a falar civilizadamente". Ele estava à porta de uma escola que eu visitei e estivemos a conversar, obviamente que não iria votar em mim, mas conversámos de uma forma cordata, eu ouvi as razões dele e expliquei as minhas; ele tinha ficado desempregado e achava que a culpa era nossa, e conversámos sobre isso.

Dentro do seu próprio partido houve quem a subestimasse quando foi eleita líder. Entretanto saiu-se bem, já o dissemos aqui em duas eleições, o CDS já não é o partido do Paulo Portas?

O CDS é um partido que tem um passado de vários líderes. Tem um líder que se destacou pela sua inteligência, pelo seu carisma e pelo tempo de permanência, que é Paulo Portas de que quem eu sou amiga e com quem aprendi muito e continuarei certamente a aprender. O que eu penso é que o partido na altura sentiu e percebeu a saída de Paulo Portas, eu quando fiz uma volta muito grande pelo partido antes do congresso não ouvi ninguém triste, no sentido de querer ou exigir que ele continuasse, as pessoas perceberam e estavam expectantes pela mudança, creio que neste momento as pessoas estão satisfeitas com a mudança. Obviamente que esta não é feita em rotura, é feita em continuidade, e isso é uma coisa muito boa, muito positiva, de uma grande maturidade dentro de um partido.

Mas havia alguma, para não dizer muita, desconfiança quando foi eleita líder do CDS, houve vários dirigentes que o demonstraram claramente, não sentiu que até este domingo ainda havia no CDS quem estivesse pronto a afiar a faca se o resultado tivesse sido mau em Lisboa?

Não, não senti isso, até porque ficou muito claro que as coisas estavam a correr bem. Acho que a campanha eleitoral foi muito boa e as pessoas diziam-me todas que ia correr bem mas, quanto a desconfianças, estou habituada a lidar com isso na vida. Quando comecei no ministério da Agricultura, a desconfiança, como podem imaginar, era enorme, uma professora de Direito, jovem - tinha 36 anos -, mulher, que nunca soube nada de agricultura, de repente chega ali e as pessoas perguntam o que é que ela vai fazer. Depois trabalhei e aprendi, trabalhei em equipa, ouvi muito e andei muito no terreno - eu acho que a chave é andar no terreno e ter a proximidade das pessoas -, e as coisas correram bem; portanto, eu não me incomodo nada com isso, para mim o importante é saber quem está e todos os que querem estar estão e as portas estão sempre abertas para todos os que querem colaborar positivamente num caminho de construção, de afirmação do partido, de serviço às pessoas e é isso que é importante.

Face a estes bons resultados, está a encará-los como algo de estrutural na base de apoio do CDS ou acha que podemos estar aqui perante um fenómeno conjuntural?

Acho que temos de trabalhar muito. Eu gostava de dizer que é algo de estrutural, mas não acho que se possa dizer isso, seria uma grande arrogância dizê-lo e eu procuro ter sempre uma atitude de humildade, acho que em Lisboa as pessoas deram-me essa confiança, para que isso se transforme numa confiança maior a nível nacional é preciso mostrarmos que merecemos, é preciso provar, é preciso trabalhar muito e é isso que eu estou empenhada em fazer.

O que é que o CDS vai fazer para fixar este eleitorado que conquistou nestas últimas eleições?

Vamos manter um rumo de trabalho positivo e de propostas sérias, vamos andar no terreno, aquilo que eu fiz em Lisboa vou fazer em todo o país também; já o fazia, mas agora fá-lo-emos certamente com uma outra veste e com um trabalho reforçado e não abandonaremos a nossa ideia de termos sempre propostas para todas as áreas, marcando aquilo que é a alternativa do CDS que quer ser uma força forte no centro-direita em Portugal. Eu quero que as pessoas percebam qual é a nossa posição e qual é a nossa alternativa para todos os temas.

O CDS, com a sua liderança, tem estado a apresentar propostas, falava há pouco das propostas que apresentou designadamente no Orçamento de Estado, este ano onde é que se vai centrar o CDS, em que áreas, nas propostas para o Orçamento de Estado?

Eu já referi algumas, mas nós vamos naturalmente fazer também essa reflexão, que não foi anterior porque estávamos praticamente todos nós candidatos um pouco por todo o país.

A geringonça foi acusada de estar a discutir as propostas e a fazer campanha com isso. O CDS podia ter feito o mesmo.

Sim, foi, nós dissemos isso. Sabe que nós gostamos de ver as coisas com muita responsabilidade e não podíamos estar todos ao mesmo tempo na rua em campanha e a apresentar propostas para o Orçamento. O Governo e os líderes do PCP e do Bloco de Esquerda não eram candidatos em lado nenhum. Nós, pelo contrário, eu, a direção e o grupo parlamentar éramos praticamente todos candidatos, portanto achamos que cada coisa tem de vir a seu tempo e agora é o tempo de apresentarmos as nossas propostas; certamente que apresentaremos algumas que já apresentámos no passado, posso dar dois exemplos: o IRC, continuamos a achar que ele deve baixar, fico preocupada quando ouço...

Sabe que não vai ser aprovado, o primeiro-ministro já disse em entrevista ao Diário de Notícias que não aceitava isso.

Por isso mesmo nós somos alternativa e por isso mesmo fica muito marcado qual é a linha do Governo e qual é a linha do CDS. Eu sei que muito do que apresentamos não é aprovado, a maior parte do que apresentamos não é aprovado, mas isso não quer dizer que nós não devamos apresentar, porque precisamos precisamente de contrastar. Eu continuo a achar que para termos criação sólida de emprego, para termos investimento, devemos honrar aquilo que foi o compromisso da reforma do IRC, que era baixar progressivamente o imposto até à casa dos 17%; este ano vamos propor baixar de 21% para 19%. Outra matéria que vamos pôr de novo em cima da mesa é, por exemplo, a matéria do arrendamento. Nós já tínhamos proposto passar a taxa liberatória de 28% para 25%, vamos ver se mantemos os 25% ou se propomos até baixar um pouco mais o que foi rejeitado duas vezes pelo Partido Socialista. Agora ouvi Fernando Medina, na campanha, falar que vão apresentar propostas no Orçamento, veremos... Nós também apresentaremos as nossas, só para dar dois exemplos.

Como apresentaremos sempre a nossa proposta do coeficiente familiar, porque estamos convencidos que é a melhor no que tem a ver com a justiça para as famílias com mais filhos e é a que é aplicada em França há décadas e que nunca foi revogada por nenhum partido; e França é o país da Europa que tem o melhor índice de fecundidade, tem dois filhos por mulher, é, aliás, o único país da Europa que tem dois filhos por mulher e tem esta fiscalidade muito amiga das famílias que nunca foi alterada por ninguém. Nós continuaremos também a insistir nisso.

António Costa fez bem em não ceder ao PCP e ao Bloco na reforma laboral

O que é que não gostaria mesmo de ver inscrito no próximo Orçamento?

Um aumento do IRC, por exemplo. Ouvi falar nisso como moeda de troca com propostas das esquerdas e acho uma péssima ideia. Quando nós precisamos de criar emprego - hoje estamos a criar emprego, e aí esteve bem António Costa porque não cedeu ao PCP e ao Bloco de Esquerda na revisão da reforma laboral que foi feita no anterior Governo, estamos a criar emprego por causa dessa estabilidade -, o que eu gostaria era de ver estabilidade política também em matéria de IRC, o que significaria ir mantendo a lógica da diminuição progressiva para termos uma fiscalidade muito competitiva para as empresas e para as pessoas poderem investir com segurança no país e sem medo de que a taxa que hoje é uma, amanhã seja outra e até superior.

Garantiu que se fosse eleita vereadora iria assumir o cargo e que só o deixava no momento em que regressasse ao governo. Está a contar voltar em 2019?

Nem me preocupo com isso neste momento. Neste momento o que me interessa é ser uma ótima vereadora, fiscalizadora do executivo de Fernando Medina e sempre autora de propostas que façam sentido para a nossa cidade. É isso que farei com uma grande proximidade às pessoas e, ao mesmo tempo, trabalharei a nível nacional certamente para derrotar o Partido Socialista e trabalharei com certeza a pensar em 2019, mas a pensar nos anos seguintes, darei o meu melhor e depois os portugueses dirão de sua justiça.

Sabe que no CDS nós não temos essa coisa de quando é que vamos para o governo, porque pode acontecer ou pode não acontecer, temos uma longa história em que a maior parte do tempo foi passado na oposição no Parlamento. Nós não determinamos as nossas escolhas por isso, agora, que quero construir um caminho alternativo às esquerdas unidas, alternativo ao Partido Socialista, em que o CDS seja uma parte cada vez mais relevante e que contribua cada vez mais ativamente para essa alternativa, isso sem dúvida.

queremos o bloco CDS-PSD de regresso ao governo

De que forma é que o resultado destas autárquicas pode mudar a correlação de forças com o PSD?

Para o CDS é um sinal e ânimo e de esperança de que nem tudo o que era é obrigatório que assim continue a ser. Basicamente há espaço para alguma mudança, há espaço para crescermos, não é verdade que tenhamos de ficar sempre encapsulados em 10% ou 12%, podemos ambicionar mais. Aconteceu em Lisboa, é verdade que foram circunstâncias muito específicas, mas eu creio que podemos, devemos e vamos trabalhar para que isto possa acontecer a um nível mais nacional.

De qualquer forma da próxima vez que o CDS tiver que negociar um acordo com o PSD parte para essa discussão com uma força diferente nesta altura?

Certamente que parte com uma força diferente, mas isso não me preocupa agora nem me ocupa. O que me preocupa é consolidar uma rota de crescimento do CDS. Nós queremos que o CDS seja uma parte mais forte de uma alternativa de centro-direita em Portugal. Estivemos duas vezes, no passado mais recente, com o PSD no governo, numa vez não chegou a 8%, foi Portas/Barroso, e noutra vez não chegou a 12% e foi Portas/Passos Coelho. Nós temos de crescer muito se queremos que a nossa visão e as nossas propostas possam, de facto, conhecer outra luz do dia e ter outra eficácia; temos de crescer e ter mais espaço de intervenção e é nisso que estamos empenhados e, já agora, acho também que em condições favoráveis, porque a dificuldade de passar uma mensagem quando há apelo ao voto útil é muito grande. Não vou dizer que terminou porque do lado do PSD continuará sempre a haver esse apelo, mas diminuiu muito porque pela primeira vez nós vemos em Portugal um governo liderado por alguém que ficou em segundo lugar nas eleições, mas que conseguiu juntar uma maioria parlamentar. Isto quer dizer que deste lado também pode acontecer o mesmo, ou seja, de hoje para amanhã até pode um dos partidos ficar em segundo lugar comparando com o Partido Socialista, o PS ficar em primeiro e o PSD e o CDS não ficarem em primeiro lugar, mas os dois juntos serem capazes de ter 116 deputados. Isso certamente que determinará um governo neste espaço político.

Está a assumir que há dois blocos, há pouco falava que a personalidade de António Costa é bem diferente da de Fernando Medina, no início da entrevista perguntámos se estaria disponível para uma coligação com o PS em Lisboa, em tempos o CDS foi um partido mais ao centro o que lhe permitiu estar no governo com o Partido Socialista...

Sete meses que não correram muito bem.

Não correu bem, mas eram os tempos que se viviam naquela altura. Este legado chegou a ser defendido por Freitas do Amaral ou Lucas Pires que achavam que o partido devia ser ao centro, portanto mais à esquerda do PSD e mais à direita do PS. Sem maioria absoluta do PS em 2019, se esta geringonça que tanto Catarina Martins como Jerónimo de Sousa já disseram que não era repetível numa futura legislatura, o CDS olha para a política hoje como dois blocos como estava a referir ou admite que é possível, um dia, vir a negociar com o Partido Socialista?

Isso aconteceu historicamente e eu acho que neste momento não voltará a acontecer, porque claramente o Partido Socialista encostou-se à esquerda, fez a sua opção preferencialmente pela esquerda, tornou-se líder de um bloco das esquerdas unidas, com dois partidos de esquerda bastante radical e, portanto, é aí que está. O que nós queremos é construir uma alternativa centro-direita e nessas eleições o que nós queremos é que o bloco CDS/PSD possa ser maior do que o bloco PS/PCP/BE e é para isso que eu trabalharei até ao limite, e é isso que eu acho que faz sentido neste momento em Portugal.

Teme que a nova liderança do PSD possa recentrar o partido e devolvê-lo ao campo social-democrata e que esse movimento em si também possa vir a ter um impacto forte no CDS em futuras eleições?

Eu só me preocupo com aquilo que está nas minhas mãos e o que está nas minhas mãos é trabalhar intensamente para o CDS se afirmar como um partido de futuro, um partido que está a crescer, que apela às novas gerações, àquelas que não têm a memória, por exemplo, do Sá Carneiro. Há muita gente que me diz que é do PSD desde o tempo do Sá Carneiro e já mais pensarão numa outra alternativa, e todos os partidos têm isso. Nós queremos olhar para aqueles que estão agora a votar pela primeira vez, que não têm esse histórico, essa ligação umbilical aos partidos e propor-lhes uma coisa diferente, propor-lhes uma lufada de ar fresco no centro-direita em Portugal. É essa a minha missão, é essa a minha vontade; o que os outros farão certamente que o farão e nós, depois, conversaremos nos contextos que saírem de eleições, mas o que me parece importante é afirmar o CDS como um partido que está a crescer e é um partido do futuro do centro-direita em Portugal.

Admite que nesta altura o CDS está à esquerda do atual PSD ou, dito de outra maneira, o atual PSD está à direita do CDS?

Há muitos pontos, e isso nós sentimos no Governo, onde o CDS estava mais ao centro do que o PSD. Logo na negociação do programa de Governo recordo-me que estava eu de um lado e estava o Carlos Moedas do outro e havia vários aspetos em que a nossa posição era claramente mais ao centro, por exemplo a privatização da Caixa Geral de Depósitos, a privatização da RTP, casos em que o PSD queria a privatização e nós não queríamos e ficou uma redação aceite pelos dois que depois foi muito útil quando os temas apareceram na sala do Conselho de ministros. Portanto, isso já acontecia antes, agora temos outros episódios onde o PSD claramente me parece que foi mais à direita, enfim, tem sido muito sinalizada a questão de Loures que não é claramente a nossa linha e da qual nós nos afastámos. Mas, não sei, acho que os temas são tão diversos que também não quero estar a ter a arrogância de fazer esse comentário.

Mas é mais difícil hoje definir o que é direita e esquerda, porque é possível ser à direita em matéria económica por exemplo e à esquerda em matéria de comportamentos. Acha que há essa dificuldade?

Há essa dificuldade, com certeza, apesar de tudo naquilo que é central para a vida e um país há uma linha um pouco diferente. Quando olhamos, por exemplo, para o papel do Estado em áreas essenciais de prestação de serviços, na área social do Estado, se quisermos, é claro que uma visão mais à esquerda é mais estatizante e uma visão mais à direita é uma visão que assume vários atores, que assume uma liberdade de escolha e que se centra naquilo que é a garantia da prestação dos serviços de qualidade para todas as pessoas e, isso, continuará sempre a marcar um pouco essa diferença. Não há nenhum português - enfim, alguns haverá -, mas os portugueses no geral não são profundamente ideológicos e não adotam isso como um estilo de vida e uma forma de vida. Se a política serve para representar os portugueses, mal anda quando quer encontrar purismos ideológicos que não correspondem ao povo.

Uma das matérias que é vista como sendo de direita é a questão da segurança, que foi introduzida na última semana de campanha pelo líder do PSD, sente que há um problema de segurança neste momento no país, é uma matéria importante para o CDS?

Sempre foi e sempre será uma matéria importante. O que eu sinto é que Portugal é um dos países mais seguros do mundo, Lisboa é uma das cidades mais seguras do mundo, mas há uma perceção de insegurança, o que é mau, porque se a pessoa tem um país seguro mas se sente insegura é a sua liberdade que está coartada de imediato.

Mas acha que as pessoas se sentem inseguras agora?

Em Lisboa, por exemplo, é um tema. Da sensibilidade que nós recolhemos percebemos que em Lisboa é um tema, para mim surpreendente pois eu sinto que vivo numa cidade segura, mas as pessoas sentem, em muitas zonas, que há insegurança. Isto quer dizer que nós precisamos de reforçar este aspeto, porque se a pessoa se sente insegura e deixa de fazer escolhas, por exemplo, sair ao fim da tarde ou chegar mais tarde a casa porque tem medo, obviamente não está a viver bem e com total liberdade.

Mas o que é que acha que está na base desse sentimento?

Há uma pequena criminalidade, há, se calhar, vários sítios onde não se vê uma proximidade de segurança, por exemplo nas noites de quinta, sexta e sábado naquela zona entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré passam 100 000 pessoas e não há um número suficiente de agentes que deem às pessoas o conforto de estar ali uma força dissuasora. Eu creio que há trabalho para fazer aí, mas o que eu sinto neste Governo é que há muito pouca capacidade de lidar com as questões de segurança. Nós vimos Pedrógão, vimos Tancos e vimos uma inabilidade imensa do Governo socialista, que nunca soube tratar bem de matérias de soberania, a tratar destes assuntos. Acho que isso também provoca uma sensação de insegurança. Nós não temos um Estado forte nesta matéria, pelo contrário, o retrato que vemos é muito exasperante ao ver a incapacidade do Estado, a incapacidade do Governo, que é a cabeça da administração pública, é a cabeça do Estado, a lidar com estas matérias.

A segurança é um tema importante e nós apresentámos muitas propostas em matéria de segurança, até antecipando estas questões ligadas ao terrorismo. O CDS fez essa apresentação no Parlamento, com um pacote de cinco propostas nessa matéria, mas há outra área que também tem a ver com as questões de soberania onde eu acho que nós temos de progredir mais significativamente que é a área da Justiça. O CDS, nesta sessão legislativa e neste tempo que agora começa, dará especial atenção à área da Justiça.

O Presidente da República avisou há meses que o país ia entrar num novo ciclo político, isto após as autárquicas. Sente isso, sente que estamos numa nova fase da vida política em Portugal?

Veremos, isso é o que nós vamos ver a partir de agora. Para o CDS certamente que estamos numa nova fase, uma fase em que em duas eleições seguidas, regionais dos Açores e autárquicas mostrámos que o partido está sólido e está a crescer, mostrámos que vale a pena ter ambição, ambição de servir bem, de preparar bem as coisas, de estudar os dossiers, de andar no terreno e de apresentar propostas e isso para nós é um caminho para se fazer para alargar, para estender a todo o país e é nisso que eu estarei muitíssimo empenhada.

Há um problema evidente para resolver no PSD e há um problema que se sente no PCP pela derrota que teve ao perder dez Câmaras, nove das quais para o PS. Um conjunto grande de analistas e de comentadores verifica aí um perigo para a geringonça no sentido de o PCP poder estar mais instável. Acha que vai haver estabilidade até ao final da legislatura ou teme que aquilo que o comentário político tem dito se possa verificar, havendo mais tensão nas ruas, mais greves, mais manifestações?

Pois, vamos ver. Eu sempre disse que quem chega ao poder desta forma tudo fará para o manter e para cumprir os quatro anos. É verdade que agora houve uma alteração que não é irrelevante no que diz respeito à correlação de forças à esquerda. Agora, o que eu espero é que, se e quando isso acontecer, seja no final da legislatura seja antes, que o CDS esteja forte, preparado, com propostas e como uma verdadeira alternativa do centro-direita em Portugal e é para isso que nós estamos a trabalhar.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.