"Angola e Portugal são gémeos siameses. Não vale a pena alguém amuar"

A primeira parte desta entrevista esteve, evidentemente, condicionada pelos dois grandes acontecimentos que marcaram a atualidade em Portugal: Pedrógão Grande e o assalto a Tancos (leia aqui). Nesta segunda parte, focamos a conversa nos Negócios Estrangeiros.

Em relação a Angola, há eleições marcadas para 23 de agosto. A visita do governo português esteve prevista para este ano mas entretanto foi adiada sine die, depois de problemas relacionados com questões de justiça. Acha possível que a visita de António Costa se realize ainda neste ano?

Do nosso ponto de vista, apenas aguardamos que as autoridades angolanas façam propostas de datas. Nós já fizemos as nossas. Entretanto, entrou-se no ciclo eleitoral...

Não foram aceites. É do conhecimento público, não é?

Não. Não foram recusadas. O que aconteceu é que houve a natural aceleração do tempo da política interna, porque há eleições em Angola no próximo dia 23 de agosto - e são ao mesmo tempo para o Parlamento e para o presidente.

Legislativas e presidenciais.

Agora, o que caracteriza a atitude da política externa portuguesa é isto: prezamos muito e respeitamos a independência do poder judicial face à política externa. E isso que acabei de dizer tem como correlativo o seu exato simétrico: a independência da política externa face às autoridades judiciais. Portanto, nós não confundimos os planos. Prosseguem investigações judiciais em Portugal? Sim, prosseguem. Prosseguem sobre um ex-primeiro-ministro, não sei se prosseguem sobre membros do governo, porque não...

Não se sabe, obviamente.

... Não se sabe e não tem de se saber, prosseguem sobre autarcas, prosseguem sobre a mais variada gente, toda ela beneficiando de presunção de inocência até terem transitado em julgado as respetivas...

Mas foi isso que afetou o calendário...

E nós, evidentemente, não temos nada a dizer nem sequer a comentar sobre processos judiciais, mas os processos judiciais não condicionam a política externa portuguesa. Do ponto de vista da política externa (que é a única pela qual eu sou responsável, pela sua execução), estamos prontos para realizar uma visita ao mais alto nível de Portugal a Angola. Porque é que é uma visita ao mais alto nível? Porque nas relações bilaterais as coisas têm um crescendo: já foram vários membros do governo de Portugal a Angola, já vieram vários membros do governo angolano a Portugal. O programa de cooperação entre os dois países está em curso, as linhas de crédito estão a funcionar, a relação entres os dois ministérios das Finanças é fluida, há vários programas setoriais de colaboração entre os dois países. Eu fui e, para todos os efeitos, vou ter agora o meu momento, a que alguns chamam com graça, "eu sou o presidente da junta". Eu sou, para todos os efeitos, o número dois do governo, fui como ministro dos Negócios Estrangeiros e, do ponto de vista político, o que faz sentido agora é ir o chefe do governo ou o Chefe do Estado.

É ir o número um...

[risos] É tão simples quanto isso!

Mas é por causa de uma investigação que envolve um membro do governo angolano...

Não. Não foi isso que as autoridades angolanas disseram. Entenderam que não estavam ainda criadas as condições para que a visita se realizasse. Vamos esperar tranquilamente para que elas estejam criadas. Uma coisa é evidente para as autoridades portuguesas - e suponho, acredito, que também seja evidente para as autoridades angolanas - é que Angola e Portugal são como dois gémeos siameses. Não vale a pena a gente achar que podem ignorar-se uns aos outros, que podemos amuar uns com os outros... Quer dizer, se amuarmos teremos o trabalho adicional que é deixar de amuar, porque a proximidade entre os povos, os laços históricos, a densidade das relações económicas, a cooperação institucional é de tal monta que nós somos, se me permitem a comparação, gémeos siameses.

E eu tenho de lhe perguntar: alguém amuou nessa relação de gémeos siameses?

Não. Estava a usar metáforas para que a entrevista não fosse assim muito maçadora [risos].

A União Europeia só nesta semana recebeu um convite para o envio de uma missão de observação, depois de ter oferecido essa ajuda já, se não estou em erro, em março. Perante este tipo de situações, acha que estão garantidas as condições para uma realização efetiva de livres e justas eleições em Angola, como costuma dizer-se?

Com o poder de síntese, que também é meu, a última informação que tenho, que foi prestada publicamente pelas autoridades angolanas, é que se espera cerca de três mil observadores eleitorais em Angola e que a comunidade internacional reconhece unanimemente que, no contexto africano, as eleições que se têm realizado em Angola são das mais justas, das mais livres - e há uma terceira palavra que a gente costuma dizer, mas que não me ocorre agora - que conhecemos.

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