"Faço parte das pessoas que lamentam opção de Barroso"

A eurodeputada Maria João Rodrigues diz que Portugal terá de fazer os seus próprios esforços para sair da crise, começando pela questão da Caixa, mas também diz que os pratos da balança europeia estão desequilibrados. Lamenta ida de Barroso para a Goldman Sachs e elogia Guterres na ONU.

A desconfiança dos cidadãos na capacidade da União Europeia de melhorar as suas vidas é o grande obstáculo ao projeto europeu?

Percebo perfeitamente essa falta de confiança. A União Europeia, oficialmente, tem uma estratégia de crescimento que devia ser aplicada por todos os seus Estados membros, mas temos de reconhecer que parte destes não têm condições para a aplicar, nomeadamente por falta de meios financeiros. Vemos esse problema em Portugal. A partir do momento em que faz um esforço de reequilíbrio orçamental, como está a fazer, acaba por reduzir a margem para investir em termos públicos. Se somarmos a isso a situação que temos no sistema bancário, as condições para o investimento privado também são hoje muito mais difíceis do que há quinze anos. Estamos a viver uma situação de real estrangulamento.

Como se inverte esse círculo vicioso?

Não passa por dizer que isto vem tudo da Europa. Portugal tem de fazer o seu esforço próprio. Como se vê na questão do sistema bancário, temos de o reorganizar. E, acima de tudo, garantir que um banco de referência, como é a Caixa Geral de Depósitos, se consolida. Essa tarefa tem de ser realizada por portugueses, embora a nível europeu tenha de se empurrar nesse sentido. Por exemplo, permitindo uma capitalização pública completa da Caixa, o que na realidade, felizmente [a Europa] aceitou. Mas além do esforço que os países europeus têm de fazer, não há dúvida de que o quadro europeu tem de mudar. E essa tem sido a minha grande luta: mostrar que a zona euro, como está a funcionar, é desequilibrada, favorece países muito competitivos, como a Alemanha, mas não cria a margem necessária para crescer em países mais frágeis como Portugal.

Nestes anos de crise, a ideia de uma Europa coesa - não apenas em termos económicos - ficou fragilizada?

Sem dúvida. Basta olhar para o que era a linguagem europeia há quinze anos. O princípio da coesão económica e social estava presente em todos os documentos, em todos os discursos. E na prática real porque, de facto, os fundos estruturais e a política de coesão eram consideradas uma peça central da integração europeia. Hoje estamos a avançar para uma situação em que até está em discussão se a política de coesão, como tem sido praticada, faz sentido. Há atores políticos-chave com esse discurso.

Durão Barroso, pela forma como saiu, entrando para a Goldman Sachs, contribuiu para afastar os cidadãos das instituições europeias?

Sim, faço parte das pessoas que lamentam publicamente essa opção tomada por Durão Barroso. Acho que essa opção mostra que ele nunca terá percebido até que ponto o sistema financeiro desregulado foi identificado claramente pela opinião pública europeia como o fator central da crise gravíssima que se viveu. Se tivesse percebido, nunca daria o passo, após sair de uma função pública daquela importância, de aceitar colaborar com um dos bancos considerados mais responsáveis por tudo aquilo que se viveu.

António Guterres, do qual foi ministra, chega a secretário-geral da ONU num momento crítico. Quem o escolheu viu nele as capacidades para lidar com esta situação?

Como conheço António Guterres, não tenho dúvida de que foi a escolha certa para este lugar altamente exigente. Ainda mais exigente por causa do contexto criado, que decorre da acumulação de crises, entre as quais a dos refugiados, ou de polos de conflito gravíssimos como o que estamos a viver na Síria e no Iraque, mas também por o mundo estar a mudar profundamente, também com medidas de índole nacionalista, como temos na Rússia ou na Turquia e, mais recentemente, nos Estados Unidos. São líderes que não se identificam com a lógica do sistema multilateral que António Guterres hoje personifica.

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