Bernardo Pires de Lima: "Diplomacia económica não é política externa"

Ensaio Portugal e o Atlântico, que defende reposicionamento de Portugal face à UE e EUA, chega às livrarias na quarta-feira

Diz que há "um vazio no desenho da política externa". Porquê?
A política externa tem de resistir às intempéries que acontecem num dos seus pilares tradicionais. No caso da UE, fomos procurar alternativas a destinos económicos de parceiros como a Espanha, a França e à debilidade da bancarrota, quando não precisávamos de ter ido a correr. Foi confundir política económica com política externa. Não conseguimos maximizar a geografia, recursos humanos, relações externas extraeuropeias nem potencial marítimo. Se o tivéssemos feito, teríamos passado a crise europeia com outra robustez. Daí a proposta de alicerçar no Atlântico fatores estruturais que nos blindem dos momentos menos bons do pilar europeu.
Confunde-se diplomacia económica, laços comerciais, com política externa e prioridades políticas?
Exatamente. Diplomacia económica é um vetor da política externa. Deve estar estruturada em relações de Estado sólidas e oportunidades de mercado que surjam, não subverter os interesses externos com regimes com quem não partilhemos valores, identidades, dinâmicas diplomáticas, segurança e modelos políticos. Além disso, a diplomacia económica foi de tal forma trabalhada no discurso político que quase subverteu a natureza da diplomacia, política e clássica, fazendo dos seus membros minicaxeiros-viajantes que apressadamente procuraram outros papéis para os seus perfis diplomáticos.
Portugal pode ser um pivot geopolítico e económico no Atlântico, entre potências como EUA, Brasil, Reino Unido, Alemanha ou França?
Precisamos de ter fatores diferenciadores e competitivos. Geografia e recursos humanos, características de equilíbrio regional (não temos inimigos ou adversários de monta, somos uma democracia consolidada), tudo isso pode ser um fator de atração de investimento, de diferenciação política num quadro geográfico entre a Europa e o Atlântico. Acho possível... ao contrário do que habitualmente escrevo no DN, este é um ensaio verdadeiramente otimista.
A China tem vindo a assumir papel de relevo na economia portuguesa, tem uma influência crescente...
Uma coisa são oportunidades de negócio, outra os pilares de política externa. A nossa história na Ásia deve ser valorizada, mas essa geografia não pode ser uma prioridade da nossa inserção internacional. Pode ser um complemento, não temos dimensão para jogar no tabuleiro asiático e a geografia da Ásia-Pacífico tende a ser muitíssimo conflitual nos próximos anos. Vejo muito mais potencial no Atlântico por causa da estabilidade, da falta de conflitualidade intraestadual, da dinâmica comercial, da revolução energética, o haver uma potência líder aceite por todos... nada disto acontece na Ásia.
Como pode Portugal redimensionar o seu poder entre UE e EUA?
Precisa de inverter o declínio recente da relação bilateral, de encontrar pontos de encontro com os EUA para lá da segurança e da defesa. Há três pilares: o comercial, que pode ser potenciado a nível bilateral ou no quadro do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento, em que Portugal deve ser um dos principais defensores de um bom acordo, não um rápido; depois aproveitar a redução energética em curso nos EUA, mas também no Canadá, México e em toda a bacia atlântica para poder ser uma plataforma de entrada do gás [de xisto] na Europa; e também pode ser um hub da segurança marítima atlântica: já somos a sede da Agência Europeia de Segurança Marítima, da CPLP, do Centro Marítimo de Análises e Operações contra o Narcotráfico. Poderíamos ter uma escola NATO de formação de militares africanos...

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