Enfermeiros têm de fazer turnos duplos para tapar buracos

Admissão de mais profissionais é uma das reivindicações dos enfermeiros, que estão em greve hoje e amanhã. Adesão pode chegar a 90%

Enfermeira há nove anos, Ana, de 30, faz parte do grupo de profissionais com contratos individuais de trabalho e horário de 40 horas semanais. Trabalha por turnos no serviço de internamento de um hospital do Sul do país. "Trabalhamos lado a lado com outros colegas que passaram às 35 horas semanais e temos o mesmo ordenado-base", lamenta. Fazer 40 horas já é "altamente extenuante", mas, muitas vezes, ainda tem de "fazer turnos seguidos" devido à falta de profissionais. "Sentimos revolta e uma profunda injustiça."

Ana vai aderir à Greve Nacional dos Enfermeiros, marcada para hoje e amanhã, para exigir a reposição das 35 horas de trabalho para todos os enfermeiros. Ao DN, Guadalupe Simões, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), disse ontem que esperava uma adesão próxima dos "80% a 90%" em todo o país, sendo os serviços mais afetados aqueles que não estão obrigados a garantir cuidados mínimos, nomeadamente consultas e cirurgias programadas. "À partida", prosseguiu, os hospitais deverão informar os utentes e tratar dos novos agendamentos.

Uma das reivindicações é a admissão de mais enfermeiros. "Entre janeiro e agosto foram admitidos cerca de 2700 enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas a maioria para substituir ausências prolongadas", diz Guadalupe. Na prática, revela, o aumento efetivo foi de apenas aproximadamente 500 profissionais. E os problemas de exaustão agravam-se. "Os enfermeiros têm de fazer horas a mais e que não são consideradas trabalho extraordinário." Segundo a representante, "95% dos enfermeiros fazem mais 20, 30 ou 40 horas ao fim de quatro semanas". Em causa, refere, "está uma sobrecarga de trabalho e tempo que é retirado para outras coisas".

Destacando que lidar com o sofrimento dos outros "é extenuante física e psicologicamente", Ana diz que "o facto de serem exigidas mais horas também tem impacto na saúde dos enfermeiros, o que faz que haja mais colegas a adoecer". "Precisamos de estar saudáveis para cuidar bem", alerta.

Perante a ausência de um enfermeiro, por doença ou outro motivo, os hospitais tentam encontrar outro que o substitua. Mas os profissionais estão "fartos", diz Guadalupe. Se não for encontrada uma solução, o enfermeiro que faz o turno anterior ao seu tem de fazer o seguinte. "Se não for substituído, tem o dever de continuar ao serviço." Chegam a ser 17 horas seguidas.

Em cima da mesa estão matérias que "os enfermeiros reivindicam há vários anos", razão pela qual Guadalupe diz que as expectativas para a greve nacional são "altas". "Os que têm 30 anos de serviço ganham praticamente o mesmo do que aqueles que entram agora. Não há grande diferenciação salarial", critica. Além disso, os enfermeiros lutam pelo pagamento a 100% das horas penosas e extraordinárias, pela progressão na carreira, pelo suplemento remuneratório de 600euro aos enfermeiros especialistas.

Carla (nome fictício), enfermeira no Centro Hospitalar do Oeste, diz que "concorda inteiramente com os objetivos da greve", mas não irá aderir "com medo de represálias". É aquilo a que se chama um "falso recibo verde": "Obedeço a uma hierarquia, sou obrigada a cumprir horários, tenho as mesmas obrigações. Mas não tenho qualquer regalia." Tem 23 anos e trabalha há cerca de um ano naquela unidade de saúde. Nunca tirou férias, nem tem planos para tirar num futuro próximo. "À partida trabalho 40 horas por semana, mas por vezes faço 50 ou mais." Recebe entre sete e oito euros por hora. "Mas depois há um corte enorme com o IRS e a Segurança Social."

"É revoltante a situação em que estamos. Há um sentimento de grande injustiça. Vivemos sempre à espera de que abra um novo concurso", desabafa a jovem.

Nos últimos cinco anos, saíram de Portugal quase 13 mil enfermeiros. Carla e Ana conhecem muitos profissionais que emigraram, mas querem manter-se cá. "Tenho esperança de que isto mude", diz Carla.

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