Empresa de amigo de Sócrates é suspeita de apenas servir para distribuir dinheiro

Investigação não estará fechada em setembro. Ministério Público concentra-se nas ligações diretas e indiretas de José Sócrates ao Grupo Lena e nos negócios da PT para justificar crime de corrupção

Foi a 1 de setembro de 2010 que Carlos Santos Silva realizou a única transferência direta e documentada para o amigo José Sócrates, na altura primeiro-ministro. Este tinha dez euros na conta e, segundo a investigação da Operação Marquês, os 7500 euros transferidos pelo amigo permitiram pagar uma conta no Hotel Ritz, a prestação de um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos e um prémio de um seguro.

Já que os milhões de euros que a investigação alega pertencerem ao ex-governante estavam em nome do amigo, falta uma prova direta que ligue Sócrates ao dinheiro. Por isso a equipa liderada pelo procurador Rosário Teixeira continua a tentar juntar peças secundárias. A mais recente prende-se com a empresa XLM, de Santos Silva, que segundo a Inspeção Tributária só teve como finalidade distribuir dinheiro.

A menos de dois meses do prazo dado pelo diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, Amadeu Guerra, para apresentar resultados (15 de setembro), o procurador Rosário Teixeira e o inspetor tributário Paulo Silva ainda parecem apostados em esmiuçar toda a contabilidade das empresas ligadas a Santos Silva e ao Grupo Lena, procurando encontrar elementos que suportem a tese da corrupção. Se adicionarmos a isto a investigação dos negócios da PT ligados à OPA da Sonae e à venda da Vivo à Telefónica, dificilmente o processo estará concluído a 15 de setembro. Resta saber se o diretor do DCIAP aceitará prolongar o prazo fixado. Até porque, como o próprio Amadeu Guerra escreveu, "só por razões excecionais, devidamente justificadas e fundamentadas, poderão servir de base à fixação de outro prazo".

Num último relatório da autoria de Paulo Silva, o inspetor das Finanças decompõe a relação entre as empresas de Carlos Santos Silva e o Grupo Lena. Em resumo, a inspeção tributária concluiu que, por exemplo, a XLM teve apenas como "propósito permitir a distribuição de verbas a pessoas relacionadas com os arguidos José Sócrates [suspeito de corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais] e Carlos Santos Silva, em diversas situações do interesse pessoal e direto do primeiro". Isto é, segundo a contabilidade, a XLM tinha como cliente único o Grupo Lena, sendo que, além de outras despesas, pagava avenças à ex-mulher de Sócrates, Sofia Favia, e a Ana Bessa, mulher do eurodeputado do PS Pedro Silva Pereira, cujo filho também passou uma temporada com Sócrates em Paris.

Ao mesmo tempo, os milhares de documentos apreendidos permitiram à investigação perceber que António Pinto de Sousa, irmão de José Sócrates, entretanto falecido, tinha um contrato com uma empresa do Grupo Lena, a Rentlei, para um Aluguer de Longa Duração de um automóvel, um Audi A5 Sportback, 2.0 TDI. Com um ordenado médio, que não chegaria a mil euros/mês, conseguiu durante anos suportar uma prestação entre os 600 e os 720 euros mensais. Daí que a investigação esteja a tentar apurar a origem de vários depósitos feitos na sua conta bancária através de multibanco.
Ontem, em conferência de imprensa, José Sócrates reagiu a uma entrevista de Amadeu Guerra, na qual o diretor do DCIAP não foi taxativo a garantir como prazo final da investigação o dia 15 de setembro: "O que estou aqui a fazer é denunciar o que está a acontecer. Quanto a haver ou não haver acusação, uma coisa digo: processarei o Estado porque o Estado teve um comportamento de abuso inqualificável." "Ele não tem o direito, com aquela arrogância, de vir dizer na televisão: logo se vê", acrescentou o antigo primeiro-ministro, atribuindo uma motivação política ao processo que o envolve desde novembro de 2014 (e em que já cumpriu dez meses de prisão preventiva), sobretudo uma eventual candidatura presidencial.

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