DIRETO. Guterres promete paridade total nas Nações Unidas

Siga em direto a prova oral do ex-primeiro-ministro português perante a Assembleia Geral da Nações Unidas. São oito os candidatos

Brincando entre amigos, António Guterres já lamentou não ter condições para iniciar a tempo da sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas uma operação de mudança de sexo.

Este é, assumidamente, o principal handicap da sua candidatura: não ser mulher. E isto porque o processo de sucessão do sul-coreano Ban Ki-moon foi lançado havendo um propósito consensualizado: que a próxima pessoa a ocupar o posto seja do sexo feminino.

Siga aqui em direto a emissão das Nações Unidas:

Guterres será o terceiro a falar

Sabendo que a pressão neste sentido é muito forte, o antigo primeiro-ministro de Portugal e até há pouco alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados aposta na promessa de reforçar fortemente a presença feminina em todos os níveis da estrutura da ONU. Num mandato (cinco anos) quer que haja paridade total homens-mulheres em todos os níveis da organização. A promessa consta no manifesto programático da sua candidatura. Hoje, em Nova Iorque, a partir das 15.00 (hora local, 20.00 em Lisboa), António Guterres iniciará a sua prova oral perante representantes dos países com assento na Assembleia Geral das Nações Unidas. É a primeira vez que num processo de escolha de um secretário-geral da ONU haverá audições públicas prévias dos candidatos. Duração prevista de cada uma: duas horas.

A audição do ex-primeiro-ministro português será antecedida das de Igor Luksic (ex-primeiro--ministro do Montenegro) e de Irina Bokova (búlgara, atual diretora-geral da Unesco).

Amanhã serão realizadas mais três audições: a Danilo Türk (ex--presidente da Eslovénia), Vesna Pusic (vice-primeira-ministra da Croácia até janeiro passado) e Natalia Gherman (ex-primeira-ministra da Moldávia).

As provas orais terminarão na quinta-feira com a audição de Helen Clark (ex-primeira-ministra da Nova Zelândia) e de Srgjan Kerim (um ex-MNE da Macedónia). Já há organizações não governamentais a organizar debates entre os candidatos, mas António Guterres ainda não decidiu se irá ou não.

Quanto à questão da paridade homens-mulheres, o candidato português diz que apresentará, caso eleito, um road map calendarizado para implementação das medidas, sendo para já a prioridade do reforço do papel das mulheres nos cargos de topo (senior staff). Guterres promete paridade no Conselho Executivo da ONU (o órgão que junta os chefes executivos de todas as agências da estrutura). Também promete, neste capítulo, uma "mudança de atitude" nas nomeações dos representantes especiais e enviados especiais do secretário-geral das Nações Unidas.

O número de candidatos a secretário-geral da ONU já vai oficialmente em oito (Guterres incluído). A última candidatura a aparecer - e ainda nem tem manifesto programático publicado - foi a da ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark. Atualmente chefe do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Helen Clark tem uma relação privilegiada com o regime chinês.

A China é um dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (os outros são os EUA, o Reino Unido, a França e a Rússia) e não há diplomata que desconheça que ninguém chegará alguma vez a secretário-geral da ONU se um destes cinco países vetar a candidatura.

Pelas regras internas de rotatividade regional, o(a) sucessor(a) de Ban Ki-moon deveria ser originário(a) da Europa de Leste - o que é também um problema para Guterres.

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