Edgar Silva. Feijoada em Palmela para abrir o dia em que se falou de pobreza

O combate pela "justiça social" esteve ontem na agenda do candidato comunista. "Não basta chorar, dizer ai que pena dos pobres. É preciso agir nas causas"

As hortaliças, as carnes e o vinho eram todos da cooperativa local e as travessas já fumegavam nas mesas, quando começaram a chegar os convidados especiais: mais de 200 trabalhadores da Câmara Municipal de Palmela que quiseram almoçar com Edgar Silva. A cozinheira foi uma engenheira civil, chefe de divisão de logística do município de maioria absoluta comunista. Cristina Rodrigues, 51 anos, tinha estado nas instalações na véspera a cozer as carnes e enchidos, "com extra sal e louro para apurar" - o segredo quando se cozinha para tanta gente e ainda se sinta o tempero.

Edgar Silva tinha na agenda falar de "pobreza", de "desigualdades sociais" e a tradicional feijoada da caravana comunista não lhe tirou a inspiração. As notícias do dia foram oportunas para os objetivos da mensagem política. Um estudo da organização não governamental britânica, Oxfam, ontem divulgado, revelava que a riqueza acumulada por 1% da população equivale, pela primeira vez, à riqueza de 99% dos restantes e que as 62 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo, em riqueza, que a metade mais pobre da população mundial. Depois de salientar este "fosso dramático de clivagem social" que resulta da "ganância voraz deste 1% de ricos", o candidato comunista focou-se na realidade portuguesa. "Em Portugal um terço das pessoas são pobres, 3 milhões e desses, 40% são trabalhadores", frisou. "Isto é inadmissível e intolerável", assinalou. No seu entender a valorização dos salários e das pensões de reforma e os apoios adequados da segurança social, são instrumentos para combater esta pobreza. "É preciso ir às causas estruturais, às raízes dos problemas. Não chega chorar e dizer 'ai, que pena, é pobre, ai que pena, tanta miséria', não basta constatar e ter pena, quando até parece que dá jeito a alguns. É preciso agir e é essa ação que distingue esta candidatura", asseverou.

O ataque do dia, à direita, veio, mais uma vez pela "ofensiva recorrente" de tentativas de "mutilação" da Constituição da República Portuguesa, no que diz respeito a "direitos fundamentais" que quem trabalha. "Na última revisão constitucional até quiseram acabar com a figura das comissões de trabalhadores", lembrou. "Para a candidatura, de Marcelo Rebelo de Sousa, apoiada por PSD e CDS, há uma enorme reserva mental, que se transforma em ressabiamento, ressentimento", afirmou.

Confrontado com a notícia do DN de ontem, sobre a nova avaliação da troika, pós-programa de ajustamento, que quer despedimentos mais fáceis, Edgar Silva, deixou clara a opinião dos comunistas: "Já é tempo de Portugal e os seus órgãos de soberania terem direito à auto-determinação e à sua afirmação própria. Chega de subserviência e do vergar de espinha aos interesses que não são os do nosso país", sublinhou, quando questionado pelos jornalistas. E deixou um aviso à missão: "tudo quanto procure vulnerabilizar vínculos de trabalho e atente contra os direitos dos trabalhadores, não hesitarei em usar todos os poderes como Presidente da República, incluindo o poder de veto, para impedir que sejam usurpados direitos dos trabalhadores em Portugal".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG