"É tragédia atrás de tragédia." Uma aldeia que aprende a lidar com a morte

O fogo, que matou 8 pessoas e feriu 38 (quatro em risco de vida), criou uma ferida difícil de sarar, numa comunidade onde todos se conhecem

Em Vila Nova da Rainha, o dia seguinte foi passado a desabafar os traumas de uma noite de pesadelo, perante uma vasta plateia. Marcelo Rebelo de Sousa apelou à resistência e solidariedade de todos

Ninguém está preparado para se confrontar assim com a morte. Nem quem se habituou a encará-la de pá e enxada na mão. "Perdi muita gente, muitos amigos. Não sou aqui da freguesia, mas vivo cá há 30 anos. Acolheram-me com muito amor e carinho, ajudaram-me a criar os meus filhos e, agora, estou a perder essas pessoas...", balbucia, de voz trémula, Luís Filipe Pereira. Nos próximos dias, o coveiro de Vila Nova da Rainha vai enterrar quatro conterrâneos: são metade das vitimas mortais do incêndio que abalou, anteontem à noite, a pequena localidade do concelho de Tondela.

"Não vou levar um tostão que seja. E, se pudesse, até não o fazia", confessa, ao DN, Luís Filipe, diante do palco da tragédia - o edifício-sede da Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha. Ali, o incêndio - que se terá iniciado numa salamandra e rapidamente propagado ao teto falso do 1.º andar, onde decorria um torneio de sueca, com a participação de mais de 60 pessoas - criou uma ferida difícil de sarar, numa comunidade onde todos se conhecem. Morreram oito pessoas, sete homens e uma mulher, na maioria entre os 60 e 70 anos: quatro eram Vila Nova da Rainha (Anselmo Abreu, Maria Máxima da Silva, Sérgio Santos e Vítor Lopes), três das localidades vizinhas de Lobão da Beira, Moledos e Muna (também do concelho de Tondela) e uma de São Joaninho (Santa Comba Dão). E 38 ficaram feridas - ontem, 29 ainda se encontravam hospitalizadas, com quatro a correrem risco de vida.

Na manhã após o incidente, uma névoa espessa paira sobre Vila Nova da Rainha, como uma camada de inverosimilhança. Luís Filipe Pereira abana a cabeça, enquanto lamenta: "é tragédia atrás de tragédia", a abalar este "freguesia pequenina, de gente humilde" - com cerca de 300 habitantes. Em outubro, foram os fogos florestais, que fustigaram a região centro e ali deixaram "um ferido grave e várias casas destruídas" (além de enegrecerem todos os montes em volta). Agora, foi um insólito incêndio urbano, que espalhou o luto numa comunidade que tentava voltar à normalidade.

"Embrulharam-se nas escadas"

"Foi tudo no ápice de um minuto. Não houve explosão. Começou a arder no tubo da saída da salamandra, com um "fumozinho", um "clarãozinho", e propagou-se logo ao teto todo. Eu tive a sorte de ser um dos primeiros a fugir", descreve Carlos Ferreira, explicando que as pessoas que se encontravam no 1.º andar da associação se precipitaram para as duas escadas de acesso à saída, mas só as mais rápidas e que seguiram pelas trajeto habitualmente utilizado escaparam ilesas (no pânico da fuga, muitas das que escolheram a outra porta, que abria para dentro, terão caído e sido vitimadas pelas chamas ou pelo fumo). "As pessoas embrulharam-se nas escadas e ficou lá tudo", acrescenta o sobrevivente.
O mesmo narra José Pereira, membro da direção da coletividade local e também participante no competição - um dos ex libris da localidade, reunindo há 16 anos dezenas de amantes da sueca do sul do distrito de Viseu. "Por azar, o torneio estava a começar. Ainda estavam todas as 30 equipas em atividade. Eram 60 pessoas [mais árbitros de mesa e outras pessoas de apoio à prova]. Gritaram "é fogo, é fogo!" e a malta entrou em pânico. Tentaram safar-me o mais rápido possível, mas nem todos conseguiram: uma pessoa que estava a jogar na minha mesa, o Sérgio, morreu", descreve.

Carlos e José, dois dos primeiros a chegar à rua, pelas escadas de acesso ao rés-do-chão, juntaram-se logo a outras pessoas que estavam nessa divisão [que não foi afetada pelo incêndio], a partir vidros e tentar arrombar a porta que bloqueava a fuga dos restantes. "Estava na sala do bar, a ver o jogo [Sp. Braga-Benfica, na televisão]. Apareceram duas ou três pessoas a dizer que havia fogo em cima. Saí logo para a rua e estranhei não sair mais gente. Quando tentámos abrir a outra porta, não conseguimos porque os corpos estavam empilhados lá atrás. Só o conseguimos ao fim de uns 20 minutos, com um carro a puxar a porta, com umas cordas. Fizemos o que pudemos. E, se a gente não partia esta porta, tinham lá ficado muitos mais...", relata Júlio Dias.

Júlio é um das largas dezenas de habitantes locais que ali juntam, na manhã seguinte, a desabafar os traumas de uma noite de pesadelo, perante uma vasta plateia de amigos, conhecidos, jornalistas e simples mirones. Só toque do sino da igreja vizinha, a chamar os fiéis para a missa, diminui da cadência dos carros que se aproximam em marcha lenta do Largo António Rodrigues Borges - sede da associação -, para tentar um rápido vislumbre do local da tragédia. No entanto, mal termina a eucaristia dominical, a multidão multiplica-se - uns de rosto fechado e outros de telemóvel na mão, para fotografar a visita do Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo elogia operações de socorro

Acompanhado do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e do presidente da Câmara Municipal de Tondela, José António Jesus, o PR agradece a todas as "instituições intervenientes, que foram inexcedíveis e inultrapassáveis" no socorro às vítimas. "Em tão curto espaço de tempo, numa situação difícil, foram excecionais todas, da saúde à proteção civil, passando pelo contributo da Força Aérea, pelas estruturas de socorro mais próximo ou mais distante, de transporte, de evacuação: tudo funcionou", destaca Marcelo Rebelo de Sousa, antes de apelar à resistência da comunidade afetada pela tragédia. "Nesta hora de dor, a vossa dor é a nossa dor; a vossa solidariedade é a nossa solidariedade; a vossa resistência é a nossa resistência. Todos juntos, saberemos enfrentar esta hora e ajudar todos aqueles que mais precisam", sublinha.
O mesmo espírito de resiliência pede o presidente da Junta de Freguesia de Mouraz e Vila Nova da Rainha, Ventura Correia Gonçalves, ainda mal refeito do choque que abalou essas terras. "Vão ser uns tempos muito difíceis. Vai ser mesmo complicado. Mas temos de ser fortes e voltar a por esta associação a funcionar", diz, lamentando que o torneio da sueca, "um convívio familiar, que trazia muita gente de fora" à localidade, tenha tido um desfecho "desolador". Para Vila Nova da Rainha, este duro confronto com a morte vai custar a sarar.

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