Dois mil voluntários ajudam a fazer do Avante a "festa linda, pá"

A Festa abre hoje as portas ao público. Faz 40 anos e está mais espaçosa do que nunca. A entrada principal fica agora do lado da Quinta do Cabo, mesmo com vista para o rio.

Aos 40 anos, a Festa do Avante está mais espaçosa, agora que integra a Quinta do Cabo, junto à da Atalaia, na Amora (Seixal). Ontem, no último dia das Jornadas de Trabalho que reuniram dois mil voluntários do PCP, a trabalharem de manhã à noite e a dormirem no parque de campismo da Festa, sentia-se a alegria de quem pregava os últimos pregos e de quem pintava os últimos painéis.

A entrada principal fica agora do lado da Quinta do Cabo, com vista para o rio, onde está situado o Espaço Central, o Espaço Criança (agora mais alargado) e os pavilhões do Algarve, Porto e Coimbra.

Fernando Gomes, 64 anos, voluntário há 28 anos, falou à entrada do recinto "da malta que vem para aqui gastar dinheiro" mas a pensar num objetivo : "Para que amanhã as pessoas possam chegar aqui e dizer: "Ena, que linda está a festa pá!". Assim se vê a força de um PC. O "camarada" Fernando Gomes, reformado como técnico de telecomunicações, é dos mais antigos entre os voluntários.Tal como acontece com todos os outros, a organização do PCP aproveitou a experiência profissional de Fernando e colocou-o a cargo das comunicações da Festa.

"Comecei por ser voluntário quando a Festa ainda era em Loures, em 1988 e 1989. As minhas filhas vieram à Festa do Avante ainda usavam biberon", conta Fernando.

Os preparativos começam em junho quando os técnicos do PCP projetam como vai ficar o espaço. Durante a última semana de agosto, em que os voluntários são chamados em massa para as Jornadas de Trabalho, novos e velhos ficam a dormir na Quinta da Atalaia, no parque de campismo. É o caso de Fernando, que reside em Oeiras mas acampa na Atalaia nesta última semana. "As minhas netas estão cá comigo, uma tem 12 anos, outra 9 e a outra sete. Chega o mês de agosto e começam logo a falar em vir para a Festa".

Ainda do lado da Quinta do Cabo,um painel impressiona pelo traço neorealista dos revoltosos, a negro. É alusivo à Revolta do 31 de Janeiro de 1891, feita a partir do Porto, o primeiro movimento revolucionário que tentou implantar o regime republicano no país. Susana, 32 anos, uma "camarada" portuense, era uma das voluntárias a dar os últimos retoques de pintura nas figuras imponentes do povo. "Sou arquiteta. Faço isto por uma questão de militância. Venho há três anos para aqui trabalhar como voluntária". Susana tirou férias para vir ajudar. Os seus familiares do Porto virão também mas apenas na sexta, para aproveitarem a festa até domingo.

Nos altifalantes do gigantesco espaço das quintas ecoa uma voz grave, de comando: "Camaradas, vamos dar início às jornadas de limpeza da festa!". Formam-se brigadas de limpezas para retirar lixo do caminho. Durante a Festa, de sexta a domingo, serão eles as "formigas" que pela noite dentro arrumam o que as "cigarras" festivas deixaram no chão.

O pai "pegou" a militância

No Espaço Central, Nuno Franco, de 38 anos, designer, residente em Lisboa, ajudava a montar uns painéis. Começou a vir ainda bebé à Festa do Avante. "O meu pai é militante e também anda aí a ajudar", conta Nuno. "Os meus pais vinham todos os anos, desde 1976". O pai tem 67 anos e será sempre voluntários na Festa.

Nuno conta que também vai buscar à sua profissão de designer o recurso de "encontrar soluções" para tarefas da Festa. "O que distingue a Festa do Avante dos festivais ou outras festas não é a política, diretamente, mas é o modo como somos tratados aqui. São pessoas normais a trabalhar aqui por gosto e o que transmitem cria um ambiente muito especial". E lembra que "há quem decida ir à Festa antes de saber quem lá vai tocar".

Muito para além dos concertos. É o espírito. Num dos bares do pavilhão do Alentejo, o sorriso cativante da "camarada" alentejana Lúcia Cardoso convida à conversa. "Sou de Portel, tenho 33 anos e há 33 anos que venho à Festa do Avante", conta, entre risos. "A minha mãe trazia-me desde bebé". Lúcia é professora de Educação Especial em Portel e funcionária do partido. Na família "a maior parte" está ligada ao PCP. Lúcia montou a tenda há 15 dias no recinto. Diz ela que a Festa "é o modelo do que defendemos para a construção de uma nova sociedade". Teresa Dias, a assessora de imprensa de 52 anos , concorda. Já vem à Festa desde os 19, quando ainda era na Ajuda, em Lisboa.

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