Direita desafina e só alinha na hora de atacar coligação de esquerda

Estratégias diferentes para o OE 2017, atropelos na comunicação e desconforto. PSD e CDS só alinham para atacar a geringonça

Assunção Cristas estava a meio do discurso quando foi sentida alguma agitação entre os jornalistas das televisões e rádios. "O Passos já está a falar, o Passos está a falar!", diziam uns para os outros. A surpresa dominou o rosto de assessores e dirigentes do CDS que se encontravam por perto. "Mas como é possível? Tínhamos combinado que a Assunção até antecipava o discurso para não coincidir com a intervenção de Passos...", desabafava um deles com a incredulidade estampada na cara.

O episódio que aconteceu ontem durante o encerramento da Escola de Quadros do CDS e da Universidade de Verão (UV) do PSD pode parecer um pormenor, mas como o diabo costuma estar mesmo nos detalhes, a leitura pode ter outra dimensão: a direita está com dificuldade em entender-se.

Do lado do PSD, a justificação é de que as duas intervenções anteriores a Passos (a do reitor da UV Carlos Coelho e do líder da JSD, Simão Ribeiro) duraram menos do que o previsto. Foi um acaso, mas criou desconfiança entre os antigos parceiros de coligação.

Há um ano, PSD e CDS andavam juntos em campanha eleitoral, mas as respetivas rentrées mostram que estão cada vez mais desacertados e distantes. Sobre a Câmara de Lisboa, não falam, para o Orçamento têm estratégias diferentes e só estão afinados num ponto: no ataque ao governo.

Antes disso, já as próprias datas da realização das respetivas escolas tinham deixado um amargo de boca no CDS. A Universidade do PSD costuma ser na última semana de agosto, mas neste ano, sem acertar com os centristas, avançaram-na para os primeiros dias de setembro, em cima da Escola dos centristas, que há três anos é na mesma data. "Não foi positivo", admitiu ao DN o coordenador da Escola centrista, Diogo Feio. A isto vem juntar-se a Câmara de Lisboa, com o CDS a antecipar-se com a possível candidatura de Assunção Cristas e a propor ao PSD uma aliança e o PSD a escorraçar liminarmente essa hipótese.

Estratégias diferentes

Em Castelo de Vide, Passos deu a entender que não entrará em qualquer negociação no Orçamento do Estado para 2017, enquanto Cristas, em Peniche, já apresentou propostas para o documento.

O líder da oposição recusa ser "cúmplice de uma solução em que o país tenha de passar por novos sacrifícios apenas para satisfazer um problema de sobrevivência política". Passos avisa também que "no futuro [os partidos que apoiam o governo] não pensem em responsabilizar pelos resultados os que agora chamam a atenção para os erros que estão a ser cometidos". Como Passos tinha dito no fim de semana, em matéria de orçamento a esquerda "pode tirar o cavalinho da chuva": não conta com o PSD.

Já Assunção Cristas, depois de elencar meticulosamente alguns exemplos das consequências negativas, na confiança dos investidores e no crescimento da economia, das cedências de António Costa "para satisfazer as clientelas das esquerdas unidas", como a reposição imediata dos salários na função pública, as 35 horas, a reversão dos contratos dos transpotes ou fim dos exames em fim de ciclo, avançou com propostas concretas. Uma para estimular a economia, através de um "Crédito Fiscal Reforçado para o Investimento, que permita reduzir a taxa efetiva de IRC para cerca de 5,5% para as empresas que fizerem investimento produtivo". Outra baseada em benefícios fiscais para novas empresas e projetos. Também na Educação Cristas prometeu não desistir de "trabalhar para conseguir consensos e entendimentos", e deixou uma proposta de reorganizar os ciclos escolares, destacando os 5 anos, último do pré-escolar, como "ano essencial na formação das crianças".

Assunção Cristas destacou os indicadores da execução orçamental - mais despesa com salários e juros de dívida, menos investimento público e menos ação social - para acentuar as contradições do aliança de esquerda, mas, ao contrário do PSD, não houve referências a um novo resgate. Em vez de apostar no fracasso da coligação de esquerda, o CDS prefere ampliar as consequências negativas para o dia-a-dia das pessoas - principalmente para a classe média - das suas opções.

Passos Coelho, sem acenar diretamente com o fantasma de um novo resgate - como fez na terça-feira a sua vice-presidente, Maria Luís Albuquerque, numa aula também em Castelo de Vide -, defende que o atual governo está a "empurrar o país para o passado" e falou em "riscos que estão a ser tomados", "resultados que inspiram preocupação" e num governo "condenado ao fracasso e ao fiasco".

O líder da oposição acusa o governo socialista de se concentrar "na governação a curto prazo, no imobilismo e tem uma incapacidade de encontrar entendimentos para reformas que têm de ser feitas". Acredita que para evitar novos sacrifícios são necessárias reformas, acusando o atual governo de não ter "capacidade reformista", pois "sempre que tentam reformar desentendem-se" e "só estão de acordo para reverter reformas que fizemos".

Passos - tal como Cristas - apontou alguns dos sinais que considera serem "preocupantes". O líder do PSD lembrou que os socialistas "andaram a dizer que iam acabar com a austeridade e agora não têm dinheiro para pagar aos fornecedores de saúde ou às associações culturais". Destacou ainda que o investimento está "a cair a pique" e criticou a opção do governo de devolver rendimentos a "um ritmo acelerado".

"Que se lixe" voltar já ao governo

Numa coisa os dois ex-parceiros de coligação entendem-se: na crítica ao governo. E não parecem ter pressa para ir a votos. Apesar de denunciar um governo que debilita a imagem do país, Passos dá um sinal de calma para consumo interno do partido: "Não temos pressa de chegar ao governo para nos desforrarmos."

Recordando os tempos em que disse "que se lixem as eleições", Passos afirmou que continua a preferir "salvar o país do que salvar a pele". E garantiu: "Nunca nos ouvirão dizer que se lixe o país."

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