O dia em que o assessor de sempre foi ignorado pelo Presidente

Fernando Lima sai da sombra de Cavaco Silva para apontar dedo ao antigo superior. Um "mistério", a sua queda.

Fernando Lima é o homem que sai agora da sombra de Cavaco Silva, onde viveu em silêncio por opção nos últimos seis anos, para ajustar contas antigas com meio mundo da política e da comunicação social, nomeadamente José Sócrates e os socialistas, mas também o DN ou Luís Montez, genro de Cavaco Silva (e hoje acionista do grupo proprietário do DN). Nem o ex-Presidente da República sai incólume destas memórias, Na Sombra da Presidência - Relato de 10 anos em Belém, que é lançada esta quinta-feira, pelo antigo assessor de imprensa de Belém.

Depois de ter sido afastado das funções de assessor de imprensa na Presidência da República - pelo envolvimento no "caso das escutas" - é a 10 de junho de 2010, depois do almoço do Dia de Portugal, em Faro, que Fernando Lima é confrontado com a frieza de Cavaco. O então Presidente e a mulher, Maria Cavaco Silva, ignoram o consultor que ocupa um gabinete no sótão do Palácio de Belém. "Verdadeiramente chocante, para mim e para a minha mulher, foi quando Cavaco Silva e mulher passaram por nós (...) e fizeram de conta que não nos conheciam."

Antes de explicar mais como a relação com o Presidente "foi-se definhando com o tempo", Lima deixa cair uma frase, aparentemente sem mais: "José Sócrates estava por perto." E segue com os estados de alma perante aquele episódio. "Não queríamos acreditar no que nos acabava de suceder", e a estupefação ficou guardada para o casal. "O que então se passou com Cavaco Silva e mulher não contámos a ninguém, pois entendemos que, enquanto eu estivesse em Belém, deveríamos manter essa situação em segredo."

Belém sente-se vigiada.

Sem segredo é o caso das escutas. Com base numa informação do então assessor, o Público dava conta das suas desconfianças, a 18 de agosto de 2009: "Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo". "Não existe nenhuma declaração minha", argumenta Lima, "em que fale de escutas a Belém". Admitindo "vigilância", o autor queixa-se que "nunca" conseguiu "combater a mentira" porque "o assunto foi dado por encerrado rapidamente" pela Presidência. "Sucedia que as desconfianças que existiam em Belém não eram diferentes de suspeitas que existiam noutros contextos", justifica Fernando Lima.

A 18 de setembro, o caso reacende-se quando o DN divulga correspondência entre jornalistas do Público, em que o assessor de Belém é apresentado como a fonte da notícia. Cavaco chama-o ao seu gabinete para lhe dizer que tem de deixar a assessoria. Mas, ao contrário do compromisso assumido pelo chefe de Estado de que não haveria notícia disso, a Lusa acaba por dar conta da demissão de Lima por "decisão do Presidente da República". Lima sente-se traído. Iniciam-se os seis anos da sombra e do silêncio.

"O Presidente quis que me mantivesse" no segundo mandato. "Era ali que teria de limpar a minha cara, levasse o tempo que levasse." Sem respostas para a atitude de Cavaco - "um mistério" - Lima deixa pistas sobre o que explicará o facto do Presidente o ter deixado cair: "Provavelmente, julgou que acalmaria os socráticos." Ou por causa do círculo familiar: "Não pude deixar de pensar se não terei prejudicado, indiretamente, os interesses do genro de Cavaco Silva num negócio que lhe parecia destinado", defende, referindo-se à venda da TVI à PT. "Se permaneci em Belém por vontade do Presidente, tive a esperança de que o tempo ajudaria a superar a situação em que me encontrava. (...) Enganei-me."

No segundo mandato de Cavaco, Fernando Lima já não será tido nem achado para as coisas da comunicação social: "Pontualmente, eram-me pedidas tarefas específicas. Deixei, porém, de ser solicitado a emitir qualquer opinião sobre os assuntos de comunicação do Presidente, interrompendo assim um período de mais de 20 anos de trabalho nessa área, quando iniciei funções com o primeiro-ministro Cavaco Silva."

Quase impercetivelmente, Fernando Lima constrói um relato em que não é apenas a sua relação com Cavaco que definhou. Também a relação do Presidente com o povo mergulhava a olhos vistos com "a palavra presidencial" a "perder valor", e de forma mais acentuada no último ano. "Impressiona-me que nada se fizesse em Belém para inverter a tendência negativa que as sondagens iam registando sobre o Presidente. Pelo menos, se alguma coisa chegou a ser tentada, foi com o meu desconhecimento."

Ao longo do livro, há expressões que o assessor utiliza para melhor falar dos seis anos: apagamento, definhamento, "caminho das pedras". Antes, muito antes destes "seis anos de sombra", Lima foi o homem que ajudou a construir as vitórias de Cavaco para São Bento e Belém, como dizem dele políticos, jornalistas e cronistas, que o próprio autor cita.

Há outro estilo que se repete: muitas vezes, Lima não nomeia as pessoas (fala de "um assessor", "uma jornalista", "um adjunto" - e por aí fora). O autor demora-se no relato dos acontecimentos, enquadrando com as opiniões de comentadores e respigando notícias dos jornais, aqui e ali pontuado com as suas "notas políticas" e "análises" que elaborou à época e com relatos de fontes "muito bem informadas", que só identifica como "pessoa do gabinete do primeiro-ministro" ou "que eu conhecia há muitos anos".

O autor diz orientar-se "pela verdade dos factos e não pela versão dos factos". Lidas as 430 páginas da obra, a conclusão é que, para os episódios contados, é necessário esperar pelas versões de outros envolvidos, a começar por Cavaco Silva, que tem na forja o terceiro volume da sua "Autobiografia Política".

O jornalista que se vê num romance de espionagem

Aos 66 anos, Fernando Lima apresenta-se como jornalista, mas viveu sempre entre as redações e os gabinetes políticos. Hoje, regressa com um livro em que relata dez anos em Belém: quatro como assessor de imprensa, seis na sombra, enfiado num gabinete do sótão.

Este açoriano da Horta, começou como jornalista nos principais títulos do Porto: O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro e o Jornal de Notícias, onde foi chefe da delegação de Lisboa de 1977 a 1987. Também esteve em Macau, de 1974 a 1976, a liderar a informação e turismo do governo do território e foi diretor de informação da agência ANOP (1982).

Nesse ano da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, presidente do PSD, foi chamado para a assessoria de imprensa em São Bento, de onde só sairia em 1995. Mas fica ainda com Cavaco na primeira candidatura falhada do social-democrata a Belém, em 1996.

Voltou ao governo em 2002 e 2003 para adjunto do ministro dos Negócios Estrangeiros, Martins da Cruz. Entre as Necessidades e a segunda candidatura presidencial de Cavaco, em 2005, vai para diretor do DN em novembro de 2003, onde está até 2004.

Quando Cavaco o afasta das funções de assessor de imprensa, em 2009, por causa do envolvimento no caso das escutas, Lima vê-se numa história de espionagem. No livro fala de As Regras de Moscovo, de Daniel Silva, refere encontros com o chefe do KGB em Lisboa, recorda espiões famosos. Fica em Belém, até ao final do segundo mandato de Cavaco, mas fora da estratégia de comunicação. Logo ele que tinha uma grande experiência acumulada de trabalho e confiança com o presidente, como descreve.

"Saber criar uma base de confiança mútua leva, normalmente, muito tempo. (...) Com efeito, os líderes políticos são, muitas vezes, mais inseguros do que se imagina (...). Com Cavaco Silva, potenciaram-se qualidades que marcavam a diferença (...)." E Lima foi o homem que ajudou a construir essa diferença, como escreve o próprio.

Excertos do livro

"O apagamento a que fui remetido em Belém, após o chamado "caso das escutas" em setembro de 2009, na presunção de que dessa maneira se acalmariam as raivas contra o presidente em período de aproximação da campanha eleitoral presidencial, fez-me sentir, ao mesmo tempo, quanto Belém passou a estar condicionado pelo poder de intimidação de José Sócrates. Os socráticos (...) exploraram bem a situação."

"Ao declarar, em 20 de janeiro de 2012, que o valor da sua reforma não chegava para pagar as suas despesas, foi patente que os portugueses ficaram atónitos com o que ouviram ao Presidente da República. Ninguém podia imaginar o que justificava tão inusitada confissão pública. As reações de repúdio não se fizeram esperar, como se tivesse ocorrido um vendaval. O Presidente ficara indefensável perante o caudal de críticas e as manifestações de achincalhamento dos detratores."

"Não ignoro que o segundo mandato [como presidente da República] foi exercido no pior período da nossa vida democrática, gerando assim uma tão forte insatisfação popular que se refletiu na apreciação do exercício das funções dos principais responsáveis políticos. No entanto, as reações que mais penalizaram Cavaco Silva tiveram a ver com atitudes incompreensíveis, que se transformaram, depois, em casos políticos."

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