Cristas tenta consenso com Passos e Costa para rever Constituição

Nova líder centrista anuncia que quer mudar as regras de nomeação do governador, mas precisa da luz verde de PSD e PS. BE está disponível para debater. Qualquer proposta não deverá avançar antes da Páscoa

É, antes de mais, uma questão de matemática e Assunção Cristas sabe-o. Por isso, a nova presidente do CDS-PP vai iniciar as démarches junto de Passos Coelho e de António Costa para que haja uma revisão constitucional tendo em vista a alteração do modelo de nomeação do governador do Banco de Portugal.

Qualquer alteração à lei fundamental carece de uma maioria qualificada de dois terços dos deputados, pelo que, explicam fontes próximas de Cristas ao DN, só com um "amplo consenso" a iniciativa que a líder anunciou ontem no encerramento do 26.º Congresso dos centristas terá pernas para andar.

As contas são simples. Ao CDS não basta a luz verde do PS e dos partidos à sua esquerda para que o projeto de revisão constitucional seja aprovado. Somados os deputados centristas aos da chamada "geringonça", o resultado seria de 140 votos. E são necessários 154 parlamentares. Precisaria sempre do PSD, sendo que Passos já mostrou ter sérias reservas a "operações de cosmética" sobre a Constituição.

Ciente disso, Cristas vai encetar conversações com Costa e com Passos, mas quer um entendimento o mais alargado possível, ou seja, não descarta que também BE e PCP se juntem a esta bandeira, que elegeu como prioritária.

Ora, ontem, no discurso após a eleição como sucessora de Paulo Portas, Cristas confirmou aquilo que o DN adiantara ao defender "a revisão da regulação e supervisão [do setor financeiro] por entidades independentes, mudando nomeadamente o sistema de designação do governador". Sem adiantar mais pormenores, a líder dos democratas-cristãos sublinhou que é preferível "reconhecer o problema e proteger os portugueses a ficar calados e a fingir que nada se passa".

No entanto, recusou qualquer cruzada contra Carlos Costa. "Não confundamos, dizer que o modelo tem de ser melhorado não é criticar pessoas, não é partidarização. Não embarcamos na politização desta questão ao jeito do PS, com o governo a criticar as entidades em concreto", atirou.

Para já, não existe qualquer ideia fechada sobre o assunto - até porque qualquer iniciativa nunca ganhará forma antes da Páscoa -, nem os centristas irão a jogo dessa forma. Poderão aparecer junto do PSD e do CDS com algum esboço - que pode até ser próxima da proposta que os socialistas apresentaram há um ano em que o governador do BdP seria nomeado pelo Presidente por proposta do governo, mas com uma audição na Assembleia pelo meio.

Confrontado sobre a possível revisão, Passos, que esteve na fila da frente quando Cristas discursou, escusou-se a "acrescentar" qualquer comentário. Mas deu uma pista: "É sabido qual é a opinião que tenho sobre vários desses temas, mas não vim aqui acentuar o que são as nossas diferentes leituras."

Momentos antes, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares deixou a porta da discussão entreaberta. "Todas as propostas concretas que o CDS tem para apresentar - imagino que o serão no Parlamento -, no momento certo, serão avaliadas com toda a abertura que caracteriza o governo", disse Pedro Nuno Santos.

Já Manuel Pizarro, membro da direção do PS, não conteve o remoque ao lembrar que Carlos Costa foi reconduzido pelo executivo PSD-CDS, contra a vontade dos socialistas, mas vincou, a propósito de alterações à lei fundamental, que "as soluções de diálogo político são essenciais".

Pelo BE, Mariana Mortágua critica a "hipocrisia" do CDS sobre essa matéria - recorda que centristas estavam no governo que nomeou pela segunda vez o supervisor - e, ironicamente, dá "as boas-vindas" ao CDS à discussão para a qual os bloquistas estão disponíveis.

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