Crianças foram as mais afetadas pela pobreza em Portugal

Um quarto das crianças era, em 2014, pobre. Foram elas o grupo mais afetado pela quebra nas prestações sociais e pelo desemprego dos pais, mostra estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos apresentado ontem

Mais do que a classe média, quem sofreu com a crise foram as crianças. O nível de pobreza infantil inverteu uma tendência de quebra que vinha desde 2009 e atingiu um quarto das crianças em Portugal, entre 2011 e 2014. Uma realidade comprovada por quem trabalha mais de perto com os mais novos. "Os apoios sociais diminuíram e as famílias achavam que podiam poupar na comparticipação que teriam de fazer para as instituições e que em casa tinham condições para as educar", aponta o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS). Foi nesta fase, que as famílias perderam em média 116 euros por mês de rendimento disponível e em que o país viu 2,02 milhões de pessoas viverem na pobreza.

Estas dificuldades levaram a que milhares de crianças ficassem até privadas da oportunidade de ter pelo menos uma refeição equilibrada por dia, reconhece Lino Maia. E se as IPSS viram de perto esta realidade acontecer, os números também a registam. Entre 2011 e 2013 a pobreza entre as crianças até aos 17 anos cresceu e atingiu o máximo de 25,6%. Melhorou apenas em 2014, para um valor (24,8%) ainda muito próximo de um quarto das crianças portuguesas atingidas pela pobreza. O acentuar da pobreza infantil durante os anos da crise é uma das conclusões do estudo Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que foi ontem apresentado.

O facto de as crianças terem sido o grupo mais afetado deve-se essencialmente a dois fatores. "Em primeiro lugar a quebra nos apoios sociais e em segundo lugar o desemprego dos pais", apontou o economista Carlos Farinha Rodrigues, coordenador do estudo (ver entrevista na página ao lado).

Por comparação com os idosos - o outro grupo etário mais vulnerável - é possível perceber que as crianças viram a sua situação melhorar. "A aposta que o governo fez em reconhecer a ação das instituições sociais deu para manter um trabalho de apoio aos mais idosos e estes ficaram assim mais protegidos durante a crise. Já em relação às crianças, estas foram afetadas pelo desemprego dos pais e pelos cortes nos apoios sociais", aponta Lino Maia.

Ou seja, "a pobreza infantil aumentou porque estas estão em agregados familiares pobres. A pobreza estendeu-se à classe média, tornando-os pobres e aos pobres miseráveis. Antes da crise não dávamos apoio a advogados e passámos a dar porque eles ficaram desempregados", acrescenta Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas.

Para o presidente da CNIS, faltou, nos anos da crise, "um aposta determinante na educação, junto das famílias, para que as crianças não fossem retiradas das creches, do pré-escolar e que tivessem aí apoios na alimentação, que não conseguiam ter em casa".

Um em cada três foi pobre

Entre 2009 e 2012, Portugal tinha um terço de população pobre. No entanto, esta foi uma situação transitória para muitos: 12,6% estiveram em situação de pobreza durante um ano, mas 8,2% não saíram deste patamar nos quatro anos em análise. Mais preocupante, segundo os autores do estudo "é que cerca de um quarto dos indivíduos pobres em 2012 se encontravam pela primeira vez nessa situação, ou seja, não tinham sido pobres entre 2009 e 2011". "Este resultado parece sugerir que a presente crise adicionou à pobreza tradicional, correspondente aos setores sociais habitualmente mais vulneráveis às situações de pobreza, uma vaga de novos pobres provenientes de outros grupos sociais usualmente não afetados pela incidência de pobreza", conclui.

Outra das conclusões mais surpreendentes, segundo Carlos Farinha Rodrigues, é a de que a classe média não foi a mais afetada. "De facto, parece que houve a preocupação de proteger os mais pobres, com os cortes salariais e das pensões só para quem ganhava acima de 1000 euros, mas essa é uma meia verdade. Porque as famílias mais pobres são fortemente dependentes dos apoios sociais e esses foram cortados durante este período", explica. Em termos estatísticos, os 10% mais pobres perderam 25% do seu rendimento, enquanto que a classe média perdeu entre 10 e 16% dos rendimentos. Já os mais ricos tiveram quebras de 13% nos rendimentos entre 2009 e 2014.

Os jovens foram também especialmente vítimas dos anos de crise e de programa de ajustamento. São o grupo mais afetado pelo desemprego e os que entram no mercado de trabalho, com menos 25 anos, viram os seus rendimentos cair 29%, em relação ao pré-crise. Foram os licenciados que mais perderam rendimento: 20%.

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