Crescimento económico: direita pede mais reformas, esquerda aumenta reivindicações

A melhoria das condições económicas do país obriga os partidos da oposição, PSD e CDS, a criar uma nova narrativa nas críticas ao governo de Costa. PCP e BE aumentam a pressão sobre o Orçamento do Estado para 2018

A melhoria da condição económica do país, com um crescimento acima do esperado, coloca a oposição ao governo, PSD e CDS, numa posição incómoda. E a esquerda que o suporta, PCP e BE, a reivindicar mais e a marcar a sua posição no terreno.

"Dissemos sempre não estraguem. E o governo estragou durante um ano", argumenta o deputado social-democrata Miguel Morgado. Não desarma da ideia de que a situação económica do país podia ser bastante melhor do que a atual. "Se não tivessem acontecido as reversões, poderiam ter sido feitas as reformas económicas para o próximo ciclo."

Mais do que reivindicar os louros de ter tirado o país do fosso em que caiu em 2011, o discurso do PSD é agora o do que se poderia estar já a fazer e não está feito. "O governo da esquerda sacrificou o investimento e precisávamos de continuar a fazer as reformas estruturais para aumentar o crescimento e de um modo sustentado durante 10 ou 20 anos", afirma Miguel Morgado.

Duarte Marques, também ele deputado do PSD, mantém a coerência da mensagem: "Temos de exigir que o governo faça as reformas que tem andado a adiar."

O CDS demarcou-se sempre do discurso do PSD do "nós é que conseguimos" e o governo não ia conseguir, diz o centrista Adolfo Mesquita Nunes. "Apenas dissemos que o que prometia não era possível. O Orçamento do Estado que aprovou não é o que executa", diz. A única maneira de responder eficazmente à narrativa de sucesso de António Costa é, na opinião do vice-presidente do CDS, apresentar alternativas políticas. "Dizermos o que estaríamos a fazer de diferente se estivéssemos no governo."

Se a direita reclama para si a autoria das reformas que terão conduzido à melhoria da situação económica, a esquerda faz o mesmo sustentando o absoluto contrário - foi a política de devolução de rendimentos que tirou o país da estagnação económica. "Os resultados económicos do governo são consequência dos acordos à esquerda", diz ao DN Jorge Costa, da direção do BE. "Os dados económicos que têm sido conhecidos não são separáveis da devolução de rendimentos que tem sido feita no último ano e meio", sublinha também João Oliveira, líder parlamentar do PCP, acrescentando que o "efeito positivo" das medidas tomadas até agora "só torna ainda mais evidente a necessidade de se ir mais longe". O dirigente bloquista alinha pela mesma ideia: "As pessoas compreendem bem que a folga orçamental que se registou no ano passado e que neste ano, pelos sinais que vamos tendo, pode registar-se novamente não deve ser usada para cumprir metas orçamentais, mas para ir mais longe na recuperação de rendimentos."

Este foi o reflexo mais evidente, no discurso da esquerda, da melhoria dos indicadores económicos - BE e PCP querem que estes resultados se traduzam em novas medidas de restituição de remunerações e reposição de direitos. A lista de exigências para o próximo Orçamento do Estado faz prova disso: descongelamento de carreiras na função pública, aumento dos escalões de IRS, aumento das pensões, despenalização da reforma antecipada nas longas carreiras contributivas, mais investimento público na saúde e educação. E se alguém não estava a perceber bem a exigência, aí estão várias manifestações e greves setoriais a torná-la mais clara.

O facto de às boas notícias na economia se estar a seguir um momento de contestação social como ainda não se tinha visto nesta legislatura não surpreende o politólogo António Costa Pinto, que considera "natural que se multipliquem as tensões", como é "natural que o movimento sindical recupere alguma dinâmica setorial": "Numa conjuntura em que os resultados são positivos é normal que os partidos que assinaram o acordo com o PS estiquem a corda nas reivindicações." Mas traduzir-se-á isto numa maior clivagem das bancadas à esquerda face ao governo? António Costa Pinto não acredita neste cenário: "O que vamos ter é uma negociação [do Orçamento do Estado] relativamente dura, com os partidos a quererem uma fatia maior do bolo face ao crescimento registado e a alguma folga orçamental. Não mais do que isso. E não nos podemos esquecer de uma coisa - a relação do PS com os partidos à sua esquerda nunca será tão fácil e rotineira como entre o PSD e CDS. A diversidade à esquerda sempre foi, é, e continuará a ser muito maior do que à direita."

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