Costa queria agência da UE no Porto mas não havia condições

Primeiro-ministro tenta proteger-se de polémica. Lisboa é a única cidade com os requisitos mínimos exigidos por Bruxelas

Através de uma "fonte oficial do governo" citada pela Lusa, o primeiro-ministro fez ontem passar a mensagem de que na verdade defendeu "até ao limite" a possibilidade de ser o Porto a albergar a futura sede da Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla inglesa) quando esta, por causa do brexit, tiver de deixar Londres.

Na notícia, diz-se que o chefe do governo foi forçado a mudar de ideias depois de uma visita de uma "comissão de candidatura" à sede da EMA em Londres. A visita - feita, segundo o DN apurou, pelo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e pela secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Margarida Marques - visou avaliar as condições de sucesso de uma candidatura portuguesa, há dias lançada oficialmente. A concorrência é duríssima - cerca de 20 outras cidades europeias querem também a EMA. Ontem à tarde, a Reuters noticiou que a Alemanha avançará com a candidatura de Bona para sede da EMA e Frankfurt (onde já está o BCE) para sede da Agência Bancária Europeia, outra que deixará Londres depois do brexit.

Essas condições de base para a UE escolher a cidade que albergará a EMA depois do brexit, todas elas cumulativas, passarão pela existência de fáceis ligações aéreas às capitais europeias, pela existência de escolas internacionais para os filhos dos funcionários e pela disponibilização imediata de uma lista de edifícios. "Foi explicado ao primeiro-ministro que Lisboa oferecia melhores garantias de segurança do que o Porto e que a opção pela capital portuguesa era a única que reunia condições mínimas de êxito da candidatura", salientou à Lusa a mesma fonte oficial do governo.

Autoridades alemãs confirmaram à Reuters candidatura de Bona para sede da EMA e de Frankfurt para a Agência Bancária Europeia

A tensão Porto-Lisboa que esta questão tem suscitado voltou ontem a manifestar-se depois de o politólogo Nuno Garoupa recordar na sua página no Facebook que a candidatura lançada pelo governo para que Lisboa seja a futura sede da EMA fora alvo no Parlamento de um voto de saudação aprovado por unanimidade (em 10 de maio passado).

O presidente da Câmara do Porto - e recandidato ao cargo -, Rui Moreira, reagiu de imediato: "O PS, que agora veio à Câmara do Porto propor um grupo de trabalho e sentir-se indignado [pela escolha de Lisboa] não é o mesmo que votou na Assembleia da República, onde são deputados uma vereadora na Câmara do Porto e o líder da concelhia do Porto do PS?"

Tiago Barbosa Ribeiro, o referido líder da concelhia do PS-Porto - e deputado na AR -, reagiu logo a seguir: "Sim, é verdade. E não, não há nenhuma incoerência. A 10 de maio, este voto foi aprovado por unanimidade na Assembleia da República. Alguns dias depois, o Porto fez saber que queria candidatar-se à instalação da EMA."

Ora, acrescentou, "verificando--se isso [a candidatura do Porto] e que os pressupostos de todo o processo não teriam sido devidamente cumpridos, o PS Porto e vários deputados do PS eleitos pelo Porto fizeram o que lhes competia: Manuel Pizarro [vereador] apresentou uma proposta para um grupo de trabalho no Porto (a que se juntou Rui Moreira com o seu voto) e os deputados questionaram os estudos". "Estamos a fazer o nosso trabalho. Entretanto, depois de quase quatro anos, ficamos a saber que Rui Moreira olha para o PS como o seu principal adversário."

Entretanto, às pretensões portuenses juntou-se a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins (eleita pelo Porto) - uma das deputadas que em 10 de maio contribuíram para a unanimidade da saudação parlamentar à candidatura de Lisboa.

"Existe consenso para apresentação de uma candidatura forte, mas o que aconteceu foi uma precipitação do governo, que decidiu que deveria ser Lisboa sem ter feito as conversas necessárias com o país, com as pessoas ligadas a esta área", disse Catarina Martins aos jornalistas durante uma visita ao bairro do Forte da Bela Vista, em Setúbal.

Irónico - visto que agora já não se vislumbra uma sombra sequer da unanimidade parlamentar pró- -Lisboa registada em 10 de maio -, o Presidente da República pediu aos partidos que "estabilizem" a sua opinião. "O que o Presidente pode desejar, em primeiro lugar, é que rapidamente os partidos definam uma posição. Se é a que tinham, se é outra e qual: Porto ou Braga. Depois, que definam por consenso, para um não defender uma coisa e outro defender outra", disse Marcelo. Deixando um apelo: "É preciso todos juntarem-se para que Portugal ganhe, porque isso é que é importante."

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