"Consumo de álcool subiu nas mulheres e a partir dos 45 anos"

Os centros de saúde não estão a detetar por sistema os casos de alcoolismo, pois falta uma rede de referenciação, diz ao DN Manuel Cardoso, subdiretor do SICAD

Este ainda é um problema de saúde pública e Portugal é um dos países onde mais se consume álcool, principalmente a partir da meia idade. O subdiretor geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, Manuel Cardoso, diz que subiram os pedidos de tratamento, mas que também há demora no atendimento.

Discute-se as dependências no Centro Cultural de Belém. As estratégias nacionais estão a seguir o caminho correto?

Desde sempre que a estratégia nacional refere como um dos principais princípios o humanismo, na presunção de que o cidadão toxicodependente merece o reconhecimento da plena dignidade humana. O princípio do humanismo junta a declaração Universal dos Direitos do Homem e a conceção europeia. Por outro lado, o modelo português é visto em termos internacionais como essa questão de olhar para o cidadão como um todo.

Nestes dias falou-se de canábis, jogo...

Hoje discute-se em várias partes do mundo a legalização do uso terapêutico da canábis, quer um eventual uso recreativo. Há a perceção de que o aumento do consumo no último ano é um indicador do aumento do risco de dependência.

É por isso que há cada vez mais pessoas em tratamento?

Há um aumento de tratamento de pessoas com dependências de canábis, o que confirma a referência que tínhamos em relação aos consumos.

E o jogo...

Faz falta uma coordenação nacional nestas questões. Isto vai fazer com que haja um aumento da oferta do jogo online e uma menor capacidade de intervenção. Por isso, há o risco de aumentarem os riscos de existirem problemas com o jogo patológico.

Este último dia do III Congresso do SICAD é dedicado aos problemas do álcool e ao 10.º aniversário do Fórum Nacional de Álcool e Saúde...

Portugal tem dos valores de consumo per capita dos mais altos da Europa. A questão é que a maioria dos portugueses não bebe bebidas alcoólicas, o que quer dizer que há pouca gente a consumir, mas muito. Um inquérito à população mostrou que nas pessoas de mais idade - a partir dos 45 anos - houve um aumento de consumo. Principalmente nas mulheres. Não temos uma explicação clara para esta situação. Também se verifica um aumento de consumo nas idades mais avançadas.

Mas houve recuos entre os mais novos...

No estudo à população geral - dos 15 aos 24 anos - houve uma redução do consumo problemático. Isto faz-nos querer que estamos no bom caminho.

E como se consegue fazer esse acompanhamento?

Não conseguimos montar uma rede de referenciação - que faça uma identificação tão precoce quanto possível dos consumos de risco - nos centros de saúde etc. E se não houver ninguém a alertar para estas situações, ninguém se lembra dos consumos de risco.

Mas há trabalho feito para conseguir essa rede?

Não havia um mecanismo informatizado para se trabalhar, agora estamos a ver se conseguimos resolver isso até ao fim do ano.

Como se muda a mentalidade em relação à bebida?

Temos de acabar com a perceção que um indivíduo que se embebeda é o maior. É caminho que estamos também a percorrer.

No Fórum Nacional Álcool e Saúde?

Fizemos um trabalho de proximidade com os membros do FNAS (de que fazem parte alguns ministérios, empresas de produção, retalhistas, marketing, ONG"s, universidades, municípios, associações de estudantes e de pais etc, IPSS"s, sociedades cientificas, ordens de médicos, psicólogos, farmacêuticos). Todos concordam com três desígnios: quem tem menos de 18 anos não bebe, vai conduzir não bebe, mulher grávida e a amamentar. Estas são as ideias chaves que todos os membros têm de cumprir. O presente é tentar pôr isto em marcha e o futuro duas componentes: continuar este trabalho e ir além da componente álcool para a esperança de vida e o álcool enquanto fator de risco.

Também subiram os pedidos de tratamentos?

Há um ligeiro aumento, mas também há algum tempo de espera. A facilidade de acesso à consulta não é como gostaríamos que fosse, independentemente de poder haver algum estigma. Tem havido algum aumento, mas também devido à capacidade de resposta. Temos de intervir rápido. Caso contrário vamos ter problemas nas questões associadas ao consumo como os acidentes nas estradas, o aparecimento de cancros, etc.

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