"Consensos" de Costa podem conduzir a "troca de favores" entre PS e PSD

Miguel Poiares Maduro foi o convidado desta na noite na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide. No domingo Passos Coelho fará o discurso de encerramento.

O ex-ministro adjunto, regressado em 2015 à docência universitária em Florença, reconhece que a proposta de António Costa para que haja consensos de dois terços no Parlamento em torno das grandes obras públicas é uma proposta pela qual somos "instintivamente atraídos" - mas alertou para os seus perigos.

Segundo explicou, uma obrigação de dois terços - que implica um acordo entre o PS e o PSD - pode originar entre os dois partidos uma lógica de "troca de favores" em que cada um dos partidos aprove tudo o que o outro propõe, para ter as suas próprias propostas aprovadas, criando no fim "um plano de obras muito maior do que o necessário".

Assim, acrescentou, o que deveria acontecer era essa necessidade de dois terços existir mas apenas para cada uma das obras individualmente considerada, de forma a não originar consensos movidos apenas por uma lógica de "maior denominador comum".

Poiares Maduro lamentou a "superficialidade" com que a proposta dos "consensos" avançada pelo primeiro-ministro foi avaliada pelas elites portuguesas. No seu entender, "a questão fundamental é garantir que qualquer consenso é assente em princípios" e isso, segundo acrescentou, António Costa não pode garantir porque "a sua credibilidade para propor consensos vale o mesmo do que a consistência e a sustentabilidade do cabelo do senhor Trump".

Numa conferência centrada no tema do "dilema moral" que vive quem faz hoje política - "Concentrar-se no que é eficaz ou no que é certo?" - afirmou que o primeiro-ministro governa apenas sintonizado com o princípio da "total obsessão com o que funciona no imediato" que domina a política moderna

Essa obsessão é aquela que determina que "o que importa é decidir de acordo com ganhos imediatos em vez de com ganhos de longo prazo" e que sobrevive devido a um comentarismo sempre centrado na "dimensão de percepção e não sobre o conteúdo" das políticas.

"Nunca ouvi dizer que ele [António Costa] tem uma visão para Portugal", "ele acorda de manhã, vai ao seu focus group familiar e diz 'focus meu, focus meu, quão popular sou eu?'" e depois "passamos 90% do tempo a avaliar habilidades e não passamos tempo a avaliar políticas públicas." Mas - perguntou - "desde quando é que a habilidade pode ser uma virtude?"

"Não me ocorre nenhuma medida deste Governo com visão de longo prazo", "tudo são medidas visando ganhos políticos no curto prazo", afirmou ainda, exemplificando com a decisão de fazer incidir os aumentos fiscais nos impostos indiretos e não nos diretos. "Do ponto de vista da perceção é mais eficaz" porque é uma forma de prosseguir políticas de austeridade mas "sem parecer" que isso está acontecer.

Para o ex-ministro, tornou-se-lhe um "hábito" ver António Costa "usar de alguma desonestidade política". Referiu como último exemplo a acusação que o primeiro-ministro fez a Passos de que este criticava os bombeiros todos os dias quando na verdade o que Passos fez foi denunciar a descoordenação na Proteção Civil. "Chocamo-nos com Trump e não nos chocamos com o primeiro-ministro quando disse algo factualmente falso", indignou-se.

Cruzado com este problema, Poiares Maduro referiu um outro, o dos media em Portugal. Para o ex-ministro, "a política tem trazido o pior dos nossos media e os nossos media têm trazido o pior da nossa política". O "crivo" e o "escrutínio" que fazem sobre a política limita-se a "amplificar esta política da perceção".

Sendo certo, na sua análise, que a comunicação social portuguesa "tem menos enviesamento do que os políticos pensam" e que "a maior parte dos jornalistas querem ser independentes" e "fazer bem a sua função", a verdade, também é que "o nosso jornalismo político tem uma excessiva proximidade com o poder político".

Ou seja, há um "jornalismo transacional" que "faz com que os jornalistas não queiram ter problemas com políticos que lhes dão notícias" - e isto somado a "uma predominância do jornalismo em 'off' que é claramente excessiva". "O 'off devia ser uma exceção mas em Portugal a política faz-se através do jornalismo em 'off'".

A 15ª edição da Universidade de Verão do PSD, realizada como sempre em Castelo de Vide, terminará este domingo, ao final da manhã, com uma intervenção de Pedro Passos Coelho.

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